MUDANÇAS NO CLIMA AFETAM A AGRICULTURA
Não há mais como negar: a produção agrícola está se tornando, a cada ano, a cada safra, uma atividade de risco crescente, em função principalmente das variações climáticas adversas, que se repetem com uma frequência assustadora. Todas as regiões produtoras do mundo estão sendo afetadas pelo atual rearranjo do clima, determinado, em primeira instância, pelo calor do Sol que, a 150 milhões de km da Terra, comanda o movimento das massas de ar em nosso frágil planeta. O momento que vive a humanidade, com uma população próxima a 6 bilhões de pessoas, é especialmente crítico, pela maior dependência das fontes alimentares que se renovam com o calor e a chuva.
No ano passado, quebras de safras significativas atingiram a África do Sul, Austrália e Rússia, com reflexos no estoque mundial de grãos, que acabaram 1995 no patamar mais baixo dos últimos 40 anos. No Brasil, na safra 94/95, o começo foi extremamente difícil para as regiões sudeste e centro oeste, enquanto o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Sul do Paraná tinham chuvas abundantes. Hoje, na primeira quinzena de janeiro de 1996, uma seca devastadora castiga extensas regiões produtoras de grãos no Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai, enquanto chuvas intensas, que chegam a causar enchentes, acontecem de Santa Catarina até os estados do Norte e Nordeste, invertendo a situação anterior. Neste momento, é possível afirmar que o Rio Grande do Sul terá uma quebra de 3 a 5 milhões de toneladas, se chover.
O QUE ESTÁ ACONTECENDO?
Quando ainda era Ministro da Agricultura, em 1994, Synval Guazelli enviou um fax à médium Adelaide, da Fundação Cacique Cobra Coral, agradecendo a atenção da entidade em função da estiagem. A médium respondeu ao fax com um alerta: o fenômeno El Niño estava de volta. Hoje, a nova configuração climática que se estabelece sobre a América do Sul é um fenômeno inverso, chamado de La Niña. Os cientistas possuem um conhecimento maior do que há dez anos sobre os fatores que influenciam o clima: efeito estufa, El Niño, La Niña, atividades vulcânicas, buraco na camada de ozônio, atividade solar, desmatamento das florestas tropicais — todos são fatores conhecidos. Mas saber como tudo isso começa, eis a questão.
A PALAVRA DA PESQUISA — ENTREVISTA COM GILBERTO CUNHA (CNPT-EMBRAPA)
RPD — O que são essas ferramentas que estão sendo preparadas?
Gilberto Cunha — Estamos trabalhando com ferramentas de modelagem e simulação de sistemas cultivados (DSSAT = Decision Support System for Agrotechnology e EPIC = Erosion Productivity Impact Calculator) aplicados a séries históricas, de longo prazo (30 anos), de dados meteorológicos. Outras unidades da Embrapa também estão fazendo o mesmo trabalho. O objetivo é definir estratégias de manejo que minimizem o impacto da variabilidade climática interanual e otimizem o aproveitamento das condições climáticas mais frequentes.
RPD — Quais são as previsões para os próximos meses?
GC — Nós temos um limite de previsibilidade de 5 dias; o serviço meteorológico brasileiro não tem horizonte acima desse período. Quem especular além disso não tem respaldo científico. As previsões climáticas (3 a 6 meses, até 1 ano) ainda estão em fase experimental. O Centro Americano de Previsão Climática divulgou que estamos passando pelo episódio La Niña, com resfriamento anormal das águas tropicais do Pacífico Oriental. O INPE projeta precipitações abaixo do normal para os meses de janeiro e fevereiro no Rio Grande do Sul.
RPD — Desde quando você acompanha o clima do RS?
GC — Sou engenheiro agrônomo e fiz mestrado e doutorado em meteorologia agrícola, todos na Universidade Federal do RS. Trabalhei no Instituto de Pesquisas Agronômicas do RS (depois FEPAGRO) e na Universidade Luterana do Brasil. Em 1989 ingressei na Embrapa. A demanda que temos sentido é mais por informações sobre se vai chover e quanto vai chover — o que muitas vezes é difícil de prever.
RPD — O buraco na camada de ozônio sobre a Antártida tem influência sobre as variações climáticas?
GC — Trata-se de um fenômeno diferente. A camada de ozônio está localizada a cerca de 25 km de altura e protege a Terra absorvendo as radiações ultravioletas emitidas pelo Sol, que são letais para alguns organismos vivos, têm ação mutagênica e causam câncer de pele.
BOX — A SECA
A região da fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, São Borja e outros municípios, tem sido castigada com secas frequentes. Conta-se que, num final de tarde, com calor de 40°C, um viajante parou para dar carona a um casal de gaúchos. O gaúcho empurrou a companheira para o banco de trás e não disse mais uma palavra. Passados alguns quilômetros, o motorista resolveu puxar assunto e perguntou: "E então, meu amigo, como está a seca?". O gaúcho deu uma olhada meio de lado para a velhinha no banco de trás e falou baixo, aproximando-se um pouco do motorista, para disfarçar: "Não tem jeito de morrer, vizinho! É uma semana em casa e outra no hospital! Já consumiu quase tudo o que eu tinha. Não sei mais o que fazer!"
Matéria de capa. Quebras safra 1995: África do Sul, Austrália, Rússia → estoque mundial grãos 40 anos mais baixo. BR 94/95 sudeste/centro-oeste seco vs sul chuvoso. Atualmente jan/96 RS+AR+UY seca devastadora vs SC+norte/nordeste chuvas/enchentes. Previsão quebra 3-5 mi t RS. Fenômenos: efeito estufa, El Niño/La Niña, vulcanismo, ozônio. Entrevista Gilberto Cunha (agrometeorologista CNPT-Embrapa): ferramentas DSSAT (Decision Support System for Agrotechnology) e EPIC (Erosion Productivity Impact Calculator) sobre séries 30 anos. Limite previsibilidade 5 dias. La Niña atual (resfriamento Pacífico Oriental, INPE prevê precipitações abaixo do normal jan/fev RS). Box humor 'A SECA' fronteira oeste RS (causo do gaúcho com velhinha doente). Box Gilberto Cunha: mestrado/doutorado meteorologia UFRGS, Instituto Pesquisas Agronômicas RS (FEPAGRO), ULBRA, Embrapa desde 1989.