CHILE — SUCESSO NAS TERCERAS JORNADAS DE CERO LABRANZA + VISITA AO FUNDO CHEQUÉN (CARLOS CROVETTO)
Gilberto Borges
O Chile é um país fino como um violino, segundo Pablo Neruda. É um lugar de natureza linda e, ao mesmo tempo, rude. A rosa mosqueta é uma flor delicada, que explode sua beleza singela por todos os locais, de forma expontânea. No começo de dezembro, as flores estão em toda parte, nos campos, banhados e bosques. Nas lavouras de trigo, as plantas gemem sob o peso dourado de 6 toneladas em cada hectare.
Apesar das dificuldades universais do setor primário, o Chile vive um momento especial de prosperidade, que culmina com a perspectiva concreta de ingressar no Grupo NAFTA, além do namoro explícito com os países componentes do Mercosul. Por outro lado, a degradação dos solos das principais regiões produtoras de cereais, no centro sul do Chile, principalmente na pré-Cordilheira Andina, são motivos de preocupação. As Terceras Jornadas Nacionales de Cero Labranza, realizadas de 5 a 8 de dezembro, no Centro Regional de Investigacion Carillanca, em Temuco, tiveram como objetivo debater as principais tecnologias usadas e as perspectivas do plantio direto (Cero Labranza, Siembra Directa) como forma de recuperação da sustentabilidade da agricultura chilena.
Aproveitamos a oportunidade para visitar a propriedade de Carlos Crovetto, presidente da Sociedade de Conservação de Solos de Chile (SOCOSCHI), em Florida, cerca de Concepción, 500 km ao Sul de Santiago. Dom Carlos e sua esposa Lucia nos receberam de forma carinhosa para mostrar a história do “Fundo Chequén”, a propriedade com a qual ele estabeleceu uma inquieta relação para desenvolver uma agricultura anticonvencional, baseada na deposição da palha sobre o solo, que marcou profundamente e ajudou a desenvolver o plantio direto em toda a América.
A composição física do Chile, vista através de um corte transversal, mostra a Cordilheira da Costa do Pacífico, um vale central e a zona chamada de Pré-Cordilheira Andina. No vale Central, com o uso de irrigação, está concentrada a grande produção de frutas, sementes, flores e hortaliças que dão ao País uma invejável situação econômica com a exportação para a Europa, Estados Unidos e outros países.
A maior área de plantio direto está localizada no Centro Sul, entre os paralelos 35º e 45º, a cerca de 700 km ao sul de Santiago, na VIII, IX e X regiões, situadas basicamente entre Concepción e Osorno. O trigo é sua principal cultura também no plantio direto. Temuco é a maior cidade da IX Região. A cerca de 15 km está localizada a Estação Experimental Carillanca, do INIA, onde foram realizadas as Terceras Jornadas de Cero Labranza.
Hoje os produtores chilenos plantam aproximadamente 90.000 hectares sob plantio direto, o que representa um pouco mais de 10% da área total, estimada pelos técnicos em 500.000 hectares de trigo, 70.000 de milho, 60.000 de aveia, 50.000 de cevada. A produtividade em trigo, a principal cultura de grãos do País, é variável, mas a produção mínima é de 3 ton/ha. Na fazenda de Carlos Crovetto, encontramos lavouras de trigo com potencial de 8 ton/ha, prontas para a colheita. Outras culturas usadas com frequência são a colza e o tremoço.
DEGRADAÇÃO DOS SOLOS
“A zona produtora de grãos, principalmente na Pré-Cordilheira, que produziu trigo para exportar para a Califórnia, durante o ciclo do ouro, no século passado, teve o seu solo desgastado e muitas áreas estão sendo usadas para florestas.” A afirmação é do engenheiro agrônomo e professor de cereais da Universidade De La Frontera, de Temuco, Pedro Del Canto Salgado, que acompanha o desenvolvimento do plantio direto há mais de dez anos. “Quando aumentávamos a produção de trigo, aumentavam também os problemas de erosão. Começamos a trabalhar com cero labranza em 1985 mas, na comparação dos sistemas, eu a colocava em último lugar. Nos nossos trabalhos, as duas primeiras opções eram o arado escarificador e o arado de discos, considerados superiores à cero labranza. Com o tempo, tive que mudar de opinião.”
Hoje, o Chile ainda continua a ter severas perdas de solo, principalmente pela erosão hídrica, segundo Pedro Del Canto. Experimentos oficiais demonstram que na rotação aveia-colza-trigo, em três anos, são perdidos 105 toneladas de solo por hectare, em plantio convencional. Na cero labranza, no mesmo período, esta perda fica em 1 tonelada por hectare. “E não é apenas o solo e suas partículas físicas que se perdem. Nos últimos 25 anos de agricultura convencional, na zona da Pré-Cordilheira, os níveis de matéria orgânica e potássio baixaram 50%.”
Para Pedro Del Canto, somente o plantio direto permite conservar o solo e reciclar nutrientes. “Em 1990 tivemos um apoio do Estado para aumentar o trabalho de investigações e desenvolvimento de tecnologia. Montamos grupos de agricultores interessados em cero labranza e, nesse sentido, contamos com o apoio especial de D. Carlos Crovetto, que fez inúmeras palestras e recebeu os produtores em sua fazenda, incentivando a adoção do sistema.”
Apesar de algumas dificuldades, como o ataque de lesmas (babosas), que são favorecidas pelo ambiente formado na decomposição da palha, na cultura do milho, Pedro é um entusiasta do sistema. “Com a união entre os diversos setores interessados”, finalizou ele, “a cero labranza aumentará progressivamente no Chile, como uma forma eficiente de diminuir a erosão e também de aumentar a fertilidade.”
Relato Gilberto Borges III Jornadas Carillanca Temuco 5-8/dez/1994. Cobre p7+p8. Visita ao Fundo Chequén de Carlos Crovetto (Florida, 500 km Sul Santiago, IX Região, pré-Cordilheira Andina). Chile PD: ~90.000 ha (>10% — 500.000 ha trigo, 70.000 milho, 60.000 aveia, 50.000 cevada). Trigo mínimo 3 t/ha (Crovetto até 8). Citação Pedro Del Canto Salgado (Universidade La Frontera Temuco) — PD desde 1985, inicialmente em último lugar; rotação aveia-colza-trigo 3 anos: 105 t/ha perdidas convencional vs 1 t/ha PD; MO+K baixaram 50% últimos 25 anos. 1990 apoio Estado para grupos. Dificuldades: lesmas no milho.