Carta ao Presidente da República (Manoel Henrique Pereira, FBPDP, a Fernando Henrique Cardoso)


Autores:
Publicado em: 28/02/1995

CARTA AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Excelentíssimo Senhor Fernando Henrique Cardoso
Digníssimo Presidente da República Federativa do Brasil

No momento em que Vossa Excelência assume o comando do Nosso País, com uma forte expectativa estabelecida, no coração e na mente de todos, de que vamos fazer do Brasil a pátria com a qual sempre sonhamos, a agricultura brasileira vive uma importante revolução tecnológica, talvez a mais significativa de sua história, com profundas implicações econômicas e sociais.

Estamos falando do Plantio Direto na Palha, um sistema que já ocupa, na atual safra de verão, uma área superior a 3 milhões de hectares, mais de 10% do total que plantamos em todo o País. Esta nova tecnologia, que serve as grandes e pequenas propriedades, na verdade, é de uma simplicidade impressionante, pois imita a própria natureza, usando palha ou resteva da cultura anterior para proteger o solo e gerar um aumento da matéria orgânica e da vida do solo. Semeando diretamente, sem nenhum preparo, este processo tem demonstrado eficiência, aumentando a produtividade e diminuindo os custos, principalmente através da redução do consumo de combustíveis. Essa redução é de 50% em relação ao preparo convencional, o que gera uma economia para o agricultor e para o País como um todo, na ordem de milhões de litros todos os anos.

Mas, o principal benefício do Plantio Direto está no controle da erosão que, segundo estimativas conservadoras dos principais órgãos de pesquisa e extensão rural, carrega acima de 800 milhões de toneladas por ano da camada mais fértil do solo brasileiro. Trabalho de pesquisa publicado nesta edição demonstra que, em área lavrada e gradeada, apenas uma chuva forte pode levar 38 toneladas de solo por hectare, enquanto nas áreas de plantio direto as perdas são insignificantes.

Como a maioria dos agricultores brasileiros usa o sistema tradicional de preparo, e como somos produtores de 75 milhões de toneladas de grãos, é doloroso admitir que, para cada tonelada de alimentos produzidos, perdemos 10 toneladas de solo, agregado de fertilizantes, sementes e outros produtos. O retrato dessa perda está estampado nas águas escuras de nossos rios e lagos. Os prejuízos para o país são incalculáveis porque, segundo estudos da FAO, quando se chega a um nível elevado de degradação, os custos para a recuperação do solo são impraticáveis.

O Sistema Plantio Direto, que vem sendo aperfeiçoado, pelo esforço de produtores e técnicos, ao longo das duas últimas décadas, está revertendo esse quadro e modificando a face dos agricultores e da agricultura brasileira. Essa modificação está clara nas produtividades de 10 toneladas anuais de grãos, sem perdas de solo, alcançadas por agricultores cujas lavouras já estão estabilizadas com uso de plantio direto.

Porém, os grandes beneficiados dessa tecnologia serão as gerações que estão por vir, porque herdarão uma terra fértil e produtiva, onde será possível praticar uma agricultura sustentável, capaz de produzir alimentos de forma competitiva, para o Brasil e para a humanidade do próximo milênio.

Os agricultores que praticam o plantio direto não estão livres dos problemas de crédito, das oscilações do mercado e da falta de uma política agrícola definida e firme. Mas, a busca por uma nova maneira de se relacionar com a terra, ensinou-os a lutar com suas próprias forças.

Neste momento, poderíamos relacionar uma série de medidas com as quais o governo pode incentivar o desenvolvimento desse sistema, que está trazendo e irá trazer benefícios de ordem macroeconômica para o País. Porém, a finalidade da presente não é essa mas, ao contrário, oferecer uma parcela de esforço e conhecimento do que já estamos fazendo, para que o Brasil alcance um caminho estável para sua agricultura e para a sociedade como um todo.

Despedimo-nos com votos de elevada estima e consideração.

Manoel Henrique Pereira — Presidente da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha

carta de Manoel Henrique Pereira (Pres. FBPDP) ao Presidente FHC. PD ocupa +3 milhões ha safra 94/95 (>10% Brasil). Redução 50% combustível vs convencional. Erosão BR +800 milhões t/ano; em área lavrada+gradeada uma chuva forte leva 38 t solo/ha vs PD insignificantes. BR produz 75 milhões t grãos = 10 t solo perdidas por t alimento. FAO: custos recuperação impraticáveis. PD em estabilizado atinge 10 t anuais grãos sem perdas solo.