Manejo do Solo e Rotação de Culturas na Lavoura de Feijão (Sá+Molin, Fundação ABC — cobre p4+p5+p6+p7)


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Publicado em: 30/12/1994

MANEJO DO SOLO E ROTAÇÃO DE CULTURAS NA LAVOURA DE FEIJÃO

João Carlos de Moraes Sá — Eng. Agr. Fundação ABC. Rudimar Molin — Eng. Agr. Campo Demonstrativo e Experimental Castrolanda.

O plantio direto na área de atuação das Cooperativas que compõem a Fundação ABC, região dos Campos Gerais, Centro Sul do Paraná, iniciou-se no ano de 1975, objetivando basicamente o controle da erosão. As principais culturas de verão para a produção de grãos (soja, milho e feijão) atualmente atingem uma área total de aproximadamente 110 mil ha, dos quais no mínimo 80% encontram-se sob o sistema de plantio direto. O sucesso do crescimento e adoção do sistema de plantio direto deve-se principalmente aos benefícios diretos e indiretos que o mesmo proporcionou ao solo, aos cooperados, às cooperativas e à Sociedade, ao longo dos anos.

O feijoeiro foi introduzido no sistema de produção a partir da safra 1977/78, cuja área total atualmente cultivada ocupa em torno de 9 mil ha, dos quais quase a totalidade encontra-se em sistema de plantio direto, disposto em sistemas de produção. Os resultados obtidos a campo são satisfatórios com 2.200 a 2.400 kg/ha de média, alcançando até 4 mil kg/ha.

TABELA 1. Principais sistemas de rotação de Culturas adotados pelos associados das Cooperativas Mantenedoras da Fundação ABC:

A) 1º Milho/Aveia, 2º Soja, 3º Feijão; B) 1º Milho, 2º Feijão, 2º Soja; C) 1º Milho, 2º Soja, 2º Feijão; D) 1º Milho Silagem ou Grão/Feijão, 2º Trigo/Triticale/Soja; E) 1º Aveia/Feijão, 2º Milho Safrinha, 3º Aveia/Milho; F) Pastagem (Nativa/Reformada)/Feijão/Feijão, Aveia/Milho, Aveia/Feijão; G) Trigo ou Cobertura Verde/Soja ou Milho (Itararé-SP — o feijoeiro é cultivado na mesma gleba a cada três anos).

MANEJO DO SOLO SOB O PONTO DE VISTA DA FERTILIDADE

1. Plantio Convencional e Plantio Direto — A mudança do ecossistema natural para o agroecossistema provocou alterações profundas nas propriedades químicas e físicas do solo. O sistema de plantio direto bem conduzido, quando comparado ao sistema convencional, tem proporcionado o acúmulo de matéria orgânica no solo através da manutenção dos restos de cultura. Do ponto de vista físico, estes resíduos mantidos na superfície do solo atuam amortecendo o impacto direto das gotas da chuva na temperatura da camada superficial, permitindo o desenvolvimento de raízes na busca do equilíbrio água/oxigênio/nutrientes. O sombreamento da camada superficial associado ao não revolvimento do solo, [favorece] o controle de ervas pela ausência do efeito alelopático que reduz o estoque de [sementes] nesta camada. A decomposição das raízes dos restos de cultura e eventualmente de ervas daninhas em áreas sob plantio direto contribui para a formação de canalículos no perfil do solo, aumentando a porosidade do mesmo. A palhada densa de algumas coberturas verdes como a aveia, quando manejada com rolo-faca, forma uma espécie de membrana semi-permeável entre a atmosfera e a superfície do solo, sendo capaz de [efeito] semelhante ou melhor que uma lavração no isolamento de fontes de inóculo de doenças (observação a campo, por Molin R., 1990). A redução da densidade do solo, seja pela agregação das partículas ou pelo trabalho de organismos tais como insetos, anelídeos e microorganismos, melhora a capacidade de infiltração de água em períodos chuvosos.

2. Acúmulo e Distribuição de Matéria Orgânica — A manutenção dos restos culturais na superfície do solo provoca alterações com reflexos diretos no aumento de matéria orgânica. Comparando os resultados obtidos por PARRA (1984) no Norte do Paraná e SÁ (1991) no Centro Sul do Paraná (Tabela 2), observou-se aumento de 27% no teor de MO no PD sobre o convencional no Norte do Paraná, enquanto no Centro-Sul foi de 9%; porém os teores totais foram maiores no Centro-Sul que no Norte. No Centro-Sul, a manutenção de matéria orgânica no solo é maior, em função das temperaturas médias anuais serem baixas, refletindo na taxa de mineralização. Em áreas com 14-16 anos PD (Tabela 3, 5 áreas Castrolanda/Arapoti/Palmeira/Carambeí), o acúmulo de MO na camada de 0-2,5 e 2,5-5,0 cm foi expressivo, formando uma gradiente até a profundidade de 30-40 cm (índices relativos: 0-2,5 cm = 100%; 2,5-5,0 = 91%; 5-10 = 73%; 10-20 = 67%; 20-30 = 49%).

3. Atividade Biológica — A maior parte da decomposição da matéria orgânica é realizada pela microflora. Cerca de 70% do carbono que entra como CO&sub2; na atmosfera é atribuído ao metabolismo microbiano. A micro, meso e macrofauna atuam como fragmentadora, misturadora e transportadora de solo e resíduos de material orgânico, agregadora e escavadora do solo (Tabela 4 — protozoários, minhocas, insetos subterrâneos, anelídeos com efeitos de fragmentação/predação/mistura/agregação/escavação; adaptado de VOSS, M., 1987).

4. Relação Carbono/Nitrogênio — O nitrogênio é um constituinte dos compostos orgânicos no solo e cerca de 98% encontram-se sob a forma orgânica. A redistribuição de N no solo e seu aproveitamento pelas plantas depende do movimento do íon nitrato e da relação C/N, a qual influencia a taxa de mineralização, a imobilização pelos microrganismos no solo e a relação oferta/demanda pelas culturas. A decomposição é inversamente proporcional ao teor de lignina e à relação C/N dos resíduos. Resíduos com relação C/N maiores que 25 formam coberturas mais estáveis no solo, enquanto valores menores favorecem a mineralização (Tabela 5 — Aveia Preta 42,37 C/N; Centeio 22,44; Palha de Milho 64,38; Ervilhaca Comum/Peluda 14,72/18,74; Lentilha [valores parciais]; Nabo Forrageiro, Serradela, Tremoço Azul — Fonte: MONEGAT, 1981).

5. Acumulação e Distribuição de Fósforo no Perfil do Solo — O fósforo tem baixa solubilidade no solo e alta capacidade de formação de compostos insolúveis com o alumínio, o ferro e o cálcio. O fósforo acumula na camada superficial do solo, região na qual a vida biológica é intensa e onde há acúmulo de material orgânico em decomposição, com boa aeração. A distribuição de P no perfil de solo dos Campos Gerais do Paraná (Tabela 6) mostra: a) Em todas as áreas monitoradas, a maior concentração de P está localizada na camada de 0-2,5 cm (média 28,8 ppm); b) Nas áreas 1 e 5 (textura arenosa), os teores foram inferiores; c) Independente da classe textural, da unidade pedológica e da rotação, quanto maior o tempo sob PD, maiores os teores de P acumulados. Camadas mais profundas (>20 cm): teores menores que 3 ppm. O acúmulo de P está estreitamente ligado ao material orgânico da superfície (reciclagem de nutrientes).

A ROTAÇÃO DE CULTURAS NO CONTROLE DE DOENÇAS DE SOLO

As principais doenças de solo causadas por fungos observadas no cultivo do feijoeiro em sistema PD na região de ação das Cooperativas ABC são: Rhizoctonia solani (podridão radicular); Fusarium solani (podridão radicular seca); Fusarium oxysporum (murcha de fusarium).

Sistemas de produção e ocorrência de doenças: a) Sistemas em que o feijoeiro é cultivado uma vez a cada três anos (Aveia/milho/aveia/soja/trigo/feijão) — 100% sementes origem conhecida + tratadas; b) Sistemas com feijoeiro uma vez a cada dois anos (Aveia/milho/trigo/feijão/aveia/soja; Leguminosa/milho/aveia/soja/trigo/feijão) — ocorrência esporádica de Fusarium oxysporum; c) Sistemas em que o feijoeiro é cultivado três vezes a cada dois anos (Itararé-SP) — início de ocorrência de Rhizoctonia/Fusarium solani a partir do 2º cultivo, agravando-se no 3º (60% sementes origem conhecida); d) Sistemas em que o feijoeiro é cultivado duas vezes no mesmo ano a cada três anos (Aveia/feijão/feijão/trigo ou cobertura verde/soja ou milho) — sem grandes problemas, mas há tendência de redução de produtividade no 2º cultivo do feijoeiro no mesmo ano.

Na região dos Campos Gerais, 100% das sementes utilizadas são de origem conhecida; em Itararé, 40% são de origem desconhecida.

Extraído da Revista Batavo - Agosto/94.

João Carlos de Moraes Sá (F.ABC) + Rudimar Molin (Campo Demonstrativo Castrolanda). Extraído Revista Batavo Ago/94. Cobre p4-p7. PD Cooperativas ABC desde 1975. ~110 mil ha grãos com 80% PD. Feijoeiro desde 1977/78 ~9 mil ha quase totalidade PD; 2.200-2.400 kg/ha (até 4.000). 6 tabelas: rotações (A-G), M.O. PR Norte 27% / Centro-Sul 9% incremento, M.O. 14-16 anos PD (5 áreas), atividade biológica, C/N coberturas (aveia preta 42 / centeio 22 / milho 64), P perfil. Sistemas a-d ocorrência Rhizoctonia solani / Fusarium solani / F. oxysporum.