As Mudanças Continuam (Editorial Felisberto Dornelles, Sec. Exec. CATs RS)


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Publicado em: 30/12/1994

CLUBE AMIGOS DA TERRA — AS MUDANÇAS CONTINUAM

Na primeira metade da década de 80, por extrema necessidade, um grupo de pessoas pioneiras, arrojadas e desprendidas provocaram a primeira mudança na agricultura, que até então tinha completado uma década e meia num sistema convencional de monocultura, o qual extraía tudo do solo e pouco retornava para o mesmo. Esses grupos formaram os CLUBES AMIGOS DA TERRA no Rio Grande do Sul, que somam hoje o número de 42. Distribuídos no Planalto, Missões e Alto Jacuí, atingindo na safra 94/95 mais de um milhão de hectares plantados no sistema de Plantio Direto, o que representa 20% da área cultivada com milho e soja no Rio Grande do Sul.

Como todo o movimento que vem das bases tem sustentação, os CATs mostraram um belo exemplo: quando a causa é nobre, devemos nos despir de interesses individuais e investir coletivamente em busca de alternativas para atingir um objetivo maior. Isto serve para as pessoas, como também para as Instituições.

Nós dos Clubes Amigos da Terra acreditamos que a primeira etapa da missão, que era conscientizar agricultores, técnicos e pesquisadores dos benefícios do sistema de Plantio Direto na Palha, já foi atingida. Mas descobrimos também que tudo isso era apenas o começo das mudanças, pois o caminho é longo e muito ainda temos a trilhar.

Na década passada, quando começamos a despertar para o Plantio Direto, os Clubes Amigos da Terra faziam excursões em busca de informação, e o local visitado eram os Campos Gerais do Paraná, porque a região estava 10 anos à nossa frente com o Plantio Direto. Hoje, ao retornar, notamos que eles estão dominando com muita competência a segunda etapa da agricultura, ou seja, a diversificação em sua plenitude, acompanhada da instalação da agroindústria que é o complemento natural do processo.

O que constatamos neste momento é uma verdadeira ilha de prosperidade acontecendo naquela região. Ao invés de procurar culpados, os agricultores partiram para a busca de alternativas e soluções que dependem mais deles do que dos governantes, e o segredo estava na transferência de tecnologia e estruturação de suporte para armazenamento e industrialização do que é produzido na propriedade, e isto foi feito com cooperativas sólidas e organizadas, cumprindo a verdadeira função sem desviar os objetivos originários para as quais foram fundadas.

Esta diversificação que contempla a produção de grãos (soja, trigo, milho), leite, aves e suínos, segundo os técnicos da região, desenvolveu o equilíbrio dos solos já que se repõe ao mesmo em forma de esterco a matéria orgânica que estava cada vez mais baixa. Como o solo é o suporte para tudo, uma vez que atingirmos o equilíbrio do mesmo, somado aos benefícios das várias fontes de renda que a diversificação proporciona, a economia da região se estabiliza, viabilizando com isso a pequena propriedade e acabando com o êxodo rural.

Para concluir, lanço um desafio a todos os envolvidos no processo, para pensar e refletir sobre o momento de nossa agricultura. Convoco aos Amigos da Terra, que demonstraram em outras oportunidades sua ousadia, de quem quando quer realiza seus sonhos, para que obstáculo nenhum os impeça de continuar com as mudanças!

Felisberto Dornelles — Secretário Executivo dos Clubes Amigos da Terra do Rio Grande do Sul.

editorial assinado por Felisberto Dornelles (Sec. Executivo CATs RS). 42 CATs no RS, safra 94/95 +1 milhão ha PD = 20% área milho+soja RS. Visita Campos Gerais PR (10 anos à frente): diversificação plena (grãos+leite+aves+suínos) + agroindústria + cooperativas. Reposição matéria orgânica via esterco. Convoca a continuar com as mudanças.