DEBATE EM NÃO-ME-TOQUE — COTRIJAL E NONÔ PEREIRA
“Antigamente chegamos a aumentar a quantidade de adubo, arar a terra mais fundo e não adiantou. A cor da terra ficava como se fosse uma estrada. Hoje a terra está cor de mato, a matéria orgânica quase dobrou e nós estamos vendo as vantagens.” As afirmações são do produtor Romeu Hohlrausch, cuja propriedade está localizada em Victor Graeff-RS. Ele é sócio da COTRIJAL — Cooperativa Triticola Alto Jacuí, de Não-Me-Toque, que, juntamente com o Clube Amigos da Terra, organizou um Seminário sobre Plantio Direto, no começo de junho deste ano. As vantagens citadas se resumem finalmente no aumento de produtividade. “Mesmo em anos difíceis como estamos atravessando”, disse ele, “colhemos 130 sacas de milho/ha e 51 sacas de soja/ha.” A fazenda de Romeu Hohlrausch implantou definitivamente o sistema em toda a área a partir de 1987.
COTRIJAL — A Cooperativa Triticola Alto Jacuí de Não-Me-Toque abrange uma área de 70.000 ha no verão, entre soja e milho, principalmente. Desse total, cerca de 15% estão instalados sob plantio direto. “Nossa meta é atingir 30% na próxima safra”, disse Everton Jorge Carbolho, chefe do departamento técnico da cooperativa, um dos coordenadores do seminário. “O fato da região ser uma tradicional fabricante de implementos criou entre nossos agricultores uma tendência bastante grande no plantio convencional. Mas hoje esse quadro está revertendo e as próprias indústrias já fabricam implementos para plantio direto também. Trata-se de um processo cultural e nós estamos atuando em todos os níveis para revertê-lo, desde Emater, Banco do Brasil e outros segmentos.” A medida de propriedade dos associados da COTRIJAL fica em torno de 30 ha. Para a evolução de área com o sistema plantio direto, o departamento técnico está tomando todos os cuidados para que ocorra um processo lento mas duradouro. “Estamos desenvolvendo um trabalho muito forte junto com a EMBRAPA (CNPT) em cima de [duas vertentes: rotação de culturas e] semeadoras para plantio direto. Nesta última safra fizemos 18 áreas demonstrativas nas lavouras dos associados.”
CLUBE AMIGOS DA TERRA — “Ocorreram grandes prejuízos por erosão na nossa região durante a implantação da lavoura de verão, no final do ano passado. O interesse pelo plantio direto é grande, principalmente em função dessas enxurradas da safra passada. Não foi feito uma quantificação dos prejuízos mas diversas áreas tiveram prejuízo total.” As afirmações são do engenheiro agrônomo Eduardo Souiljee, presidente do Clube Amigos da Terra de Não-Me-Toque, um dos responsáveis pelo Seminário e pelo avanço do sistema na região.
NONÔ PEREIRA — Sob o som envolvente de uma chuva forte que caiu desde a madrugada, Manoel Henrique Pereira (presidente FBPDP), José Ruedell (Fundacep) e outros palestrantes falaram para cerca de 200 pessoas, em Não-Me-Toque. Iniciando sua palestra, Nonô Pereira saudou os presentes: “Um bom dia a todos e foi também uma boa madrugada, principalmente para aqueles que estão com suas áreas cobertas. O mesmo não se pode dizer daqueles que têm suas áreas descobertas, pois alguns nutrientes já não estão mais à disposição das plantas. Nosso objetivo hoje, junto com pesquisadores e técnicos, é de estudarmos estratégias para que todas as áreas fiquem cobertas. E que, definitivamente, a gente termine com esse processo de perdas do que é mais importante dentro do nosso patrimônio: o solo.”
“A erosão não é exclusividade de alguns municípios do Rio Grande do Sul, do Sul do País ou do Brasil. Não. O problema é de todo o mundo e a minha palestra poderia se chamar ‘O Planeta pede socorro’. Nunca se agrediu tanto, nunca se destruiu tanto como nos últimos 50 anos. O progresso está aí mas o balanço desse progresso é negativo. Segundo informações científicas, a perda de solo no Brasil é de 800 milhões de toneladas anuais. Ora, como nós ainda não atingimos 80 milhões de toneladas de produção, significa que estamos perdendo mais de 10 toneladas de solo por tonelada de grão produzido. Isso é irracional, é uma loucura.”
“A matéria orgânica é o grande desafio da agricultura atual. Os técnicos chegaram à conclusão que ela é o melhor adubo, pois o solo também tem fome, fome de palha, que é a fonte de matéria orgânica.” “Quem rege todos os processos é a natureza e nós temos que estar em paz com ela, precisamos conviver com ela de uma forma mais amistosa porque ela também pode ser violenta, como temos visto ultimamente. Quando ela se sente violentada, ela reage.”
Seminário PD em Não-Me-Toque-RS, organização COTRIJAL + CAT, ~200 pessoas. Citações: Romeu Hohlrausch (Victor Graeff-RS, sócio COTRIJAL, PD desde 1987 — produtividade 130 sacas milho/ha + 51 soja/ha mesmo em ano difícil); Everton Jorge Carbolho (chefe DT COTRIJAL — 70.000 ha verão, 15% PD, meta 30%); Eduardo Souiljee (presidente CAT Não-Me-Toque); Manoel Henrique Pereira (palestra 'O Planeta pede socorro' — perda solo Brasil 800 milhões t/ano = 10 t solo por t grão; matéria orgânica é o melhor adubo).