Por Patrick Wall — CIMMYT, Paraguai. Palestra apresentada no I Encontro de Plantio Direto, Colônias Unidas, Paraguai, em março/1993.
DEFINIÇÕES
Existem várias denominações para o tipo de agricultura que produz sem remover o solo, mantendo a superfície coberta com massa vegetal durante o ano inteiro. Estes nomes incluem: plantio direto, siembra directa, cero labranza, sembrar sin cultivar, plantio direto na palha, etc. Todos estes nomes explicam, em poucas palavras, o conceito deste tipo de agricultura conservacionista, porém, no final, são os conceitos que são importantes e não o nome que se lhes dá. As duas características fundamentais desta agricultura são a “semeadura sobre o solo sem lavrar, com a mínima remoção possível e a manutenção da superfície coberta com resíduos vegetais”.
É difícil conseguir dados exatos de áreas com plantio direto nos diferentes países do Cone Sul, porém, estima-se que existem mais que 2,5 milhões de hectares na região, principalmente no Brasil (aproximadamente 1,5 milhão de hectares) e Argentina (aproximadamente 900 mil hectares). Nem toda a área está sob um sistema de plantio direto contínuo. Especialmente na Argentina, existe um sistema de plantio combinado, com uma cultura sob siembra directa e outra com o solo cultivado.
A área semeada com plantio direto cresce a cada ano e existe um grande interesse pelo sistema em todos os países.
POR QUE SE FAZ PLANTIO DIRETO?
A necessidade que impulsiona o interesse pelo plantio direto é o problema da degradação e erosão do solo, evidente em toda a região. Um exemplo do efeito da degradação do solo vem de muitos ensaios de fertilidade em milho, conduzidos nos campos de produtores da Pampa Ondulada, na Argentina. É evidente, na Figura 1, que o rendimento das testemunhas, parcelas sem fertilizantes, diminui em função do passar do tempo. Talvez isso fosse esperado, devido a uma diminuição da fertilidade química, porém, o preocupante é que, depois de muitos anos de agricultura, mesmo aplicando níveis altos de adubação, não se chega a um rendimento da testemunha, após uma pastagem. Isto sugere que existem outros fatores além da fertilidade química do solo que estão reduzindo e limitando os rendimentos. Similar é o caso do trigo, para a mesma região (Figura 2). Uma relação similar encontramos recentemente nos planaltos orientais da Bolívia.
Quais são os fatores que explicam estas quedas nos rendimentos da cultura? Por um lado, uma análise dos solos de várias regiões confirma uma diminuição significativa no conteúdo da matéria orgânica, após vários anos de cultivo.
Um dos efeitos principais da redução na matéria orgânica é uma redução na estabilidade dos agregados e, por isso, a redução na taxa de infiltração da água no solo. No Rio Grande do Sul, Kochhann (1988) reportou que, enquanto os agregados estáveis em água e maior que 4,76 mm eram 96% do solo virgem do bosque, somente compunham 3% de um solo cultivado há 19 anos, com queima da resteva. Estas reduções nos agregados foram acompanhadas por reduções marcantes na taxa de infiltração. Enquanto esta foi de 136 mm/hora no estado virgem, baixou para 31,3 mm/hora depois de 7 anos de uso agrícola e a 0,2 mm/hora depois de 20 anos de agricultura, um solo quase impermeável, especialmente em áreas onduladas onde intensidades de chuvas de 50 mm/hora são relativamente comuns.
A erosão na região do Cone Sul é alarmante. Estima-se que a carga de sedimentos do rio da Prata é de 95 milhões de toneladas anualmente (World Resources Institute, 1989), equivalente a 18 ton/ha em toda a bacia. A maioria desta erosão está associada com a lavração e gradagem do solo. A água que entra no Lago de Itaipú demonstra dois picos no conteúdo de sólidos em suspensão e nutrientes (Figura 3), um em abril/maio, quando ocorre o preparo de solo para semeadura de trigo, e outro em setembro/outubro, por ocasião do preparo para a semeadura de soja. Há que se recordar que o solo erodido é o solo superficial, onde estão concentrados a matéria orgânica, os nutrientes e a semente. Denardin e Kochhann (1986) estimaram que são perdidos por erosão anualmente no Rio Grande do Sul 485.000 ton de cálcio, 661.000 ton de Nitrogênio, 91.000 ton de P&sub2;O&sub5; e 46.000 ton de K&sub2;O.
Tabela 1 — Efeito da agricultura convencional sobre o conteúdo de matéria orgânica do solo (% MO)
ZonaVirgemCultivadasFonte Itapúa, Paraguai4,51,5Bordon, D. (pers. comm.) Pampa Úmida4,42,8Michelena, et al. Chaco, Argentina3,02,1Inalban e Galetto Paraná, Brasil9,02,0Kemper e Derpsch
Tabela 2 — Perdas de solo em três diferentes tipos de preparação de solo, num latossolo roxo (Sidiras 1984, citado por Derpsch et al. 1991)
SistemaPerdas (ton/ha/ano) Preparo convencional68,2 Arado de aiveca99,0 Plantio direto6,9
RESÍDUOS
Para manter a estrutura superficial do solo, manter ou incrementar a infiltração e reduzir a erosão, é preciso proteger a superfície do solo do efeito das gotas da chuva. O efeito das gotas da chuva caindo sobre a superfície do solo, especialmente um com estrutura débil, é o rompimento dos agregados superficiais, deixando partículas de solo livre, que formam uma capa sobre a superfície e selam os poros do solo. A melhor maneira de proteger o solo é manter resíduos vegetais sobre a superfície. O plantio direto deixa na superfície quase todos os resíduos e, assim, brinda a máxima proteção ao solo. Experimentos feitos no Brasil (Roth et al., 1987) e no oeste da África (Lal, 1982) mostram que são necessárias 4 a 6 ton de matéria seca de palha de trigo ou outra cultura de talo fino para uma cobertura de 100%, enquanto seriam necessárias 6 ton de resíduos de uma cultura de talo grosso, como milho ou nabo forrageiro, para o mesmo nível de proteção.
Deixar os resíduos sobre a superfície favorece a sua decomposição lenta, sem a oxidação violenta provocada pela incorporação deles. Isto resulta num incremento da quantidade de matéria orgânica na camada superior do solo. Além disso, devido à decomposição das raízes, e pela ação da fauna do solo, geralmente ocorre aumento de matéria orgânica nas camadas inferiores do solo (Figura 6).
Os resíduos sobre a superfície possuem um efeito tampão sobre a temperatura do solo, reduzindo a amplitude da variação das temperaturas diurnas. Este efeito pode ser de muita importância, especialmente durante a semeadura de soja, quando as temperaturas da superfície do solo chegam a ser maiores que 50°C. O fato de cobrir o solo e protegê-lo do impacto direto dos raios solares diminui a evaporação da umidade. Cobrir a superfície com resíduos vegetais tem um efeito em reduzir as populações e o crescimento de plantas invasoras pelo sombreamento. Existe a possibilidade de alelopatia dos resíduos vegetais, tanto sobre a cultura seguinte como sobre as plantas invasoras. Finalmente, os resíduos fornecem alimento para as minhocas e outros integrantes da mesofauna do solo.
CONTROLE DE ERVAS
Historicamente o controle de ervas tem sido um dos problemas principais do plantio direto. A viabilidade do sistema surgiu com a chegada ao mercado do Paraquat, que permitiu um controle total de ervas pequenas anuais e perenes. As limitações das ervas perenes e a necessidade de herbicidas residuais que pudessem ser usados no plantio direto foi a causa de muitos fracassos e a razão da queda na área cultivada com o sistema em várias partes do mundo nos anos 70. Logo chegou o Glifosate, que permitiu o controle de ervas perenes, embora seu custo fosse muito alto para uso extensivo em plantio direto. Num encontro recente de agricultores no Paraguai, 28% dos entrevistados disseram que o controle de ervas era um problema no plantio direto.
Tabela — Principais problemas indicados por 50 agricultores que usam plantio direto no Paraguai (Fonte: MAG-CIMMYT-JICA, 1991)
Problema% de agricultores Ervas e manejo de herbicidas26 Custos28 Compactação do solo18 Riscos de incêndio18 Regulagem da semeadora10 Redução da produtividade6 Baixa germinação por umidade4
DOENÇAS
O efeito de semeadura direta sobre doenças e pragas é muito variável e depende da espécie e do seu ciclo de vida. Enfermidades que podem sobreviver sobre restos culturais causam problemas para as culturas posteriores da mesma espécie, semeadas no mesmo local. Uma dessas doenças é a mancha foliar do trigo, causada por Helminthosporium tritici repentis. Este fungo sobrevive sobre os restos culturais do trigo, infecta as plantas das lavouras não lavradas no ano seguinte e também se estende aos campos de trigo com rotação ou cultivados convencionalmente. Este problema não é propriamente um problema do plantio direto, mas sim da monocultura. Na monocultura, onde a mesma cultura é plantada todos os anos, como no caso da sucessão trigo-soja, ocorre um incremento das doenças com o decorrer do tempo, como a helmintosporium do trigo e o cancro da haste em soja.
PRAGAS
Numa revisão de literatura sobre o efeito da lavração sobre populações de insetos pragas em milho, Ortega (1989) encontrou referências de aumento de população de onze espécies em plantio direto, enquanto que duas espécies ocorriam com mais frequência no preparo convencional. Em trigo, Burton (1991) fala da redução em populações de Schizaphis graminum, pulgão verde, no plantio direto.
FERTILIDADE
A adubação no plantio direto é um item que ainda provoca muita discussão. No geral, nota-se a necessidade de um pouco mais de nitrogênio a curto prazo, aproximadamente um aumento de 20% durante os primeiros 5 anos. Depois disso, em geral, as necessidades de nitrogênio são iguais ou menores que os níveis requeridos no preparo convencional. Quanto a fósforo, as preocupações ainda existem relativamente a sua aplicação. Resultados de Kentucky (USA) e de outros lugares da América Latina demonstram que, pelo menos onde o nível de fósforo assimilável no solo não é muito baixo, aplicando fósforo a lanço na superfície, a eficiência é igual quando se aplica dentro do solo. O nível de fósforo aproveitável tende a aumentar no solo superficial sob plantio direto, associado com o aumento de matéria orgânica nessa camada e, geralmente, podemos reduzir as aplicações de fósforo e potássio em 30% depois de 3 a 4 anos de plantio direto, sempre que se mantenha um alto nível de resíduos vegetais.
Aplicações de fertilizantes, especialmente nitrogenados, na superfície, resultam num decréscimo de pH nesta camada. Apesar disto, trabalhos de pesquisa nos Estados Unidos e Brasil (Blevins et al., 1983; Sá, 1993) demonstram que isto não é um problema tão grave como se pensava — o calcáreo aplicado a lanço sobre a superfície teve um efeito sobre o pH até uma profundidade de 30 cm. Como não se incorpora o calcáreo e para evitar concentrações muito altas de cálcio na superfície, no plantio direto há que se fazer aplicações mais frequentes de baixas dosagens de calcáreo (ex: 1 ton/ha a cada 2 anos). Os dados de Sidiras e Pavan (1985) de dois solos do Paraná demonstram, depois de 4 anos, um pH menor em todo o perfil de preparo convencional do que com plantio direto. Estes autores também encontraram maiores níveis de cálcio e magnésio, potássio e fósforo em todo o perfil nos solos com plantio direto.
ROTAÇÃO E ADUBAÇÃO VERDE
Devido à importância de proteger o solo com culturas e palha, é importante não deixar o terreno descoberto. No Paraguai existe muita área que fica ociosa no inverno, o que é preciso evitar. Em outros locais da América do Sul também. Se o agricultor não quer semear trigo, outra possibilidade é o uso de adubação verde. Estes, geralmente, exigem pouco investimento, deixam uma boa quantidade de palha e, além disso, podem ajudar a romper as camadas compactadas, ajudando positivamente no rendimento das culturas subsequentes.
Existem muitos agricultores praticando a monocultura no Paraguai, com êxito, inclusive com plantio direto de trigo e soja. Sabemos que este sistema vai falhar mas não sabemos quando. Além do efeito sobre doenças, a rotação tem benefícios em outros aspectos. A soja produz poucos resíduos, com uma relação C:N muito baixa (aproximadamente 20:1), os quais oxidam muito rápido. Introduzir a cultura do milho a cada 2º ou 3º verão terá benefícios na produção de resíduos e matéria orgânica.
MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS
Obviamente, a questão de máquinas é um problema inicial. O agricultor tem que conseguir novas semeadoras ou adaptar as existentes para poder semear sobre a palha. Apesar disso, o plantio direto têm grandes vantagens em relação a máquinas e implementos. Necessita de uma inversão total menor no sistema. Um trator de 70 HP, uma ou duas semeadoras/adubadoras e um pulverizador é um equipamento suficiente, contra todos os tratores e implementos necessários no preparo convencional. Ocorre igualmente uma redução nos custos operacionais e na manutenção.
COMPACTAÇÃO
A compactação superficial no plantio direto é motivo de preocupação. Mesmo que não entendamos bem porque a semeadura direta causa compactação superficial em alguns solos e em outros não, provavelmente seja um sinal de que o solo foi degradado antes de começar o sistema, pois um solo degradado não resiste às forças da compactação. Existe uma tendência de compactação maior nos solos argilosos ou arenosos do que nos solos francos. O remédio pode ser diferente em diferentes casos. Provavelmente o fator mais importante para evitar os efeitos nocivos da compactação superficial é o incremento da atividade biológica do solo. O fato de não lavrar o solo e manter resíduos aumenta a população de [forma benéfica], a qual forma canais e poros que as raízes usam como vias rápidas para atingir os sítios de fertilidade.
MOMENTO DA SEMEADURA
O sistema plantio direto reduz ao mínimo o tempo necessário entre culturas, além de permitir aproveitar épocas curtas de bom tempo para semear em épocas ótimas, ao invés de perder tempo no preparo do terreno. Estes dois fatores tendem a assegurar rendimentos maiores e mais estáveis com plantio direto. No futuro é possível que se conte com variedades mais tardias (e mais rentáveis) das principais culturas, que poderão ocupar o tempo antes usado para preparo, em benefício da rentabilidade da exploração. Outra possibilidade para o uso do tempo liberado pelo plantio direto é um aumento na intensidade da rotação, semeando 3 culturas por ano, ou 5 a cada dois anos.
CAPACIDADE GERENCIAL
O plantio direto é um sistema complexo, com diferentes facetas que o agricultor tem que manejar bem, exigindo-lhe um grande nível gerencial. Não existe possibilidade, por exemplo, de corrigir um problema com ervas, usando simplesmente uma passagem de grade, situação muito comum no sistema convencional. O agricultor que usa o plantio direto tem que formar novos critérios e manejar com detalhes muitos componentes de um sistema complicado. O agricultor não deve mudar toda sua exploração para plantio direto de uma vez só. É importante que ele prove o sistema numa parte da propriedade até ter experiência e aprenda como manejar na propriedade toda.
GEADAS
Dado que as palhas formam um isolante para o solo e que, devido a sua cor mais clara que o solo, refletem mais radiação, a superfície dos resíduos se esfria mais que a superfície do solo descoberto. Por isso, existe mais risco de geadas no plantio direto, no período anterior à que o terreno esteja coberto pela cultura implantada. Por esta razão, há que ter cuidado com a época da semeadura das culturas de inverno no plantio direto.
RENDIMENTO ECONÔMICO DO SISTEMA
O agricultor está no negócio da agricultura para ganhar dinheiro, não só para melhorar seu solo. No geral, parece que não existe muita diferença de custo entre plantio direto e preparo convencional, durante os primeiros anos. O custo extra de herbicidas e nitrogênio que se necessita é similar ao custo das operações de lavração e gradagem que se evita. Também os rendimentos são menores que no preparo convencional e, em muitos casos, existe um aumento na produtividade, especialmente nas culturas de verão. E depois de alguns anos de estabilização, durante os quais podem cair os rendimentos, no pior dos casos, que o sistema começa a realmente dar seus frutos. Os rendimentos começam a subir, os gastos com máquinas reduzem, o gasto de fertilizantes fosfatados e potássicos também, e os benefícios econômicos aumentam. Em troca, os sistemas convencionais somente podem ver em seu futuro uma queda nos rendimentos devido à erosão e à degradação.
Patrick Wall (CIMMYT, Paraguai). Palestra no I Encontro de PD, Colônias Unidas, Paraguai, março/1993. Cobre p5+p6+p7+p9 do jornal. Aspectos: definições, área (~2,5 milhões ha Cone Sul: BR ~1,5 milhão, AR ~900 mil); degradação Pampa Ondulada/RS; resíduos; controle de ervas (Paraquat, Glifosate); doenças (Helminthosporium tritici repentis); pragas (Schizaphis graminum); fertilidade; rotação; máquinas (trator 70 HP); compactação; momento de semeadura; gerência; geadas; rendimento econômico. 2 tabelas + tabela problemas Paraguai (50 agricultores)