Por Dirceu Gassen
Uma das restrições levantadas ao sistema plantio direto seria sua inviabilidade para minifúndios. O Sr. Valdir Dorn, um pequeno agricultor, em Linhada Flores, Santa Rosa (RS), planta 14 ha sob sistema plantio direto há mais de seis anos. A lavoura situa-se numa região típica de minifúndio com topografia ondulada cortada por um riacho. Além da lavoura de produção de soja, de milho e de trigo, mantém uma pequena área de pastagem para gado leiteiro e um açude para criação de peixes. Ele iniciou o sistema plantio direto porque perdia terra demais pela erosão de chuvas, e achava que não poderia mais continuar nesse processo de exploração agrícola.
No primeiro ano de plantio direto, os vizinhos do Sr. Valdir comentavam sobre a sua “loucura” e previam a última “besteira” que estaria fazendo, pois na região ainda predomina o pensamento tradicional de que quanto mais arada e gradeada a terra, melhor para o desenvolvimento da planta. Entre as dificuldades enfrentadas no primeiro ano, o Sr. Valdir teve problemas com o controle de plantas daninhas e com a desuniformidade de semeadura, que afetaram a produção de soja.
Para o sucesso do plantio direto, ele destaca alguns fatores de maior relevância, como palha na superfície do solo. Quanto maior o volume desta melhor a estrutura do solo e mais fácil é o controle das plantas daninhas. Com a evolução da reciclagem da palha na superfície do solo ele passou a semear com maior tranquilidade, sem preocupar-se com o excesso ou com a falta de umidade no solo para a semeadura. Ele destaca que notou claramente a melhora da estrutura do solo com o aumento da palha. A semeadora adaptada com disco reto para o corte da palha, e facãozinho para a semeadura adequada. Na sua opinião, não é necessário comprar uma semeadora especial para plantio direto. O custo da adaptação ainda é elevado, porém, a oferta de adaptações está aumentando e, com isso, reduzindo o custo e melhorando a eficiência. Ele usa um disco reto com eixo-suporte móvel, com ponto de apoio na estrutura da semeadora. Pulverizador de barra em boas condições, para controlar plantas daninhas, é outro fator importante para o sucesso do sistema plantio direto. A assistência do engenheiro agrônomo e a troca de experiências com agricultores que já estão adotando o sistema plantio direto evitam erros já cometidos e antecipam os “macetes” para maior eficiência do sistema.
O custo para a condução de uma lavoura sob sistema plantio direto é semelhante ao custo de uma lavoura sob sistema convencional de escarificação, gradagem e semeadura. O custo maior de herbicidas no sistema plantio direto é equivalente ao custo de combustível poupado na redução de uso de máquinas para a aração e as gradagens. A vantagem maior do plantio direto está no menor desgaste de máquinas e, principalmente, na conservação do solo. O trabalho pode ser feito com tratores de menor potência e existe período mais longo para a semeadura. Depois de iniciar com o plantio direto, acabaram os problemas de apuros de serviço entre a colheita, preparo e semeadura da cultura seguinte. Das três a quatro operações adotadas antes (aração, uma ou duas gradagens e semeadura) passou a ter apenas a semeadura. Com isso, esta operação é feita com mais cuidado e no momento mais adequado para a germinação da semente.
As produções de soja, na lavoura do Sr. Valdir, evoluíram de 1.680 kg/ha, no último ano sob sistema convencional, para 3.060 kg/ha em 1993 (Figura 1). Com exceção do ano de 1991, quando houve uma seca severa, as produções estão aumentando. Durante o inverno ele planta aveia para cobertura de solo em rotação com trigo. Os rendimentos de trigo não foram satisfatórios, pois não conseguiu estabelecer uma densidade de plantas e de espigas desejada. Hoje, atribui este problema ao dano de larvas de coró, ou bicho-bolo, que se encontram em várias partes da lavoura. Com a adoção de medidas de controle do coró, neste ano, espera obter uma boa colheita de trigo. Na sua opinião, se não fosse o dano, o coró seria muito desejável na lavoura, pois abre galerias verticais que absorvem a água de chuvas e também acumulam fezes nas camadas mais profundas do solo.
O Sr. Valdir destaca que deixaria da agricultura se tivesse que voltar ao sistema de preparo convencional, por causa das elevadas perdas de erosão do solo. Ele recebe assistência técnica do engenheiro agrônomo Sérgio Schneider, que se preocupa com a sustentabilidade dos agroecossistemas da região e vê no plantio direto a melhor alternativa para conservação do solo e para aumentar a eficiência da produção agrícola.
O plantio direto deverá dominar a agricultura do Sul do Brasil e no futuro (5 a 10 anos) a preparação de solo com arado e grade poderá ser condenada, como é hoje a queima de palha.
Dirceu Gassen — matéria-perfil sobre Sr. Valdir Dorn, agricultor em Linhada Flores, Santa Rosa-RS, plantando 14 ha em PD há mais de 6 anos (iniciou 1988). Lavoura com soja+milho+trigo+pastagem para gado leiteiro+açude para peixes. Produtividades soja: 1.680 kg/ha (último ano convencional) → 3.060 kg/ha em 1993. Assistência técnica do Eng° Agr° Sérgio Schneider. Inclui Figura 1