Por José Eloir Denardin, CNPT/EMBRAPA
QUANTIFICAÇÃO DAS PERDAS POR EROSÃO
No final da década de sessenta, os solos incorporados ao processo produtivo nas regiões do planalto e missões caracterizavam-se por apresentar pH ácido e baixa disponibilidade natural de nutrientes, permitindo às culturas de trigo, soja e milho expressarem apenas 60% de seus potenciais genéticos (tabela 2). Em 1975, a capacidade desses solos foi elevada para 78%, em função da intensa utilização de corretivos e fertilizantes, condicionada pelos incentivos governamentais. No período de 1975 a 1985, o uso intensivo do solo, sob sistemas inadequados de manejo, e a redução acentuada do emprego de corretivos e fertilizantes, levou os solos dessas regiões a um acelerado processo de degradação, reduzindo a expressão potencial das culturas para 73%. Se esse processo de degradação, observado no período de 1975 a 1985, mantiver-se no mesmo ritmo, é estimado que em 1995 esses solos terão uma capacidade média para expressarem apenas 65% do potencial genético das culturas de trigo, soja e milho. Essa potencialidade representará somente 5% a mais do que o potencial existente em 1970, quando a necessidade de corretivos e fertilizantes era indispensável para uma exploração econômica do solo. Além disso, há um agravante: no final da década de sessenta, os solos caracterizavam-se por possuírem excelente estrutura física e, em 1995, estarão em elevado estado de degradação, certamente não respondendo eficientemente às aplicações de insumos como ocorreu naquela época.
A erosão hídrica é um processo que depende do poder erosivo das chuvas, da suscetibilidade do solo, da topografia do terreno, do manejo dos cultivos e das práticas de controle do escorrimento superficial. Assim, diferentes solos, em distintos locais, com variadas condições pluviométricas e topográficas, e submetidos a diversos usos, apresentam perdas por erosão de grandezas diversas.
As estruturas montadas no Rio Grande do Sul para quantificar perdas de solo e água por erosão, sob variados métodos de preparo e manejo de solo, são unânimes em afirmar que a erosão é, consideravelmente, reduzida à medida que o solo é menos mobilizado e é aumentada a quantidade de restos culturais na superfície. A simples manutenção dos restos culturais semi-incorporados ao solo, sob o sistema de preparo convencional (uma aração mais duas gradagens), na sucessão trigo e soja, proporciona uma redução nas perdas por erosão na ordem de 70% em relação a este mesmo sistema com a queima dos restos culturais (tabela 1). Já o sistema plantio direto promove esta redução em valores ao redor de 90%.
O sistema de preparo com uso exclusivo de grades de discos, embora promova menores perdas por erosão do que o sistema convencional, nos primeiros anos de sua implantação, a partir do terceiro ano passa a apresentar uma taxa de perdas de solo até quatro vezes maior.
As perdas de solo observadas na tabela 1, ao serem extrapoladas para as lavouras, em geral, estão subestimadas, pois, nas lavouras, o preparo do solo é, normalmente, mais intensivo, os comprimentos das pendentes são maiores, em função do espaçamento dos terraços, e os sistemas de terraços apresentam falhas frequentes. A partir dessas informações, estima-se que, em média, as perdas de solo por erosão nas lavouras do estado se situam ao redor de 20 t/ha/ano. De qualquer modo, os resultados apresentados na tabela 1 demonstram que técnicas de manejo, como a preservação dos resíduos culturais e a redução da intensidade de mobilização da camada arável, podem potencialmente reduzir a erosão em 90%.
Tabela 1 — Perdas médias por erosão, em dois períodos do ano, sob diferentes cultivos e sistemas de manejo do solo para o Rio Grande do Sul (em t/ha)
Período / Cultura SD CSP CCP PD Total [?%?] Outono inverno / trigo67,55,91,70,775,4[?52%?] Primavera-verão / soja65,15,41,90,873,2[?48%?] Total132,610,93,61,5148,6100
SD = solo descoberto sem cultivo; CSP = sistema convencional sem palha; CCP = sistema convencional com palha; PD = sistema plantio direto. Fonte: Denardin et alii (1989), CNPT/EMBRAPA, Passo Fundo, RS.
Tabela 2 — Estimativa da evolução das classes de degradação dos solos e do potencial de produção das culturas de trigo, soja e milho no Rio Grande do Sul (1970 a 1995)
Ano Classe de solo Área do RS (%) Potencial genético expresso (%) 1970[?I?]3060 1975[?I?]7078 1985[?II?]6073 1995[?III?]4065
Fonte: SARGS (1985). [Nões da tabela parcialmente ilegíveis no original; dados subjetivos a conferência.]
CONSEQUÊNCIAS DA DEGRADAÇÃO DO SOLO
A degradação do solo, resultante do processo erosivo, tem uma série de consequências de cunho econômico, social e ambiental.
As más condições físicas e químicas dos solos degradados promovem maiores riscos à produção agrícola e menor renda ao produtor, pela redução da produtividade das culturas e elevação dos custos. O aumento dos custos é consequência da perda de nutrientes naturais do solo e daqueles aplicados via adubações de correção e manutenção, bem como da maior exigência de potência das máquinas agrícolas para operarem em solos degradados. Os maiores riscos na produção agrícola estão associados aos níveis de degradação em razão do comprometimento da potencialidade do solo e agravamento dos efeitos climáticos, como as estiagens e as precipitações erosivas.
O Rio Grande do Sul apresentou no período de 1970 a 1977 uma evolução positiva na produtividade das principais culturas, muito embora houvesse uma incorporação significativa de áreas virgens ao processo de cultivo continuado de culturas anuais. A partir de 1977, apesar da estabilização da área cultivada e do uso de insumos, observou-se uma redução da produtividade interpretada como resultado do gradual agravamento da degradação dos solos. Na atualidade, percebe-se que a produtividade das principais culturas de lavoura dessas regiões encontra-se estacionária com nítidas tendências para a diminuição. Esse comportamento é claramente observado com a cultura da soja que após experimentar rápida expansão em área e produtividade, estimulada por investimentos no período de 1970 a 1977, atingiu um rendimento médio de 1.630 kg/ha, produz hoje valores ao redor de 1.500 kg/ha.
Os primeiros reflexos desse conjunto de fatores são palpáveis na instabilidade econômica da família do produtor rural pela queda na qualidade de vida. À medida que essas condições se agravam e que a unidade de produção familiar não oferece possibilidade de desenvolvimento, desencadeia-se o processo migratório ou o êxodo rural. Os membros mais jovens da família são os primeiros a serem afetados: na busca de melhores condições de vida, partem para formas de parceria ou arrendamento, buscam trabalho assalariado junto a propriedades de maior porte, ou ganhando o meio urbano na ilusão de emprego.
Estima-se que na região metropolitana de Porto Alegre residem mais de 300 mil pessoas em condições de marginalidade e praticamente de miserabilidade, as quais somadas aos contingentes existentes junto aos maiores centros urbanos do interior do Estado e aos bolsões de pobreza do meio rural, ultrapassam a casa dos 600 mil. A marginalidade desses contingentes populacionais, com elevado grau de carência, localiza-se, em geral, em áreas insalubres dos centros urbanos, muitas vezes sujeitas a inundações, agravando os problemas sociais e de saúde pública.
O carreamento de terra, corretivos, fertilizantes, nutrientes e defensivos agrícolas pelo processo erosivo têm como consequências o assoreamento dos leitos dos rios, lagos e represas e a contaminação das águas com resíduos químicos. O assoreamento, além de aumentar os riscos de inundação, afeta a navegação pluvial e lacustre, onerando seu custo com serviços de drenagem e a manutenção dos canais de navegação, e reduz a vida útil das represas destinadas à produção de energia elétrica ou à captação de água para consumo humano. A presença de argila e resíduos químicos em suspensão e em solução nas águas destinadas ao abastecimento afetam a flora e a fauna aquática e oneram os serviços de captação e tratamento de água.
Os excedentes de água das lavouras, conduzidos pelo sistema desordenado de terraços sobre as estradas vicinais, elevam os custos de conservação das mesmas. Enfim, os consideráveis recursos destinados a essas obras de restauração poderiam ser destinados para inúmeras obras sociais, além dos incrementos de produtividade com maiores arrecadações de impostos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O diagnóstico do problema da degradação e erosão dos solos das regiões do Planalto e Missões do Rio Grande do Sul parece estar bem definido. Soluções que amenizem esses problemas estão sendo apontadas e implantadas por meio de sistemas conservacionistas, tecnicamente viáveis. Entretanto, sistemas de manejo compatíveis com as características de clima, solo e cultivos são imprescindíveis para interromper essa progressiva degradação do solo e para recuperá-lo, mantendo-o produtivo e, consequentemente, integrado economicamente no sistema agrícola nacional.
A adoção desses sistemas pelos produtores, ao contrário do que ocorreu com a adoção das grades de discos para o preparo do solo, caracteriza-se por um processo lento que exige inversões de capital, trocas radicais nos hábitos de cultivo, mão-de-obra mais especializada e, sobretudo, consciência conservacionista. Contudo, o êxito dessa adoção não está apenas na dependência de ações da pesquisa e extensão, mas também no âmbito da política agrícola, com decisões que assegurem uma maior estabilidade econômica para garantir os investimentos no setor.
José Eloir Denardin (CNPT/EMBRAPA, Passo Fundo). Continuação do artigo técnico-científico iniciado na Ed.13. Quantificação das perdas por erosão (tabela 2: potencial 60% em 1970 → 78% em 1975 → 73% em 1985 → 65% em 1995 estimado). Tabela 1: redução de 70% nas perdas com restos culturais semi-incorporados, 90% com PD vs convencional com queima. Consequências: queda da produtividade da soja (1.630 → 1.500 kg/ha), 600 mil pessoas em situação de marginalidade no RS, assoreamento, contaminação. Considerações finais sobre adoção lenta de sistemas conservacionistas