Entrevista — Rolf Derpsch acompanha o Plantio Direto no Brasil desde o início


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Publicado em: 30/05/1993

Segundo Herbert Bartz, o pioneiro do Plantio Direto no Brasil, Rolf Derpsch está para o desenvolvimento do sistema no Brasil assim como Mr. Shirley Phillips está para os Estados Unidos e outros países. Todos eles estiveram presentes no Simpósio Internacional de Castro, realizado no começo de março, e o Jornal do Plantio Direto aproveitou para entrevistas, entre elas uma com Rolf Derpsch, que descrevemos a seguir, extraindo seus principais tópicos.

Derpsch é chileno de nascimento, estudou na Alemanha e é também cidadão alemão, possuindo uma grande bagagem internacional. Especializado na área de Difusão de Tecnologia, ele chegou ao Brasil em 1968, onde foi trabalhar na Estação Experimental do Trigo, em Colombo (PR), perto de Curitiba, onde permaneceu três anos. Depois, por ser o único solteiro do grupo, Rolf foi deslocado para Londrina, onde, em 1971, participou dos primeiros ensaios sobre a tecnologia do Plantio Direto, na cultura do trigo.

A seguir, nas palavras de Rolf Derpsch, uma síntese de sua história no Plantio Direto.

PRIMEIROS TEMPOS

“Nós começamos o trabalho pesquisando fertilização para as culturas mas, em Londrina, percebemos que a questão fertilidade sozinha não resolveria o problema da agricultura no Paraná, porque já se notava que a erosão estava aumentando drasticamente. Existiam diversas formas de preparo do solo e não sabíamos das vantagens de cada um, quanto a tendimento e outros itens. Em 1971, fizemos o primeiro experimento, na lavoura de trigo, na Estação Experimental do IPEAME, dirigida então por Francisco Terazawa, e notamos que a semeadura direta teve um bom resultado. No verão, fizemos experimentos na cultura da soja, com Milton Ramos, em Ponta Grossa, e os resultados também foram animadores”.

BARTZ

Naquela época, o produtor Herbert Bartz, de Rolândia, já demonstrava sua inquietação nas questões de lavoura, e fazia um preparo mínimo do solo, usando uma rotativa de enxadas, sobre a qual montou uma semeadora. Adiantado em relação aos demais produtores, Bartz fazia o preparo e semeadura numa só operação, de forma que o solo praticamente não ficava descoberto. Ele ainda não estava satisfeito.

“Em 1972, com um estagiário alemão e uma máquina também da Alemanha, que possuía discos de corte muito bons e uma pressão de mola que era dada por uma alavanca, nós fizemos uma área demonstrativa na fazenda do Bartz, comparando com o sistema que ele usava. O ano foi seco e essas parcelas se destacaram visualmente, com um melhor desenvolvimento e uma cor mais verde, plantadas no mesmo dia, mesma variedade, mesma adubação. Mesmo que uma geada tenha reduzido a produtividade prevista de 2 ton para 300 kg/ha, a experiência foi extremamente positiva e o acompanhamento da cultura levou Bartz à convicção de que esse era o caminho”.

LAVOURA PIONEIRA

“Entusiasmado, Herbert Bartz comprou uma passagem para ver plantio direto na Inglaterra e Estados Unidos, onde encomendou máquinas. Em outubro de 1972 chegava uma Allis Chalmers, dos Estados Unidos, que começou a semear imediatamente, contra todas as dificuldades iniciais, numa época em que os conhecimentos eram poucos sobre a técnica, as perguntas eram muitas, haviam dúvidas se ia dar certo. Bartz passou apertos naquela época porque, principalmente em relação ao controle de ervas, haviam apenas dois herbicidas e o manejo das ervas era difícil, sendo que ele, muitas vezes, teve que colocar pessoal com enxada para capinar e vencer o mato. No meu entender, ele teve uma perserverança incrível e isso foi graças ao seu convencimento de que o sistema era correto e que haveriam soluções para os problemas. Ele teimou e venceu.”

“No final de 1972, eu ainda estava em Londrina quando o pessoal se reunia na lavoura para ver as primeiras experiências. As opiniões de técnicos e produtores eram do tipo ‘não vai dar certo, o solo será compactado, as plantas daninhas vão tomar conta da lavoura’, etc. No final de 1972, o convênio do qual eu participava venceu e eu voltei para a Alemanha”.

IAPAR

“Em 1977, quando eu estava no Brasil prestando assessoria num projeto de agroindústria, em São Paulo, o IAPAR solicitou uma cooperação técnica da Alemanha para a área de conservação de solos. Procurado para tal projeto, não tive dúvidas em aceitar, porque sou um entusiasta dessa área de conservação de solos e agricultura sustentável. Ficamos 7 anos pesquisando plantio direto já com um maior aprofundamento, medindo as mudanças que ocorriam no solo, trabalhando em todo o Paraná, principalmente em Londrina e Rolândia sobre latossolo roxo e terra roxa estruturada.”

“Nessa época, voltei a acompanhar o projeto de Herbert Bartz, que havia evoluído na prática do sistema e estava acompanhado por outros produtores, todos entusiasmados com o sistema. Porém, mesmo assim, ainda haviam muitas dúvidas, muito mais perguntas do que respostas: compactação, aplicação de fertilizantes na superfície, as implicações do não revolvimento, etc. Fomos fazendo uma série de medições nas áreas físicas e químicas para tentar resolver essas dúvidas. O IAPAR já estava conduzindo projetos anteriores à nossa volta, com Osmar Muzilli, sua equipe e o apoio da ICI. Em conjunto, creio que conseguimos dar algumas respostas às principais inquietações dos produtores de plantio direto naquela época.”

INFILTRAÇÃO DA ÁGUA / IMPACTO DA GOTA

“Talvez a nossa maior contribuição naquela época foi na parte que trata da infiltração da água no solo. Na prática, nós observávamos e medíamos que o plantio direto permitia uma melhor infiltração, contrariando afirmações científicas estabelecidas baseadas em medições feitas num sistema de anéis duplos. Nós trouxemos da Alemanha um mini-simulador de chuva, que permitia fazer um número necessário de repetições para checar exatamente o que ocorria porque há necessidade de manter as mesmas condições de umidade ou de chuva. Se ocorria chuva no meio de uma avaliação, o que ocorria com outros simuladores estáticos, os testes eram comprometidos. Com o novo simulador, fazíamos 6 a 7 tratamentos por dia.”

“E, comparando os dois sistemas de preparo, convencional e plantio direto, a situação reverteu. Quando, antigamente, no sistema de anéis duplos a maior infiltração se media no convencional, agora, com a chuva simulada, a maior taxa de infiltração acontecia no plantio direto porque o sistema de anéis duplos não simulava o impacto da gota da chuva sobre o solo descoberto. E, realmente, esse é o segredo do êxito do plantio direto. Trata-se da questão do impacto das gotas de chuva que desagregam o solo nú. Existe um número citado pelos americanos: em um ano, um hectare recebe o impacto correspondente equivalente em gotas de chuva a 50 ton de dinamite. E [?o resultado dessa força sobre o solo descoberto?] essas partículas entopem os poros que davam passagem à água. As medições que fizemos demonstram que quando o solo está 100% coberto com restos culturais, ocorre uma infiltração de 100%, ao passo que quando o solo está descoberto apenas cerca de 20% é infiltrado. Isto significa que de uma chuva de 60 mm/ha, 80% ou o equivalente a 450.000 l/ha escorrem superficialmente. Essas são as chuvas que causam problemas quando [?fazemos uso de técnicas convencionais, podendo até?] ocorrer chuvas de 250 mm em 24 horas. Não existe nenhum sistema convencional, terraços, murunduns, nem terraço de concreto, que suporte essa água. Ao passo que 5 a 6 ton de resíduos vegetais/ha faz com que toda essa água infiltre exatamente no lugar em que cai.”

“Como a erosão é o resultado da água não infiltrada, no momento em que nós conseguimos infiltrar toda a água da chuva no mesmo local, eliminamos o problema de erosão. Isso contribuiu bastante para o entendimento do processo de erosão e deu outro enfoque na conservação dos solos. Antes, se tentava salvar a lavoura a partir do fato acontecido, depois do processo erosivo já ter se iniciado. Agora, este outro processo tentava evitar que a erosão ocorra, prevenindo e não curando a erosão.”

AGRICULTURA SUSTENTÁVEL

“Também naquela época começaram a ser publicadas fotos antigas feitas pelo Serviço de Conservação de Solos dos Estados Unidos, por volta de 1945, mostrando o impacto da gota sobre o solo desprotegido, a cratera formada e as partículas de solo jogadas a 1 m de altura. Isso também ajudou no entendimento de como o processo de desagregação das partículas e a erosão acontecia. Levou-nos a crer que, para evitar a erosão, há que proteger o solo, cobri-lo.”

“O Simpósio Internacional de Castro teve como tema a Agricultura Sustentável. Considero que a base para uma agricultura sustentável é que a erosão não ocorra, pois, desde o momento em que ela acontece, não existe mais a sustentabilidade. Em qualquer sistema que estejamos procurando a sustentabilidade, ou seja, que as gerações futuras possam fazer nesse mesmo solo uma agricultura com as mesmas produtividades ou melhores do que as atuais, a única forma de conseguir isso é reduzindo a erosão a quase zero. Não concordo com os americanos quando eles admitem uma perda de solo de até 15 ton/ha/ano. Acho absolutamente exageradas porque é o mesmo que admitir um caminhão de 10 a 15 ton saindo todos os anos com a melhor terra da fazenda para o rio, com fertilizantes e toda a vida do solo. Estima-se que a taxa de formação do solo chega ao máximo de 500 kg/ha/ano, a taxa natural de renovação. Poderíamos dizer que, para manter o sistema sustentável, deveríamos ter uma perda inferior a essa taxa de renovação”.

TRABALHO ATUAL

“Atualmente realizo um trabalho na região do Chaco, na parte ocidental do Paraguai. Recentemente, estive no Departamento de São Pedro desenvolvendo sistemas agrícolas sustentáveis para pequenos agricultores. Tudo isto faz parte de um convênio do governo paraguaio com a empresa alemã GTZ, para a qual trabalho.”

“É interessante notar uma aproximação dos problemas entre as diversas regiões em que já trabalhei e trabalho. No Chaco, a erosão é causada pelo vento, é uma região semi-árida. Em qualquer circunstância a solução do problema passa pela cobertura do solo com culturas ou resíduos vegetais. Qualquer coisa que deixemos na superfície é melhor do que enterrar. Temos que mudar essa mentalidade de que o solo tem que ser preparado para produzir.”

“Existem muitas coisas a fazer no Paraguai para o controle da erosão. Mas já possuímos diversos exemplos, de cooperativas e grupos de produtores, que estão servindo como difusão do sistema”.

entrevista extensa do Jornal do Plantio Direto com Rolf Derpsch (chileno-alemão, especialista em difusão de tecnologia, GTZ-Paraguai), realizada no Simpósio Internacional de Castro. Cobre páginas 6-7 do jornal. Histórico desde 1968 no Brasil (Estação Experimental do Trigo, Colombo-PR), 1971 (Londrina) primeiros experimentos PD com Francisco Terazawa (IPEAME) e Milton Ramos. 1972: máquina alemã testada na fazenda de Herbert Bartz; em outubro/72 Bartz importa Allis Chalmers dos EUA — lavoura pioneira. 1977-1984: IAPAR/Londrina-Rolândia, latossolo roxo e terra roxa, projeto com Osmar Muzilli e apoio ICI. Maior contribuição: medição da infiltração de água com mini-simulador alemão (100% infiltração com cobertura vs 20% com solo descoberto). 50 ton de dinamite/ha = impacto anual da chuva. Atualmente: Chaco-Paraguai (GTZ-governo paraguaio)