Entrevista — Dr. Shirley Phillips: maior área de Plantio Direto da década em 92


Autores:
Publicado em: 30/03/1993

Uma das presenças marcantes do Simpósio Internacional de Plantio Direto em Sistemas Sustentáveis, realizado em Castro, no Paraná, de 8 a 12 de março, foi a do Dr. Shirley Phillips, da Universidade de Kentucky, Estados Unidos. Mr. Shirley mereceu o carinho e homenagens dos seus amigos brasileiros, a quem orientou nos primeiros passos para a longa jornada do sistema plantio direto, que coloca os Campos Gerais na vanguarda da agricultura brasileira. Ele foi importante para o programa como um todo mas Nonô Pereira e Franke Dijkstra são testemunhas especiais do que esse renomado internacionalmente pesquisador agrícola americano fez pelo desenvolvimento da hoje chamada agricultura sustentável no Sul do Brasil.

Durante a realização do simpósio, Mr. Phillips dedicou um tempo especial para o Jornal do Plantio Direto e nos relatou, nesta entrevista, que contou com o apoio técnico fundamental do pesquisador Rainoldo Kochhann, do Centro Nacional de Pesquisa de Trigo — EMBRAPA, alguns aspectos do atual quadro do plantio direto nos Estados Unidos, além de incursões na área de fertilidade e rotações de culturas.

P — Qual a situação do plantio direto hoje nos Estados Unidos?

R — A experiência do plantio direto nos Estados Unidos evoluiu mais no Sudeste do País, em solos muito semelhantes aos do Brasil. Eram solos já desgastados pela erosão, embora nós também tenhamos usado solos jovens para tirar proveito do sistema duplo cultivo, ou seja, duas culturas por ano, em que nós usamos cultivos mais extensivos, com rotações que normalmente não utilizaríamos para produção de grãos. Entre estes solos, estavam aqueles que foram mantidos com pastagens naturais e que apresentavam elevado potencial para exploração agrícola, com restrições para preparo convencional.

O sistema plantio direto evoluiu mais devagar na região de produção de trigo. Apesar disso, no ano passado tivemos a maior área de plantio direto nos últimos 10 anos. Com esse índice de crescimento nós esperamos atingir o nível de crescimento conseguido pela Argentina e pelo Brasil. Em Kentucky, com uma área similar a Ponta Grossa e aos Campos Gerais, o plantio direto evoluiu com rapidez.

P — Qual o principal objetivo dos agricultores americanos que adotam o sistema?

R — Eles continuam procurando uma maneira de reduzir a erosão, porém, hoje dentro do enfoque de sustentabilidade, eles visam basicamente o retorno econômico para os dólares aplicados. Com o sistema, foi viabilizado o duplo cultivo, que não era possível com o preparo convencional. Isto gerou uma oportunidade a mais na exploração agrícola.

P — A partir da sua experiência, quais os solos mais adequados para o plantio direto, argilosos ou arenosos?

R — Qualquer solo bem drenado é variável para o plantio direto. Um solo com presença de palha na superfície, que drene toda a água das chuvas, tem condições de, depois de 2 a 3 anos, atingir o equilíbrio nas suas características físicas, químicas e biológicas. Então, passará a ter retorno econômico para os investimentos.

P — O Sr. tem preferências em relação às culturas de verão?

R — Eu, particularmente, prefiro a rotação de culturas mas o milho é especial, pela capacidade do seu sistema radicular. Mas eu não eliminaria culturas como trigo e principalmente aveia preta, que possui um potencial muito grande de bombeamento de nutrientes e água das camadas mais profundas para a superfície. As diferentes culturas envolvidas num sistema possuem diferentes habilidades de extração e, em consequência, ocorre uma complementação de funções.

P — Mesmo no plantio direto, é possível sobreviver com baixos níveis de fertilidade do solo?

R — Quando se inicia o programa de plantio direto, é bom que as primeiras culturas sejam adequadamente adubadas. Pela nossa experiência de mais de 20 anos, é recomendado que se use de 20 a 30% a mais de nitrogênio quando se faz plantio direto. As adubações devem [?ser parceladas?].

P — [?E em relação à aplicação de fertilizantes?]

R — Para a adubação, com a presença da palha na superfície, a aplicação de fertilizantes na linha é praticamente [?desnecessária, uma?] vez que a maioria dos solos está num nível adequado de fertilidade. Para culturas de inverno, usamos injetar amônia anidra no ano anterior. Também constatamos que duas aplicações é mais eficiente do que somente uma. A cultura que apresenta melhores respostas à nutrientes é o milho e, nesta cultura, a adubação parcelada tem sido muito eficiente. [?Os americanos?] usam discos ondulados pela capacidade de abrir um sulco mais amplo, no qual é colocado o fertilizante através de uma faca.

entrevista do Jornal do Plantio Direto com o Dr. Shirley Phillips, Universidade de Kentucky-EUA, durante o Simpósio Internacional (Castro-PR, 8-12/03/1993). Apoio técnico de Rainoldo Kochhann (CNPT-EMBRAPA). Quadro do PD nos EUA: maior área dos últimos 10 anos em 1992. Foco no Sudeste-EUA, rotação de culturas, milho, aveia preta, fertilidade, adubação parcelada, discos ondulados