“[?Quem?] não entrou no sistema plantio direto está perdendo tempo. Isto porque o solo, que é patrimônio dele, mas também o é dos seus filhos, das gerações futuras e do próprio País, principalmente, está se esvaindo, está se esgotando, indo embora, se acabando e, daqui a alguns anos, a pessoa que for plantar encontrará apenas uma laje, imprópria para essa finalidade.” As afirmações categóricas são do engenheiro agrônomo e produtor de sementes, associado da Apassul, Humberto Falcão, que dirige uma fazenda de 700 ha, localizada na Encruzilhada Natalino, na qual a semeadura direta está presente em 100% da área, a partir desta safra.
Sempre atento às inovações, Falcão introduziu o sistema na sua propriedade numa área de 20 ha, justamente a pior área em termos de fertilidade e erosão, além de ervas, segundo ele, logo que saiu da Faculdade de Agronomia de Passo Fundo, onde se formou em 1982. Nessa primeira oportunidade Falcão foi assessorado pelo engenheiro agrônomo Daltro Benvenutti, da Monsanto. Graças ao conhecimento pessoal e ao desenvolvimento do sistema na Granja Falcão, Humberto foi convidado a fazer uma palestra para um grupo de diretores americanos da empresa, o que ocorreu em São Paulo no final de 92. O engenheiro agrônomo passo-fundense, juntamente com dois outros produtores, um do Paraná e outro de Goiás, fez uma exposição que agradou ao pessoal da Monsanto.
EROSÃO
“Graças a Deus, agora podemos dormir melhor”, prossegue Falcão. “Não temos mais problemas graves de erosão. É difícil acabar com ela 100%, mas aquelas enxurradas violentas, de estourar terraços, levar as plântulas, o fertilizante e o calcário, realmente isso não existe mais”.
Hoje, com tristeza, ele assiste tais problemas ocorrendo nas vizinhanças, principalmente na área da Fazenda Anonni, onde se praticam maneiras primitivas de fazer agricultura, como a queima da palha.
A preocupação com a qualidade de palha é uma das mais importantes na opinião de Humberto Falcão, porque uma massa de 9 ton/ha de matéria seca, como as que têm conseguido com a consorciação aveia preta + ervilhaca, entre outras coberturas, ajudam no controle de ervas. Segundo ele, hoje existem pesquisas que comprovam que determinadas espécies vegetais, usadas como culturas de cobertura, controlam invasoras das culturas subsequentes, num fenômeno denominado alelopatia.
CUSTOS / PRODUTIVIDADE
“Desconsiderando aquele ano da seca mais violenta, que foi um desastre para todo mundo, foram praticamente 90 dias sem chuva, pode-se dizer que nós temos uma produtividade muito boa. Na safra de soja 91/92 colhemos uma média de 3.100 kg/ha. Em feijão tivemos 2.500 kg/ha. Nas culturas de trigo e triticale de 1992 nossa média deve ficar acima de 3.200 kg/ha.”
Mas Falcão acha que só a produtividade não é uma medida que baste para avaliar a eficiência do sistema. “Nós temos que considerar, além da produtividade, que [a] redução de custos no plantio direto é enorme em relação ao plantio convencional. Para ter uma idéia, [d]a área de 500 ha de soja, somente 5% recebeu aplicação de graminicida. Para a safra 92/93 estamos com uma previsão de aplicar em até 8% do total com herbicidas para ervas daninhas de folha estreita. Para folhas largas nossa previsão é de 50% de aplicação. Isto tudo sem considerar que eu tive uma redução do uso de herbicida dessecantes, aplicados antes da semeadura, em torno de 35%, graças ao volume de palha deixado pelas culturas de inverno. E poderíamos ter reduzido mais ainda o uso de dessecantes mas, como se trata de área para produção de sementes, optamos por aplicar e não correr riscos.”
PERSPECTIVAS
“É preciso abandonar logo o sistema convencional de plantio, que já está ultrapassado” finaliza Humberto Falcão. Repetindo o que disse para os diretores e técnicos da Monsanto, em São Paulo, ele afirma que o plantio direto é um sistema [?viável e definitivo, e que é necessário que?] não só as empresas mas também as entidades [de pesquisa e extensão se engajem para que] ocorra uma resposta mais rápida e mais eficiente na adoção da tecnologia.
[?Quem não se prepara, ou quem não conhece, não vai aplicar bem o sistema e vai dizer?] que o sistema não funciona. Mas o fundamental é o seguinte: o solo precisa ser conservado para as atuais e futuras gerações que vivem neste país.
Não existe uma receita específica, mas existem informações que podem ser captadas facilmente. É importante, é fundamental que se comece hoje”.
matéria-perfil sobre Humberto Falcão (Apassul, formado FAPF 1982), produtor de sementes em fazenda de 700 ha na Encruzilhada Natalino, 100% PD a partir desta safra. Iniciou PD em 20 ha logo após formado, assessorado por Daltro Benvenutti (Monsanto). Palestra Monsanto SP final/92. Produtividades safra 91/92: soja 3.100 kg/ha, feijão 2.500 kg/ha, trigo+triticale 1992 média 3.200 kg/ha. Redução graminicida (5%) e dessecante (35%)