Vinfried Leh: A hora de mudar é agora!


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Publicado em: 30/10/1992

“Se a maioria dos agricultores brasileiros está passando por momentos de dificuldades, temos uma pequena parcela que vive uma situação mais confortável. Por que isso? Porque eles viram a tempo o momento oportuno de mudar para uma agricultura onde não perdemos o patrimônio maior, que é o solo. Em tempo de crise é que a gente vê isso. A hora de mudar é agora!” As afirmações categóricas são do engenheiro agrônomo e produtor Vinfried Leh, associado da Cooperativa Agrária, de Entre Rios, Guarapuava, localizada no Terceiro Planalto Paranaense. Vinfried foi um dos palestrantes do 1º Curso Intensivo de Plantio Direto, realizado em Cruz Alta e Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, no mês de setembro.

AGRÁRIA

“A Cooperativa Agrária de Entre Rios cultiva em torno de 65.000 ha no verão (35.000 de soja e 30.000 de milho), basicamente com semeadura direta. Nosso solo é argiloso, um latossolo avermelhado, com algumas faixas de podzólico e os três primeiros anos de plantio direto trazem uma compactação superficial mas, a partir daí, você começa a ter uma terra fofa.”

“Até 1978 nosso pessoal falava em plantio direto mas, na prática, era um convencional puro. Nosso problema inicial sempre foi a menor produção comparativamente ao convencional nos primeiros anos. Depois, a falta de herbicidas. Essas barreiras só foram vencidas a partir de 1982, principalmente com a realização dos Encontros Nacionais de Plantio Direto em Ponta Grossa.”

Diversos pioneiros tentaram praticar o plantio direto na Cooperativa Agrária durante esses anos. “Posso citar vários mas existe um agricultor que eu sempre gosto de destacar que é o Sr. Jorge Karl. Há 7 anos ele fez uma última incorporação com arado de aiveca. Hoje, ele garante que não é por aí o caminho. Hoje sua lavoura tem plantio direto total, no inverno e no verão, com sistemas de rotação, calagem toda em cobertura.”

MILHO / MANEJO DA PALHA

“A região de Guarapuava tem se destacado na produtividade de milho. Na última safra nós ganhamos o Prêmio Destaque da Pioneer. A grande virada em termos do Paraná foi a criação do Clube do Milho, organizado pelo pessoal do Bamerindus, que reunia lideranças e agricultores de todo o Estado.”

“No início nós tínhamos medo da cultura do milho, pelo fator custo, dizíamos que é muito caro. No começo da minha participação na lavoura, agrônomo recém formado, não tinha uma noção prática e mais exata de como conduzir a cultura. Hoje, na questão ervas, com os herbicidas existentes, é brincadeira levar o milho no limpo. No que se refere a rentabilidade, o milho trouxe uma melhor produtividade para as outras culturas, quebrou aquele ciclo de monocultura que apresentava soja no verão e gramíneas no inverno. Muito importante é que estamos conseguindo colocar mais matéria orgânica no solo. O milho nos deu uma outra visão da agricultura.”

Uma questão ainda por equacionar é a do manejo da palha de milho. “Até o ano passado eu vinha fazendo a roçada mas o que resolveria de verdade seria se todos pressionassem as empresas fabricantes de máquinas colheitadeiras para que criem um sistema que pique a palha no momento da colheita, além de distribuí-la uniformemente.”

LAVOURA/PECUÁRIA - MERCOSUL

“Hoje vivemos o momento da integração lavoura-pecuária. Queremos fazer a lavoura ser rentável em cima da pecuária e vice-versa. Como? Captando todo o esterco bovino, suíno ou de aves, reciclando resíduos, fazendo um controle do que se está colocando em cada talão. De outro lado, a integração lavoura-pecuária só é possível com rotação de culturas e, quando falamos nisso, incluímos a pecuária como elemento da rotação.”

“Com a formação do Mercosul e o mercado internacional ficando cada vez mais disputado nós temos que melhorar bastante. Mas pelo que eu tenho visto na Europa e outros lugares, apesar do desgoverno que temos aqui, nós podemos concorrer com quem quer que seja, é só querermos. Eu pessoalmente não tenho medo do Mercosul. Sinto medo se nós continuarmos a praticar esse sistema de agricultura tradicional, em que a primeira chuva leva tudo para o rio.”

EUROPA / SUBSÍDIOS

“O que mais me chamou a atenção na Europa foi que acabou o subsídio para os europeus, eles não podem mais produzir e vender com preço abaixo do mercado. Antes, com subsídio, vendiam trigo abaixo do preço de mercado e quebravam o produtor brasileiro. Isso não podem mais fazer. No entanto, mudou o nome dos bois. Agora eles estão subsidiando a área plantada, não interessa se ele produzir muito ou pouco. Para nós eu acho que é bom, porque eles vão produzir uma quantidade menor. O Mercado Comum Europeu não vai permitir que os agricultores vendam abaixo do preço de mercado internacional. Parece-me que é a nossa grande chance para entrarmos nas culturas de trigo, cevada e aveia, é o momento da virada para nós e neste ano já teremos os primeiros resultados.”

“Estivemos no Royal Show, da Inglaterra, onde foi possível ver máquinas novas, que não chegam até nós. Eles somente as usam porque tinham subsídios. Sem isso eu duvido que fosse viável inclusive para os desenvolvidos europeus. O produtor europeu, por sinal, é visto como um vilão, por ser um predador da natureza. Quando a gente ouve um deles falar, dá pena, entre aspas, porque ele parece estar pior que nós.”

Eng° Agr° Vinfried Leh — produtor associado da Cooperativa Agrária (Entre Rios, Guarapuava-PR, Terceiro Planalto Paranaense). Palestrante do 1º Curso Intensivo de PD (set/1992, sobre Economicidade). Cita Sr. Jorge Karl (pioneiro PD na Coop. Agrária) e Clube do Milho (Bamerindus)