Na madrugada do dia 3 de novembro, quando terminávamos a edição deste número do Jornal do Plantio Direto, o céu rodou de negro e abriu-se em cataratas estrondosas. A água, que é veículo da vida, deu mais uma contribuição para a lenta agonia do solo agrícola no sul brasileiro. Lenta aos nossos olhos mas rápida e devastadora para o tempo universal, que nosso relógio não acompanha.
Como acontece quase sempre, as chuvas da primavera encontraram milhões de terras lavradas, gradeadas, penteadas e perfumadas, algumas já com as culturas apontando para o céu que desaba. Então, cumpre-se a previsão, inaceitável para a lógica humana, de que estamos transformando nossa pátria num deserto. É um filme que se repete a cada primavera, a cada editorial. Mas, continuando assim, não haverá mais primaveras. Quando o tempo está bom, o sol massacra o solo exposto, o Cone Sul da América não possui mais a totalidade da camada de ozônio e os microorganismos que fazem a vida do solo não podem sobreviver com temperaturas de 50 graus centígrados. Depois, enquanto os agricultores dormem, nuvens negras chicoteiam sem piedade, levando embora o solo fértil. Onde está a cabeça dos homens desta terra?
Alguns deles estão prevenidos e não lavram mais as terras, deixando uma cobertura de palha que, além de proteger contra a agressão da chuva, servem como alimento para a vida do solo. É tão simples que se torna impossível entender como o sistema plantio direto não é implementado na maioria das nossas lavouras. Que bom se houvesse várias formas de explorar os solos tropicais. Porém, a realidade é que, sem a cobertura da palha, estamos condenados a um triste destino de terras arrasadas, depauperadas, um deserto pelo qual nossos descendentes nos condenarão.
Engº Agrº Gilberto Borges
Eng° Agr° Gilberto Borges (Aldeia-Sul Editora) — editorial sobre as chuvas da primavera de 1992 que castigaram terras lavradas no Sul brasileiro