Plantio Direto de Milho e Sorgo


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Publicado em: 30/08/1992

I — INTRODUÇÃO

No Planalto Médio do RS, o início da agricultura mecanizada tradicional, em campo nativo, se deu na década de 50. Em 40 anos de preparo convencional, são impressionantes os danos e perdas provocados pela erosão hídrica, apesar dos esforços dos agricultores (terraçamento, plantio em contorno, subsolagem, etc.). Não é difícil de imaginar essa situação levando-se em conta precipitações de 100 milímetros em uma hora, sobre a área arada e pulverizada pela gradagem, sem proteção alguma.

É uma agricultura recente (40 anos) porém já apresentando um quadro triste de erosão, com lavouras degradadas, agricultores pobres, áreas abandonadas, com profundas cicatrizes deixadas pelas chuvas intensas, trazendo como consequência o assoreamento de rios, açudes e barragens, provocando grandes danos à flora, fauna e ao homem, pelos resíduos tóxicos arrastados das plantações. Como resultante disso, é evidente o êxodo rural, com formação de bolsões de pobreza nas periferias das cidades.

Vivendo essa realidade, alguns agricultores e técnicos-pesquisadores se dedicaram ao sistema plantio direto sobre a palha, no início da década de 70.

Na década de 80, minimizados os problemas de maquinaria para cultivo de inverno e de herbicidas para o controle de plantas daninhas, surgiram as primeiras áreas onde os arados e grades puderam ser dispensados definitivamente.

II — SISTEMA PLANTIO DIRETO NA PALHA

É um conjunto de técnicas usadas para estabelecer uma nova cultura sobre palha (resteva) de uma lavoura recém-colhida, colocando a semente na terra, sem a necessidade do uso de arados e grades. A palha, ficando na superfície, uniformemente distribuída, protegerá o solo dos efeitos da erosão.

A seguir, citamos uma sequência de técnicas indispensáveis ao sucesso do Sistema, a saber:

a) preparo da área: deve ser sistematizada com posterior descompactação. A acidez deve ser eliminada pela calagem e os nutrientes corrigidos em níveis adequados;

b) cobertura de palha: bem distribuída na superfície facilita o plantio e o controle da erosão. Ocorre uma diminuição da temperatura do solo. Produz um “abafamento” com controle de plantas daninhas. A água é melhor conservada pela maior infiltração, menor evaporação e escoamento superficial. Resultante da decomposição da cobertura por microorganismos teremos, além do efeito alelopático que controla as plantas daninhas, uma reciclagem de nutrientes, formando um novo solo orgânico, com melhor estrutura física. Quando a cobertura é excessiva, como na resteva do milho (mais de 5 t/ha), pode ser removida parcialmente, para não prejudicar o plantio futuro;

c) plantio correto: a semeadora deve colocar a semente em contato com o solo, abaixo da “cama” formada pela cobertura de palha;

d) rotação de culturas: deve ser economicamente viável e adequada a cada região. Diminui a incidência de [?doenças e pragas específicas?] a cada cultura (principalmente pragas subterrâneas) e proporciona uma reciclagem de nutrientes que são extraídos por diversas espécies com sistemas radiculares diferentes;

e) adequada aplicação de herbicidas, fungicidas e inseticidas: as pulverizações devem ser feitas nas horas de temperaturas baixas (madrugada ou entardecer) e com pouco vento. Os inseticidas, quando necessários, devem ser preferencialmente biológicos;

f) correta adubação: após alguns anos sem lavrar, os níveis de K na superfície aumentam significativamente, devido a reciclagem de nutrientes gerada pela rotação de culturas. Os níveis de fósforo (P) também aumentam na superfície devido a não fixação pelo solo e a baixa mobilidade do elemento;

g) correção da acidez: a acidificação superficial é um fator negativo que a partir de 1988 passamos a corrigir com a utilização de 1,5 t/ha de calcário (na superfície).

Concluindo, ressaltamos a importância vital para o sucesso do Sistema: a CONSCIÊNCIA do agricultor.

Tabela 1 — Determinações químicas do solo em duas épocas, na lavoura situada em Passo Fundo (RS):

ÉpocapH águaP (ppm)K (ppm)MO (%)Al (me/dl solo)Ca + Mg (me/dl solo) 19835,45,0701,81,24,44 19915,838,02003,90,09,60

Amostras coletadas a profundidade de 0 a 20 cm.

Até 1983, as melhores produtividades não ultrapassavam 2.000 kg/ha de trigo, cevada, aveia e soja, como também 3.500 kg/ha de milho. Após os primeiros anos de plantio direto, alcançou-se produtividades muito acima das médias regionais.

III — A IMPORTÂNCIA DO MILHO E SORGO NO SISTEMA PLANTIO DIRETO

Consideramos o milho, no Planalto Médio do [RS], como a cultura mais importante dentre aquelas usadas em rotação no Sistema Plantio Direto. É a cultura que nos proporciona um maior volume de palha sobre o solo, após a colheita, bem como um excepcional volume de raízes que no perfil, depois de secas, deixam espaços importantes para aeração, infiltração de água e penetração das raízes das culturas de inverno, semeadas em sequência.

A utilização do milho no Sistema Plantio Direto em rotação com a soja no RS é indispensável. A diminuição progressiva de produtividade da soja nos últimos anos, se deve a problemas de monocultura (aumento da incidência de doenças fúngicas e insetos-pragas de difícil controle).

Finalmente deixamos uma pequena mensagem para o agricultor: “certamente não há satisfação maior do agricultor consciente que, desfrutando do solo pátrio para gerar alimentos, possa fazê-lo sem destruir os recursos naturais, deixando aos sucessores um solo mais fértil e produtivo. Disto trata o Sistema Plantio Direto na palha.”

Luiz Graeff Teixeira — palestra proferida no Congresso Brasileiro de Milho e Sorgo. Apresenta tabela de transformações químicas do solo (1983 vs 1991) na lavoura em Passo Fundo-RS e gráfico de produtividades em 9 anos sob PD