Introdução
Em 30 de outubro de 1989 realizou-se o primeiro plantio direto de alfafa na região das Cooperativas ABC. Sr. Hiromeu Doi, associado da Cooperativa Castrolanda, lançou o desafio, colocando 4 ha da sua fazenda à disposição do Departamento de Zootecnia da CCLPL para desenvolver o sistema de plantio direto de alfafa. Os motivos para se fazer o plantio direto foram principalmente para diminuir os riscos de erosão, melhor controle de ervas, maior retenção de água e outras já conhecidas que o sistema oferece. Um ano após mostramos o resultado.
A cultura de alfafa iniciou-se no sistema convencional nesta região nos anos 80. O primeiro produtor a estabelecer um alfafal na região foi Dr. José T. L. de Oliveira. Sabe-se que várias tentativas foram feitas, até se conseguir êxito na implantação dos alfafais. A implantação do alfafal no sistema convencional não tem sido uma tarefa simples; no plantio direto, o sistema exige maior mecanização e precisão.
Apesar de todas as dificuldades, falta de máquinas, produziu-se 2.026 kg/ha por corte de matéria seca (M.S.), utilizando-se o plantio direto. Cabe lembrar que na prática, os conhecimentos e os ensinamentos são adquiridos a longo prazo. A época de plantio, correção, adubação, variedades, sistema de plantio são pontos ainda a serem pesquisados, dentro do contexto de produção. Em função destes fatos, a pesquisa deve estudar com o objetivo de encontrar os meios e o ponto de equilíbrio para as futuras recomendações.
Análise de solo
Duas amostras foram coletadas nas profundidades 0–20 e 20–40 cm, misturadas em uma amostra e enviada para análise. Resultado da análise de 19.04.89: pH(CaCl&sub2;) 5,5; Al 0,0; H+Al 5,21; Ca 5,17; Mg 1,15; K 0,24; CTC 15,21; V 65; M.O. 4,2; P 6 ppm.
Uma nova análise foi recomendada 9 meses após plantio, devido algumas plantas apresentarem-se debilitadas com coloração verde-clara, pintas avermelhadas nas extremidades das folhas e por suspeitar-se de desnutrição mineral. Utilizou-se o mesmo método de amostragem na análise anterior. Resultado da segunda análise em 05.07.90: pH(CaCl&sub2;) 6,35; Al 0,05; H+Al 2,20; Ca 5,34; Mg 2,92; K 0,39; CTC 10,88; V 79,52; M.O. 3,02; P 4,7 ppm. As duas análises foram realizadas no mesmo laboratório. Recomenda-se retirar amostras em profundidades de 0–20 e 20–40 cm, deixando-as separadas e identificadas para analisar.
Correção do solo
Desde 1987 preparou-se a área para o plantio de alfafa. Visando atender às necessidades da alfafa determinou-se a necessidade de calagem através da elevação da saturação de bases para 75%, fósforo para 15 ppm e potássio para 0,30 meq/100 g de solo. A aplicação do calcário foi realizada a lanço, incorporado a profundidade que varia de 0–20 e 25–35 cm.
Antes do plantio da aveia em 17.10.89, foram aplicados por ha: 2.000 kg de calcário; 1.200 kg de yoorin; 375 kg de cloreto de potássio; 25 kg de bórax; 15 kg de sulfato de cobre; 15 kg de sulfato de zinco. A incorporação destes produtos foi realizada superficialmente. A correção de solo realizada com bastante antecedência, aspecto de suma importância na correção, permitiu a melhoria do perfil do solo, e ocorrência das realizações de neutralização e estabilização. Atualmente a pesquisa sugere para o plantio de alfafa o cálculo para 110–130% a elevação da saturação das bases, 20 ppm de fósforo e 0,30 meq/100 g de solo de potássio. No plantio de aveia preta, utilizou-se 135 kg/ha de sementes.
Adubação de base
Como adubação básica utilizou-se 500 kg por ha da fórmula 0–20–20. Realizou-se a adubação a lanço, antes do manejo mecânico da aveia utilizando-se o rolo-faca.
Manejo de cobertura
A utilização de 1,5 litros/ha de glyphosate, 1,0 litro/ha de 2,4 D em 200 litros de água, para a dessecação foi necessária para acelerar e uniformizar artificialmente a secagem das partes verdes e das folhas (Aveia e algumas ervas infestantes). A dessecação ocorreu 30 dias antes do plantio da alfafa. O resultado obtido com a mistura foi a dessecação completa da vegetação presente. O manejo mecânico da cobertura foi realizado 20 dias após dessecação.
Plantio
No plantio foram utilizados 18,7 kg/ha de sementes de alfafa da variedade crioula, previamente tratada 24 horas antes do plantio. Utilizou-se para inoculação a peletização das sementes da alfafa: água, polvilho, inoculante específico, fungicida, quimole cal filler, nas doses recomendadas. Realizou-se o plantio em 30.10.89. A semeadeira TD 300 utilizada com a caixa de semear forrageiras (acessório adaptável) para o plantio, apresentou bons recursos e opções de regulagem. A condição de solo na ocasião do plantio não foi a ideal: o solo apresentava-se irregular e desuniforme, prejudicando a profundidade e o cobrimento das sementes. A utilização do rolo compactador após o plantio foi importante para melhorar a compactação e o contato das sementes com o solo. Em condições ideais de solo, livre de fortes ondulações e bem assentado, a semeadeira TD 300 oferece requisitos para uma boa distribuição e profundidade de sementes. O polvilho utilizado na inoculação e peletização das sementes obteve boa adesão. Observou-se durante o manuseio das sementes no plantio o descolamento dos péllets. Aparentemente o deslocamento dos péllets não causou danos na formação dos nódulos na alfafa.
Controle de ervas
Devido ao reduzido controle de ervas na fase inicial da alfafa, a produção de 1.800 kg/ha de m.s. da aveia para cobertura considerou-se insuficiente. Para o controle de ervas infestantes solicitou-se o setor de Herbadologia da Fundação ABC. Quarenta e cinco dias após o plantio foi necessário controlar as ervas daninhas. As ervas presentes eram de folhas largas: Caruru (Amaranthus hybridus L.), picão preto (Bidens pilosa L.), fazendeiro (Galinsoga paviflora Cav.) e beldroega (Portulaca oleracea L.). Para o controle das ervas utilizou-se em 08.11.89, dois tratamentos: Cobra 0,4 litros/ha em 300 litros de água e Pivot 1 litro/ha + 1,5 litros de Assist + 8 kg/ha Sulfato de amônia em 300 litros de água.
Os dois tratamentos mostraram-se eficientes no controle às ervas. O Cobra causou maior fitotoxicidade na alfafa atrasando o corte em 30 dias aproximadamente. O Pivot obteve controle inclusive em algumas gramíneas, e não apresentou praticamente fitotoxicidade na alfafa.
Passados quarenta e cinco dias após o primeiro tratamento necessitou-se novo controle de ervas. As principais ervas de folhas estreitas presentes eram: capim pé-de-galinha (Eleusine indica L. Gaertn.) e Kikuyo (Pennisetum clandestinum Hochst.). Para o controle das ervas utilizou-se: Fusilade 1,75 litros/ha + 0,6 litros de energia em 300 litros de água. O tratamento mostrou-se eficiente no controle das ervas, não causando nenhuma fitotoxicidade na alfafa. As avaliações foram feitas visualmente em todos os tratamentos. Aconselha-se usar herbicidas que não causem nenhuma ou baixa fitotoxicidade na alfafa, para não atrasar o próximo corte.
Sugere-se para melhor controle de ervas na fase inicial da alfafa, melhor controle de água, uma produção aproximada a 2.500 kg/ha de m.s. de cobertura (para aveia).
Insetos
A alfafa conhecidamente resistente ao frio apresentou sensibilidade e redução de produção após sucessivas e rigorosas geadas nos meses do inverno. Juntamente com o inverno e o stress causado pelo frio a alfafa sofreu dois ataques intensivos de pulgões. Os pulgões identificados como (Acyrthosiphon pisum) foram controlados, aplicando-se 0,3 kg de Pirimor em duas oportunidades em 20.06.90 e 20.09 de 90. O controle mostrou-se eficiente nos dois tratamentos.
Fungos
Sabe-se que os alfafais sofrem na nossa região, em certos períodos do ano, ataques de fungos. O excesso de umidade ocasionado pelas chuvas, durante o inverno, pode estar relacionado com o intensivo ataque de fungos, causando perdas na produção de alfafa. Durante o ano de 1990, notou-se principalmente na região de Castrolanda um ataque mais intensivo de fungos comparada às regiões vizinhas. Acredita-se que seja proveniente da maior umidade.
Em análise realizada pelo setor de Fitopatologia da Ocepar, constatou-se a presença de plantas com sintomas de virose (mosaico da alfafa) e identificou-se o organismo (Pseudopeziza sp.). Na visita ao Brasil do pesquisador do Inta-Argentina, Dr. Roberto Rossanigo, identificou os fungos: Pseudopeziza medicaginis, Phoma medicaginis e Cercospora medicaginis. Como tratamento recomendou-se antecipar os cortes da alfafa.
Produção
Durante este período até o mês de dezembro de 1990, o alfafal produziu 5 cortes. Todos os cortes foram utilizados para fenação. Devido às chuvas, perdeu-se um corte, estimado em 1.100 kg/ha de m.s. durante a fenação. A produção acumulada até dezembro de 90 (inclusive a que se perdeu) soma 10.133 kg/ha de m.s., o que é considerada boa para o primeiro ano. Através das experiências realizadas em anos anteriores, os alfafais demonstraram um acréscimo na produção a partir do segundo e terceiro ano, após implantação. Por este motivo espera-se um incremento na produção deste alfafal para os próximos anos.
Adubação de manutenção
A adubação de manutenção baseou-se pelas deficiências avaliadas visualmente de boro e potássio. Utilizou-se 15 kg/ha de bórax e 200 kg/ha de cloreto de potássio como adubação de manutenção realizada em 16.03.90. O sistema de adubação adotado é considerado insuficiente e não repõe as extrações. Indicou-se fazer uma análise de solo, em função do aspecto aparente de desnutrição mineral. Após o resultado da análise, recomendou-se para elevar o nível do fósforo, 240 kg/ha de super-fosfato simples em duas aplicações: a primeira realizada em 13.10.90; a outra recomendada para o início do verão de 91.
Recomenda-se utilizar para a adubação de manutenção a tabela de extrações da alfafa, publicada anteriormente no DIRAT número 77, páginas 22 e 23.
Nesta propriedade, utilizou-se a alfafa para produção de feno, para alimentação de suínos. A fazenda possui uma boa estrutura para a fabricação de ração. Após a obtenção de feno, moí-se o feno e mistura-se junto com a ração. A ração diária é consumida e produzida na própria fazenda.
Conforme a produção ilustrada no gráfico, a alfafa apresenta sua produção principalmente no período de maior escassez, seja no verão. Isto faz a alfafa ser a melhor opção no verão, porque oferece qualidade e produção.
De acordo com as experiências adquiridas neste trabalho e objetivando otimizar o sistema, aconselha-se o seguinte: realizar plantio no outono; preparar o solo incorporando o calcáreo à profundidade de 0,35 cm, pelo menos 12 meses antes do plantio; fazer correção através da análise de solo, visando a obtenção de níveis adequados e boa fertilidade do solo; obter uma cobertura (aveia) aproximada a 2.500 kg/ha de m.s.; utilizar semeadeiras no plantio que ofereçam precisão; utilizar o rolo compactador após plantio para melhorar o contato da semente com o solo.
Sugestões para a pesquisa
Para dar continuidade ao trabalho e aprimorar o sistema sugere-se: trabalhar com diversos tipos de coberturas; trabalhar com diferentes coberturas e produções de matéria seca; pesquisar variedades adequadas resistentes contra doenças, pragas e fungos; procurar máquinas que possibilitem distribuir e colocar as sementes na profundidade desejada.
Os resultados obtidos neste trabalho pioneiro do plantio direto de alfafa indicam existir possibilidade de uso deste sistema.
Huibert Pieter Janssen — Departamento de Zootecnia da CCLPL (Cooperativa Castrolanda)