Tecnologia: Brasil tem trigo de proveta


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Publicado em: 30/04/1991

Com o objetivo de adaptar as plantas ao meio e não apenas este à planta, o Centro Nacional de Pesquisa de Trigo (CNPT), Unidade da EMBRAPA localizada em Passo Fundo — RS, lançou na 23ª Reunião da Comissão Sul Brasileira de Pesquisa de Trigo, realizada em Pelotas — RS, no período de 18 a 21 de março, a primeira cultivar de trigo brasileira obtida através de cultura de anteras (trigo de proveta) desenvolvida em laboratório. O Brasil é o quarto país do mundo a lançar uma cultivar obtida com esta metodologia.

A cultivar Trigo BR-43 é o resultado do esforço do CNPT em acelerar a obtenção de materiais mais produtivos através do uso de tecnologia de ponta, como a cultura de anteras. Esta metodologia biotecnológica permite obter plantas viáveis a partir apenas do grão pólen, que é a célula masculina da flor. A duplicação artificial do patrimônio genético restaura a fertilidade e a pureza genética.

Em 1983, conforme a citogeneticista do CNPT, Maria Irene Moraes Fernandes, a cultivar Jacuí foi cruzada com um material proveniente do programa de melhoramento de trigo, conduzido pelo pesquisador Vanderlei Caetano, o qual visava criar cultivares com menor exigência de adubação nitrogenada. Com as plantas obtidas na primeira geração foi realizada a cultura de anteras, obtendo uma planta fértil em 1984, a qual foi multiplicada e avaliada a partir de 1985. O processo de obtenção da linhagem foi de 1982 a 1984, mas pelo melhoramento convencional, com uma geração por ano, este processo levaria no mínimo sete anos de trabalho de pesquisa, até as populações de plantas resultantes dos cruzamentos tornarem-se geneticamente uniformes.

Em 1986, segundo o pesquisador João Carlos Moreira, a linhagem foi testada no Ensaio Preliminar Interno no ano seguinte no Ensaio Preliminar em Rede e de 1988 a 90 nos ensaios da Rede Oficial (Ensaio Regional e Sul Brasileiro de Trigo). Nestes ensaios oficiais a linhagem produziu 16% a mais do que a média das testemunhas. Na maior região produtora de trigo do Rio Grande do Sul, que engloba municípios como Passo Fundo, Júlio de Castilhos, Selbach e Cruz Alta, o Trigo BR-43 rendeu, na média dos ensaios, 2995 kg/ha, 4003 kg/ha e 2894 kg/ha, em 1988, 89 e 90, respectivamente. O alto potencial de rendimento deste novo trigo ficou evidenciado pelo rendimento de 5290 kg/ha, obtidos em experimentos conduzidos em Vacaria — RS, em 1989, valor este correspondente a 38% acima das testemunhas.

A maior qualidade desta cultivar é o seu potencial produtivo. Além disso, o Coordenador da Área de Melhoramento Genético Vegetal do CNPT, Pedro Luiz Scheeren, explicou que a cultivar possui hábito ereto, ciclo curto, estatura média e é mútica, isto é, não possui aristas. Quanto às características, apresenta as vantagens de ser resistente ao crestamento e à ferrugem do colmo e moderadamente resistente ao acamamento, ao oídio e ao vírus do mosaico do trigo.

A cultivar Trigo BR-43 está sendo recomendada para o Rio Grande do Sul e o Serviço de Produção de Sementes Básicas (SPSB), da EMBRAPA, tem em disponibilidade de 45 toneladas de sementes básicas para serem repassadas aos produtores.

Para finalizar, Pedro Scheeren relatou que o CNPT tem outra linhagem de trigo de proveta em testes finais e que poderá ser lançada para o Paraná, Mato Grosso do Sul e São Paulo. Esta linhagem, em 1990, apresentou rendimentos 27% superiores às testemunhas em testes realizados no Paraná. Possivelmente o lançamento desta linhagem deverá ocorrer em 1992, pois seu rendimento é excelente quando comparado com as cultivares testemunhas.

Para dar uma idéia da importância econômica do Trigo BR-43, o economista do CNPT, Roque Tomasini, traça um paralelo desta cultivar com as demais em cultivo no RS. Considerando que a cultivar Trigo BR-43 cresça em área à metade do que ocorreu com o Trigo BR-23, em 1992 teremos 2,1% da área tritícola gaúcha com este novo material e no ano seguinte 17,5%. Como ele rende 16% a mais que as testemunhas e como em áreas experimentais, normalmente, o rendimento é 30% superior às lavouras, isto é, dos 3.111 kg/ha produzidos em ensaios, consideramos apenas 2.177 kg/ha e, como a média das lavouras tritícolas do Estado nos últimos três anos foi de 1.593 kg/ha, a cultivar Trigo BR-43 renderia, na lavoura, 700 kg/ha a mais que a média das demais. Se a área cultivada com Trigo no RS for de 1 milhão de hectares, consequentemente, em 1992 teríamos uma projeção de área de 21.000 ha com esta cultivar, o que produziria 14.700 t a mais que outras cultivares, rendendo, adicionalmente, 1,8 milhões de dólares para os triticultores e promovendo uma arrecadação de ICMs em torno de US$ 306.000,00. Em 1993, nos 175.000 ha que poderão ser cultivados com o Trigo BR-43, a produção adicional será de 122.500 t, o que acarreta um ganho adicional de 14,7 milhões de dólares e uma arrecadação de ICMs no valor de US$ 2.500.000,00. Tomasini lembra que este valor é a metade de todo o orçamento do CNPT em 1990.

Com o lançamento da cultivar Trigo BR-43 a EMBRAPA mostra sua capacidade tecnológica para o mundo, pois apesar de todas as restrições orçamentárias sua equipe de pesquisadores está desenvolvendo trabalhos de suma importância para o progresso da agricultura nacional. As pesquisas realizadas pela EMBRAPA colocam o Brasil entre os países de maior desenvolvimento científico.

Maria Irene Moraes Fernandes, Carlos Moreira, Pedro Luiz Scheeren e Roque Tomasini — Centro Nacional de Pesquisa de Trigo (CNPT/EMBRAPA), Passo Fundo, RS