Paraná investe no manejo e na conservação do solo


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Publicado em: 30/04/1991

“O Estado do Paraná, através da Secretaria de Agricultura e Abastecimento, elegeu como uma das suas prioridades o ‘Programa de Manejo Integrado de Solos e Água’, dentro do plano de agricultura e abastecimento 1987/91. Neste período foram aplicados somente pela SEAB 40 milhões de dólares.” As informações foram prestadas pelo Engenheiro Nestor Bragagnolo, coordenador do programa, ao fazer uma análise sobre o retorno dos recursos financeiros aplicados em algumas atividades implementadas pelo programa.

Segundo Bragagnolo, apesar dos resultados positivos que a análise apresenta e que, na prática, são representados pela mudança na cor das águas dos rios paranaenses, permanece a indagação a respeito da validade dos investimentos. “Nós achamos que vale a pena continuar investindo”, prossegue ele, usando palavras do governador do Estado: “o solo é um bem circunstancial de poucos, mas é patrimônio da humanidade.” Segundo o coordenador do programa, “na luta contra a degradação dos recursos naturais renováveis, houve uma união entre população e governo na definição e disciplinamento da aplicação das verbas, ocorrendo uma contrapartida maior por parte de agricultores e prefeituras.”

“Pela análise econômica de apenas 5 atividades implementadas pelo Programa de Manejo e Conservação do Solo, além da aceitação obtida junto aos agricultores envolvidos no período, constatamos o acerto da decisão governamental em investir prioritariamente nessa área.” Concluiu Nestor Bragagnolo. E finalizou, otimista: “O Paraná realmente vive uma revolução no campo, com o uso racional dos recursos naturais, o equilíbrio dinâmico entre produção e conservação, baseado na tomada de consciência da necessidade de se elaborar um programa construtivo e concreto para que o homem viva melhor e não apenas sobreviva.”

Produção e produtividade

No período 1987/90 foram implantadas práticas mecânicas e vegetativas de conservação do solo em 1.580.000 ha de solo agrícola dos quais 132.000 ha receberam também a devida correção da acidez pela adição de calcário. Nesta área a produtividade (kg/ha) das principais culturas exploradas: feijão, soja, milho e arroz no verão e trigo no inverno, aumentou entre 10 a 30%, consequentemente a produção global destes produtos aumentou em 427.075 toneladas/ano. O aumento da produção gerou um acréscimo de receita aos produtores de US$ 64 milhões/ano e ao Estado um incremento na arrecadação de ICMs ao redor de US$ 11 milhões/ano.

Dejetos animais

A não utilização dos dejetos animais é bastante grave, bem como o problema da poluição dos mananciais causados pelos mesmos. O Programa, com intuito de melhorar as condições físicas e químicas dos solos, aumentando a infiltração de água no perfil e a cobertura vegetal do solo a fim de reduzir a erosão evitando os problemas acima, atacou no período 1987 a 90 este problema, apoiando financeiramente 50 grupos de produtores na aquisição de máquinas e equipamentos para utilização racional destes dejetos.

Estes 50 distribuidores de esterco propiciaram a correta utilização e distribuição de 400.000 m³ de esterco/ano, cujo valor econômico dos principais elementos (Nitrogênio, Fósforo e Potássio) representa uma redução nos custos de produção de US$ 1,5 milhões.

Readequação de estradas

A adequação das estradas, de um modo integrado às práticas de manejo do solo a nível de propriedade na microbacia, propicia melhor controle da erosão, bem como reduz drasticamente as necessidades e custos de manutenção, o que representa uma economia média de 50% sobre o que era gasto anteriormente em média US$ 8.500,00 ao km/ano, o que representa substancial economia aos municípios e ao produtor rural.

No período 1987/90 foram readequados dentro desta sistemática adotada pelo Programa 24.584 km de estradas rurais. Considerando as estradas rurais readequadas no período e os dados acima constatamos que esta atividade está propiciando uma economia anual de 104 milhões de US$.

Sedimentação e turbidez dos rios

A maior parte do solo erodido da área agrícola no Paraná é carregada para os rios. Os sedimentos e poluentes da água são removidos através da filtração e tratamento químico, a fim de que a água possa ser utilizada para o consumo doméstico. O custo deste tratamento varia muito, sempre intimamente relacionado com o manejo dos solos em que é realizado em cada uma das bacias.

A Tabela 1, apresenta como exemplo os índices de turbidez em dois diferentes mananciais de abastecimento de água. Os mananciais analisados referem-se, primeiro, a Bacia do Rio do Campo, na região de Campo Mourão, onde é implementado um sistema de Manejo e Conservação do Solo desde 1983. O segundo refere-se à Bacia do Pirapó, na região de Maringá, onde não se observa o mesmo manejo e conservação do solo. Os dados mostrados pela Tabela 1 referem-se à média mensal dos últimos 8 anos (1983-90).

Tabela 1 — Comparativo dos índices médios de turbidez na bacia do rio Pirapó (Maringá — sem manejo) e bacia do rio do Campo (Campo Mourão — com manejo), Jan/Dez 1983/90: Janeiro 458/108; Fevereiro 268/112; Março 328/77; Abril 214/75; Maio 222/88; Junho 101/60; Julho 92/45; Agosto 47/50; Setembro 164/95; Outubro 131/48; Novembro 327/56; Dezembro 535/136. Fonte: SDO/GDO/DUDO — SANEPAR/PR.

Pela análise da tabela acima, verifica-se a grande diferença nos índices de turbidez das duas bacias, consequentemente o custo do tratamento da turbidez da água também varia. A Tabela 2 demonstra um comparativo do custo no tratamento da turbidez da água nos dois mananciais, para o mês de Setembro de 1990: Sulfato de Alumínio — Pirapó CR$ 1.590.514,10 (1,44 CR$/m³), Campo CR$ 129.159,70 (0,41 CR$/m³); Cal — Pirapó 368.663,02 (0,33), Campo 93.808,74 (0,29); Cloro — Pirapó 340.431,20 (0,31), Campo 67.434,40 (0,21); Total — Pirapó 2.299.608,32 (2,08), Campo 290.402,84 (0,91). Fonte: SDO/GDO/DUDO — SANEPAR/PR.

Observando os resultados, percebe-se que os custos no tratamento da turbidez da água do manancial do Rio do Campo foi bem inferior ao do manancial do Rio Pirapó. O custo médio por m³ de água tratada no manancial do Rio do Campo ficou em 43,7% do custo médio no tratamento da água do manancial Rio Pirapó. Assim, constata-se a importância do manejo e conservação do solo também na redução dos custos com o tratamento da água para abastecimento dos centros urbanos.

Redução de fertilizantes

No mesmo período de anos o Programa incentivou a adoção da prática de adubação verde e cobertura do solo, possibilitando uma melhor proteção do mesmo contra a ação dos agentes de erosão. Foram 778.800 kg de sementes de diversas espécies de adubo verde distribuídas a diversos produtores rurais abrangendo uma área de aproximadamente 25.000 hectares.

Além da proteção do solo, tem-se a considerar a melhoria na fertilidade, e, quanto a este aspecto, resultados de pesquisa e mesmo de observação a nível de lavouras (inclusive em solos de baixa fertilidade), tem evidenciado que é possível substituir total ou parcialmente a adubação nitrogenada na cultura do milho, por exemplo, com a prática da adubação verde, ocasionando uma significativa economia a nível de produtor, sem redução na produtividade da cultura tem-se conseguido a substituição de 80 kg de nitrogênio mineral por hectare pelo suprimento de nitrogênio proporcionado pela adubação verde, possibilitando uma diminuição de custo (a nível de produtor rural) de US$ 5,67 milhão nos 25.000 hectares, no período de 4 anos.

Vale ressaltar, além disso, que na realidade a área já alcançada com a prática da adubação verde é superior a aqui referida, uma vez que os produtores que receberam a semente se comprometem a distribuir, na safra seguinte, igual quantidade para outros produtores e, assim, sucessivamente.

Nestor Bragagnolo — Coordenador do Programa de Manejo Integrado de Solos e Água (SEAB/PR)