“Em zonas sub-tropicais, como é o caso do Rio Grande do Sul, é altamente questionável o intenso revolvimento do solo”. A afirmação é do Engenheiro Agrônomo Ângelo Luiz Arrosa Soares, do Instituto Gaúcho do Arroz, contida na publicação “Plantio Direto com cultivo mínimo de arroz — Considerações em torno do tema”, que aquela entidade, juntamente com o Clube do Plantio Direto e o apoio da Monsanto publicaram em 89/90.
Anteriormente já havia sido publicado, da mesma fonte, o “Manual Prático” para o plantio direto com cultivo mínimo em arroz. Ambas são publicações objetivas e práticas, que têm servido de orientação para os agricultores e técnicos da região do arroz irrigado.
A síntese que apresentamos sobre a tecnologia do PD em arroz, são compiladas dessas duas publicações.
“No caso de invernos rigorosos e longos, o revolvimento do solo tem como finalidade acelerar o aquecimento dos solos. O revolvimento e o aquecimento desencadeiam a incorporação rápida dos restos vegetais que ficaram sob a neve, acelera a reativação biológica e encurta o período de implantação das culturas primavera-verão, necessário no hemisfério norte. Lá, o solo entra em repouso hibernal, o que não acontece no Brasil. Mesmo no Rio Grande do Sul, a atividade biológica não cessa, apenas diminui. No nosso meio, desde que solucionados alguns problemas de manejo, é perfeitamente viável o uso do plantio direto, já que não temos as mesmas necessidades dos climas mais frios.”
Custos / Produtividade / Vantagens
“O plantio direto com cultivo mínimo de arroz é uma filosofia de trabalho que visa reorganizar técnicas já conhecidas, diminuir custos e aumentar a produtividade. Entre as principais vantagens do sistema, destacamos:
Menor agressão química: estando o solo com melhor saúde, receberá e processará com maior facilidade e proveito os adubos químicos incorporados na hora do plantio. À medida que o solo se torna mais sadio e equilibrado, aumenta o teor de matéria orgânica. Um dos resultados positivos é a aceleração da decomposição do herbicida total usado no plantio.
Menor agressão física: o trânsito intenso e frequente de máquinas cada vez mais pesadas, o revolvimento do solo em profundidade elimina ou reduz drasticamente os canalículos, macro e micro poros do solo. Sua estrutura física é desagregada e, quanto mais pesado o solo, mais grave e irreversível pode se tornar o problema. A soma deles traz enormes dificuldades futuras na drenagem, compactação sub-solar, dificuldade de trânsito da água no e através do solo. Estes fenômenos são os maiores responsáveis pela degradação dos solos agricultáveis.
A soma de todos estes fatos positivos acima mencionada determina uma drástica redução da erosão e, mesmo, sua futura neutralização. Alguém poderá estranhar que se fale em erosão nas lavouras de arroz irrigado mas, nas lavouras de topografia mais movimentada, como em Uruguaiana, a erosão é visível e grave. Nas áreas aparentemente mais planas, recomendaria que se observasse a água de descarga: cor, densidade, etc., e as conclusões serão evidentes.
Menor custo: o custo inicial, ou seja, a adequação da área, é equivalente ao preparo de uma lavoura nos moldes tradicionais; logo, essa despesa será feita de qualquer maneira. Uma vez que a área possa ser manejada no sistema de plantio direto puro, o custo de implantação cai significativamente.
Outras vantagens
Além das vantagens citadas e do aumento de rendimento, o plantio direto no arroz irrigado traz outras vantagens: dispõe de mais tempo útil de trabalho na época do plantio; melhora o controle das invasoras, inclusive o arroz vermelho; redistribui, ao longo do ano, os trabalhos que se concentram na época próxima à semeadura; melhora as condições para implantação da rotação de culturas; melhora a relação custo-benefício, ao otimizar o uso de equipamentos, insumos e mão-de-obra; estabiliza e melhora as condições bioquímicas do solo; reduz significativamente o ressecamento do solo, ao mantê-lo coberto; facilita o escorrimento superficial da água da chuva, acelerando a drenagem, sem causar erosão; proporciona melhor aproveitamento do adubo, no plantio em linha.
Consequências do uso
No Rio Grande do Sul, a maioria das várzeas são usadas na rotação arroz / pastagens. Nas áreas em que se utiliza o plantio direto, é notável a velocidade com que se estabelece o pasto nativo nas restevas, bem como seu vigor. No caso de pastagens cultivadas de inverno, valem as mesmas observações. Como o solo é pouco movimentado, tem grande resistência à seca, pois sua capacidade de retenção hídrica é significativamente maior à dos solos que recebem tratamento convencional, por razões já conhecidas. Como o solo não fica descoberto quase nunca, ocorrem os seguintes fatos no período de pouso:
A cobertura vegetal normal é mais heterogênea, vigorosa e densa, pois tem mais tempo para se estabelecer, nas condições citadas. Devido a este fato, os ecossistemas são mais complexos e, por isso, mais estáveis. A implantação da cultura, no sistema, começa praticamente antes do plantio. Logo, aumenta consideravelmente o período de uso das pastagens no caso da rotação pastagem-arroz. A primavera no Rio Grande do Sul é normalmente chuvosa. Como o solo não é movimentado, a drenagem é rápida e eficiente. A pecuária é particularmente beneficiada pois, em solos mal drenados e com a cobertura vegetal em quantidade e qualidade ruins, não sendo de boa qualidade, os animais sofrem por transitar e dormir em condição bastante adversa.
Na realidade, no RGS, o problema maior é a drenagem, não a seca. Bastam chuvas um pouco mais intensas para que se criem transtornos significativos no manejo de nossas várzeas. E, se elas são lavradas no momento da chuva, a gravidade do problema se potencializa.
Na natureza, a ressementeira das espécies vegetais se dá naturalmente, a semente cai no solo, passa o período de dormência de inverno e germina na primavera. O sistema de plantio direto, interferindo ao mínimo no processo natural, visa otimizá-lo e direcioná-lo, visando uma produção na atividade agro-pecuária.
A idéia que engloba toda a filosofia dos sistema é a de trabalhar a favor da natureza, não contra ela. Para que isso ocorra, temos que aprender não só a enxergar mais longe, mas em profundidade. Não apenas considerar o aspecto macro, mas levar em consideração o micro, pois é de pequenos tijolos que se constroem as casas. Não é aplaudir somente o aspecto final e externo, mas lembrar que se o alicerce foi mal feito, a casa está rumo à destruição.
Entaipamento prévio
Assim como na cultura da soja, o desenvolvimento de produtos e máquinas têm trazido novas opções para os agricultores que usam o sistema plantio direto, direcionando-os para uma diminuição de custos, racionalização das operações e aumento da produtividade. O entaipamento antecipado é uma das técnicas que vêm sendo aperfeiçoadas em diversas lavouras da região do arroz irrigado no Rio Grande do Sul. Esse manejo prévio permite um maior uso das áreas disponíveis, economia de tempo e um melhor controle das invasoras, principalmente do arroz vermelho.
Entre as novidades que vieram ajudar no desenvolvimento do arroz, no item “taipa antecipada”, ganhou destaque a semeadeira SD 1980, fabricada pela Mengaz S/A. A SD possui um sistema de articulação que permite subir com uma roda sobre a taipa na hora da semeadura, com um sistema de compensação hidráulica adaptado às necessidades desse sistema de plantio. Além do ganho de tempo e o controle de ervas invasoras, a taipa fica conservada, diminui o atolamento das máquinas na lavoura, permite ter todos os drenos prontos, possibilitando um melhor aproveitamento das águas da chuva.
Além da semeadeira SD, a Menegaz está fabricando kits adaptáveis às máquinas já existentes com os produtores. Segundo declarações de usuários, o uso dos kits adaptáveis pode trazer uma redução de custos na lavoura acima de 10%.
Ângelo Luiz Arrosa Soares — Engenheiro Agrônomo, Instituto Gaúcho do Arroz (IGA)