O município gaúcho de Teutônia, no Vale do Taquari, tem como base da sua economia o cultivo do milho e a exploração do gado leiteiro, suínos e aves. Constituída, basicamente, por minifúndios, a região se tornou sede de importantes complexos agroindustriais, como os da Cooperativa Regional Agropecuária Languiru e as usinas da Cooperativa Central Gaúcha de Leite. Dedicação ao trabalho e criatividade sempre foram ingredientes decisivos na vida destes agricultores, de origem germânica. Foi graças a isso que eles viabilizaram, economicamente, a pequena propriedade e promoveram o desenvolvimento de uma área, em grande parte, com condições topográficas bastante adversas.
Se a evolução nas últimas décadas foi significativa, a conclusão, que eles próprios tiram hoje, é a de que houve descuido num aspecto muito importante: a conservação dos solos. Esta constatação levou um grupo de 54 agricultores a criar, em 1980, o Clube Amigos da Terra de Teutônia. “Após a chuva, observamos que muita terra boa vai embora com a água. Esta terra não volta mais; além disso, o nosso solo vai ficando cada vez mais pobre. Consequentemente, diminui a produção e os custos aumentam, pois precisamos comprar mais adubo, herbicida e sementes”, diz um informativo distribuído aos associados, em novembro de 1988, pela Cooperativa Languiru, que apoiou a idéia desde o início.
Problemas de erosão são comuns nos quase 8.500 hectares de milho, assistidos pela Languiru. Nestor Schneider, responsável pela assistência técnica aos agricultores, diz que, “se não adotarmos medidas urgentes e mudarmos a forma de plantar, não vamos mais ter agricultura nos nossos morros dentro de poucos anos”, mostrando as vossorocas formadas nas terras da encosta. O agrônomo vai mais longe e explica que a perda de fertilidade tem sido acentuada nas áreas com mais declividade, razão pela qual ele concorda que é preciso unir os produtores e debater o problema, vendo no Clube um bom caminho para isso.
Plantio Direto
Elpídio Driemaier, presidente do Clube Amigos da Terra de Teutônia, diz que ao natural os agricultores começaram a usar a palha para evitar a erosão. “De certa forma, nós já fazíamos o plantio na palha, mas muito empiricamente”, explica. Uma espécie de cultivo mínimo, com uma simples passada de arado e a manutenção da palha na superfície, já ajuda a reter o solo nas encostas. No sistema de plantio direto, no entanto, a cobertura do solo é planejada e se o volume de restos de cultura for pequeno, culturas de inverno são implantadas para aumentar a massa de cobertura e assim proteger melhor a terra. Aveia, ervilhaca, serradela e a mucuna são as principais espécies utilizadas.
O agrônomo Schneider acredita que os resultados da adoção do plantio direto já estão aparecendo. “No último concurso de produtividade de milho, as 45 lavouras inscritas alcançaram uma média de 110 sacos por hectare, enquanto nas nove que adotaram o plantio direto esta produção se elevou para 118 sacos, com um custo de cultivo bem inferior”, argumenta. “Só temos agora esta preocupação com a palha, depois que vimos os benefícios”, explica Herbi Hoerle, outro adepto do plantio direto que acredita ter encontrado a opção ideal para a condução das suas lavouras, no município vizinho de Paverama.
Com o exemplo de Teutônia, a crença de que a técnica do plantio direto só funciona em grandes propriedades, e que é tão moderna que os agricultores ainda não estão preparados para utilizá-la, caiu completamente por terra. Os bons resultados alcançados por técnicos e produtores demonstram que dá perfeitamente para utilizá-la em pequenas propriedades, como a de Hélio Tischer, que possui 12 hectares, onde cultiva seis de milho e mais um de trigo. “Nós plantamos com matraca ou saraquá, mas já estamos adaptando equipamentos para plantar na palha, usando o boi e fazendo render mais o trabalho”. Ele mesmo adaptou um arado pica-pau com um disco de corte para mecanizar o plantio de milho.
A adaptação de máquinas, conforme os agricultores de Teutônia, melhora muito o rendimento no trabalho. Sigmundo Tischer, com 69 anos, é um dos responsáveis pelas adaptações que, segundo ele, vão sendo feitas na medida em que testa a máquina no campo. Ele também é um entusiasta do plantio direto na pequena propriedade e acredita num futuro melhor para os filhos e netos na lavoura. “A gente andava até 130 quilômetros dentro da lavoura para cultivar um hectare de milho. Agora, com o plantio direto, só é necessário caminhar 90 quilômetros”. Praticamente a única forma de tração usada na região é a animal, e já estão em uso, por vários produtores, além da plantadeira puxada a boi, inventada por Hélio Tischer, um rolo-faca, trazido de Santa Catarina e uma plantadeira tracionada a cavalo, adaptados pela Cooperativa Languiru.
Nestor Schneider (Cooperativa Languiru), Elpídio Driemaier (CAT-Teutônia), Herbi Hoerle (Paverama), Hélio Tischer e Sigmundo Tischer (Teutônia)