A Embrapa e o ambiente


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Publicado em: 30/04/1991

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), vinculada ao Ministério da Agricultura e com 44 unidades de pesquisa espalhadas por todo o País, tem uma preocupação muito grande com a preservação do ambiente. Através de fungos, bactérias, insetos e práticas culturais são, gradativamente, substituídos os defensivos químicos. Igualmente, o manejo adequado das culturas e do solo recuperam a fertilidade de nossos solos e conservam estes com sua plena capacidade produtiva. As técnicas de laboratório facilitam a germinação de sementes de espécies em vias de extinção e repovoam as áreas florestais.

Esta preocupação ecológica fez com que a Embrapa elaborasse um mapa macro-ecológico do Brasil, fornecendo uma visão global da vocação agroecológica do País, conjugando dados sobre vegetação, clima, solo, relevo, textura, drenagem e fertilidade natural. Para o caso específico da Amazônia, hoje centro das atenções de todo o mundo, os pesquisadores desenvolveram sistemas agrosilvopastoris, combinando implantação de pastagens e lavouras com manejo de florestas, que vem ajudando a diminuir a pressão do desmatamento e tornando os projetos agropecuários da região mais lucrativos.

Em Passo Fundo foi implantada a primeira unidade da EMBRAPA, o Centro Nacional de Pesquisa de Trigo (CNPT), que gera tecnologias a nível nacional para as culturas do trigo, do triticale e da cevada e a nível estadual para a cultura da soja, além de pesquisas com outros cultivos, visando um sistema de plantio com rotação de culturas, procurando, sempre, um melhor aproveitamento econômico da lavoura, a conservação do solo e a manutenção da sua fertilidade.

Como não poderia deixar de ser, o CNPT também tem uma grande preocupação com os aspectos ecológicos da exploração agrícola, por este motivo desenvolve uma série de projetos que visam uma agricultura mais sadia, para o agricultor, para o consumidor e para o ambiente.

Os exemplos a serem citados são muitos, entre eles destacamos o controle biológico dos pulgões do trigo. Esta era a principal praga da cultura do trigo até a década de 70, quando eram realizadas até quatro aplicações de inseticida em 100% da área cultivada com o cereal. Em 1978 o CNPT importou 14 espécies de himenópteros parasitos e duas espécies de coccinelídeos predadores de pulgões. Nesses 17 anos foram criados, aproximadamente, 18,6 milhões de parasitos, que foram liberados principalmente no RS e PR. Graças a este intensivo programa do CNPT, desde 1981 os triticultores gaúchos fazem apenas uma aplicação em 5% da área. Considerando uma diminuição de 95% no uso de inseticida, na última safra o Estado economizou 16,9 milhões de dólares na compra deste produto, a preços de março de 1991.

Outro aspecto alarmante em termos de conservação do ambiente diz respeito à erosão hídrica, responsável pela perda de aproximadamente 16,8 toneladas de solos por hectare/ano no sistema convencional de preparo do solo para o plantio soja-trigo com queima de palha. No entanto, a utilização do sistema de plantio direto pode reduzir as perdas para apenas 1,1 toneladas de solo por ha/ano. Assim, a introdução dessa prática de cultivo pode, sem onerar os custos de produção, manter e até mesmo aumentar a produtividade, preservando o maior patrimônio do agricultor, o solo.

A preocupação do CNPT com o ambiente está presente em seu programa de criação de novas cultivares, onde, além da alta produtividade, busca-se plantas com resistência às doenças, às pragas e bem adaptadas ao nosso solo e clima. Até 1991 o centro lançou 53 cultivares de trigo, sete de soja, duas de cevada, três de triticale e uma de centeio, sendo algumas destas em trabalho conjunto com outras instituições de pesquisa.

As pesquisas realizadas com rotação de culturas visam a redução dos prejuízos causados pelas doenças radiculares e da parte aérea da planta, o melhor uso e a economia de fertilizantes, a cobertura do solo e a diversificação agropecuária com culturas como o linho, a colza, o tremoço, a ervilhaca, a serradela e o nabo forrageiro. Os resultados evidenciam a viabilidade do tratamento químico das sementes e o uso integrado de práticas culturais para substituir o tratamento químico da parte aérea.

Na área de citogenética são realizados estudos de mapeamento cromossômico de caracteres úteis para a agricultura, principalmente resistência às doenças. Através da engenharia cromossômica já foram obtidas 14 linhagens, recomendadas como novas cultivares.

Para dispensar ou reduzir a adubação de cobertura nitrogenada do trigo, foram isoladas bactérias do solo capazes de fixar o nitrogênio do ar, tornando-o assimilável para a planta. Além do fornecimento de nitrogênio estas bactérias promovem o aumento do sistema radicular.

Também estão sendo desenvolvidas pesquisas sobre o controle biológico das doenças do trigo, realizado através de microorganismos antagônicos aos agentes que as causam, e estratégias de biocontrole das doenças das raízes.

O esforço que a EMBRAPA dedica ao aumento de produtividade das culturas que atende, é somado às pesquisas que perseguem um equilíbrio permanente entre a lavoura e a natureza, congregando as plantas, os insetos e outros animais e o homem.

Liane Matzenbacher — Assessora de Comunicação do Centro Nacional de Pesquisa de Trigo (EMBRAPA), Passo Fundo, RS