Efeito do manejo do solo e rotação sobre invasoras e produtividade


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Publicado em: 28/02/1991

O sul do Brasil, mais especificamente os estados do Paraná e Rio Grande do Sul, caracterizam-se pelo cultivo da sucessão trigo-soja. A movimentação do solo em diversas vezes do ano para a semeadura destas culturas, aliada à intensidade das chuvas e da declividade acentuada da maioria das áreas utilizadas, são fatores determinantes do grave índice de erosão dos solos encontrados nesta região. A Sociedade de Agronomia do Rio Grande do Sul em 1985 estimou que neste estado as perdas de solo variam de 24 a 96 ton/ha/ano. No Paraná, estimam-se perdas de solo de 70 ton/ha/ano.

Técnicas que movimentam o mínimo possível o solo têm sido introduzidas com resultados satisfatórios no controle da erosão. Entre estas se destaca o plantio direto, que tem praticamente anulado o efeito da erosão e reduzido drasticamente as perdas das águas das chuvas.

Alguns estudos no estado do Paraná têm indicado que o sucesso do sistema de plantio direto depende diretamente do grau de cobertura do solo, e isto somente é obtido com a combinação de culturas produtoras de palha e rotação de culturas, devendo-se formar uma massa seca de pelo menos 4,0 a 6,0 ton/ha.

O presente estudo tem por objetivo básico avaliar os efeitos da rotação de culturas e do manejo do solo sobre a população das invasoras e a produtividade das culturas para as condições do Planalto Médio do Rio Grande do Sul.

Material e Métodos

O experimento está sendo conduzido a campo desde 1985, na FUNDACEP-FECOTRIGO, Cruz Alta, RS (28º38’S e 53º36’W e altitude de 473 m). O solo do local é um Latossolo Vermelho Escuro Distrófico (Oxisol), pobre em saturação de bases e médio em capacidade de troca de cátions, com 55% de argila (caulinita) e alta concentração de óxidos de ferro. Trata-se de um solo profundo com uma alta capacidade de drenagem. O relevo geral é ondulado.

Basicamente, o experimento compara o plantio direto (PD) com o plantio convencional (PC) que, neste caso, consiste de uma escarificação e uma gradagem antes das culturas de inverno, e uma lavração e duas gradagens antes das culturas de verão. Dentro destes manejos do solo, são estudados as rotações com as culturas de trigo (Triticum aestivum L.), aveia preta (Avena strigosa Schreb.) e ervilhaca (Vicia villosa Roth.) no inverno, e soja (Glycine max L.) e milho (Zea mays L.) no verão, com a seguinte composição:

R0 = Trigo/Soja — Trigo/Soja — Trigo/Soja
R1 = Aveia/Soja — Ervilhaca + Aveia/Milho — Trigo/Soja
R2 = Trigo/Soja — Aveia/Soja — Trigo/Soja

Na rotação R1 tem-se 3 composições, de tal forma que em todos os anos existem as parcelas Aveia/Soja, Ervilhaca + Aveia/Milho e Trigo/Soja.

As avaliações do número de invasoras são realizadas antes da aplicação dos produtos dessecantes não seletivos (operação de manejo) e aos 20 dias após a semeadura das culturas. Neste caso, são relatados os resultados dos 5 anos do início do experimento.

No plantio direto, as parcelas com aveia preta e ervilhaca + aveia preta foram roladas sobre a superfície do solo, utilizando-se um rolo-faca nos 3 primeiros anos de estudos e uma grade niveladora destravada nos anos seguintes. Esta operação foi realizada quando a aveia preta estava no início do estágio de grão leitoso e a ervilhaca em florescimento. Nesta mesma época, no plantio convencional, estas culturas foram incorporadas ao solo. A soja e o milho são colhidos mecanicamente, processo em que os restos culturais são picados e espalhados uniformemente sobre a superfície do solo. No plantio convencional estes restos culturais foram imediatamente incorporados, e no plantio direto permaneceram sobre o solo.

A adubação para o milho e trigo foi de 15-60-60 kg/ha de NPK na base e 50 e 20 kg/ha de N em cobertura, respectivamente. Para a soja foi de 0-60-60 kg/ha de NPK na base. A aveia preta e a ervilhaca receberam uma adubação básica de 5-20-20 kg/ha de NPK nos 3 primeiros anos de experimento e não foram mais adubadas nos anos subsequentes.

Os resultados relatados referem-se ao período de 1985 a 1990.

Resultados e Discussão

Quanto ao manejo do solo, os resultados mostraram, após 5 anos de avaliação, que as culturas de trigo e principalmente soja e milho, tiveram uma performance superior no PD do que no PC. A melhor resposta foi obtida com o milho, cuja produtividade média de 4857 kg/ha no PD, foi 18% maior do que no PC. Resultado semelhante em termos percentuais foi obtido com a soja no PD (2878 kg/ha), que superou em 15% a produtividade do PC. Já o trigo resultou num ganho menor, ficando em 7% a mais no PD (2282 kg/ha) do que no PC.

Verificou-se, ao longo dos anos, que naqueles com deficiência hídrica as diferenças foram mais evidentes. Quanto a isto, DERPSCH et al. (1986) e MUZILLI (1985) dizem que em períodos de estiagem a cobertura morta mantida sobre a superfície do terreno no PD permite uma economia de 36 a 45% e 10 a 20% de água no solo, respectivamente. ROTH et al. (1988) afirmam que apesar da maior densidade do solo e menor macroporosidade no PD, o que aparentemente diminui a absorção e manutenção da água no solo, o PD infiltra e conserva melhor a água pelo efeito de cobertura dos restos vegetais. Desta forma, deduz-se que as menores perdas de água e consequente maior disponibilidade no PD, provavelmente tenham sido as causas principais das melhores produções.

Este fato é reforçado pela menor resposta que o trigo demonstrou, já que em apenas 2 anos dos 5 avaliados houve um curto período de deficit hídrico para esta cultura, enquanto que em todos os anos ocorreram diversos períodos com deficiência hídrica de duração variável, durante o ciclo das culturas de milho e soja.

Constatou-se, também, que independente do sistema de manejo do solo, a rotação de culturas influenciou o rendimento das culturas de soja e trigo. Comparando-se as duas culturas, conclui-se que para o trigo a rotação foi mais importante do que para a soja, já que houve uma resposta positiva de 35 a 36% e de 6 a 8% nas produtividades do trigo e da soja com rotação, respectivamente.

Em termos de trigo, as diferenças são provavelmente devidas ao maior nível de doenças da parte aérea e radicular encontrado no trigo sem rotação. Necessidade de rotação para o controle de doenças em trigo são indicados por SANTOS et al., 1987; SANTOS et al. 1987 e REIS et al., 1988. Na cultura da soja, embora o percentual menor em termos de ganho, o acréscimo obtido com a rotação foi de 240 kg/ha no PD, o que se aproxima dos resultados de Muzilli, citado por DERPSCH (1986), que foi de 330 kg/ha no estado do Paraná.

Deve-se levar em conta, também, que a campo alguns produtores tiveram praticamente inviabilizada a cultura da soja no PD sem rotação com milho, pelos danos causados pelo inseto tamanduá-da-soja (Sternechus subsignatus Boheman, 1836). No presente experimento, este inseto ainda não foi detectado em níveis significativos, devendo-se atribuir as diferenças encontradas a outros fatores positivos da rotação de culturas.

Quanto ao comportamento das invasoras após 5 anos da implantação do experimento, ficou evidente que o PD reduziu, de modo geral, o número de plantas daninhas na cultura do trigo e principalmente na da soja, em relação ao PC, à exceção das latifoliadas na cultura do trigo. Estes resultados contrariam os de Muzilli et al. (1983), porém confirmam os de ALMEIDA (1985). Este autor afirma que para ocorrer esta redução é fundamental a eficiência dos herbicidas nas culturas anteriores e a rotação de culturas. Quanto a isto, constatou-se que a rotação de culturas para a soja aumentou o número de invasoras gramíneas. Este fato se deve, provavelmente, às falhas de controle do papuã (Brachiaria plantaginea) na cultura do milho que antecedeu a da soja, garantindo e aumentando a quantidade de semente desta espécie na área. Já as invasoras de folhas largas foram reduzidas em seu número pelo efeito da rotação de culturas.

No relato dos resultados que especifica a rotação de culturas e a última cultura que precede a soja e seu manejo, constatou-se que é muito mais importante a última cultura e seu manejo do que propriamente a rotação de culturas. Pelos resultados, comparando-se as duas áreas em rotação, ocorreram 311 plantas/m² de invasoras na soja na área cuja cultura de verão anterior foi o milho, contra 38 plantas/m² de invasoras na área cuja cultura anterior foi soja. Já neste último caso, se a aveia preta precedeu a soja no inverno foi rolada em vez de colhida, o número de invasoras passou de 38 para apenas 5 plantas/m². Este efeito supressor que algumas culturas exercem sobre as outras são relatados por ALMEIDA (1985), com ênfase especificamente no efeito da aveia preta sobre a germinação e desenvolvimento das invasoras, confirmando o presente resultado.

Neste sentido, avaliando a característica supressora da aveia preta, verificou-se que este efeito pode ser aumentado rolando-se a mesma sobre a superfície do solo, com auxílio de um rolo-faca, na fase do início da formação do grão leitoso. Com esta sistemática, a aveia preta diminuiu em 20 vezes a população de plantas daninhas, passando de 122,4 plantas/m² sem rolagem para 5,7 plantas/m² quando a aveia foi rolada. A dessecação da aveia preta, normalmente utilizada para impedir a formação de grãos viáveis desta espécie, que poderiam infestar a cultura de trigo no ano subsequente, favoreceu a germinação das invasoras, pois na área dessecada havia em média 86 plantas/m², contra 42 plantas/m² na área sem dessecação. Este resultado provavelmente está relacionado com a diminuição da massa verde da aveia preta pelo efeito da dessecação, o que favoreceu a maior entrada de luz e o aumento da temperatura a nível do solo, tendo, por consequência, uma maior germinação de plantas daninhas.

No inverno, mais especificamente na cultura do trigo, verificou-se que a rotação de culturas foi mais importante na redução do número de invasoras do que o próprio efeito do manejo do solo. Inclusive, no caso específico das folhas largas, houve um pequeno acréscimo no PD do que no PC.

Conclusões

1. No PD, a produtividade média do milho (4857 kg/ha), da soja (2878 kg/ha) e do trigo (2282 kg/ha) foi 18%, 15% e 7% superior, ao do PC, respectivamente, no período de 1985 a 1990.
2. A produtividade média da soja após o milho foi 8% e 6% superior, que a produtividade da soja sem rotação, no PD e PC, respectivamente, no período de 1985 a 1990.
3. A produtividade média do trigo em rotação foi 36% e 35% superior que a produtividade do trigo sem rotação, no PD e PC, respectivamente, no período de 1985 a 1990.
4. O PD reduziu o número de invasoras gramíneas e latifoliadas em relação ao PC, após 5 anos de implantação dos sistemas.
5. A rotação de culturas diminuiu o número de invasoras gramíneas e latifoliadas na cultura do trigo e das latifoliadas na cultura da soja.
6. O número de invasoras gramíneas na cultura da soja em rotação com o milho foi superior aos da soja sem rotação, devido a falhas de controle na cultura do milho.
7. A aveia preta rolada diminuiu em 20 vezes o número de invasoras em relação à aveia preta sem rolagem.
8. A dessecação da aveia preta propiciou o aumento do número de invasoras 20 dias após, em relação à aveia preta não dessecada.

José Ruedell — FUNDACEP-FECOTRIGO, Cruz Alta, RS