A importância da matéria orgânica


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Publicado em: 28/02/1991

Quando resíduos de plantas e animais se introduzem no solo, são imediatamente decompostos por numerosos micróbios, incluindo bactérias, algas, fungos, actinomices, protozoários e vermes. Em resultado dessa decomposição, alguns constituintes desse material são volatizados, outros usados por micróbios para produzir suas células e, finalmente, outros são gradualmente transformados em uma massa amorfa, escura — o “humus”. A curva da formação do humus e a quantidade produzida dependem diretamente da natureza física e química dos resíduos, da qualidade dos micróbios, temperatura, arejamento, pH e condições do solo. Os resíduos orgânicos são de vária natureza, podendo ser causados por resíduos de plantas verdes, esterco de curral, leguminosas, lixo, resíduos de plantas e animais, vermes e insetos igualmente mortos.

A formação e a natureza do humus são influenciadas pela rotação de culturas, tratamento fertilizante com a utilização de adubos vegetais, abundância de animais junto à lavoura, clima, etc.

As funções do humus no solo são três: a física, que modifica a cor, a textura e a estrutura do solo, aumentando o arejamento e a irrigação; a química influencia a solubilidade de certos minerais, formando compostos mais assimiláveis pelas plantas, favorecendo o crescimento e neutralizando o pH do solo; a biológica serve como fonte de energia para o desenvolvimento dos micróbios, tornando o solo mais favorável para o crescimento das plantas superiores, suprindo-as de nutrientes essenciais. Esses micróbios transformam os nitritos em nitratos, liberam o dióxido de carbono dos resíduos vegetais e animais, atuam sobre os minerais, etc. Quimicamente o humus contém grande quantidade de carbono (55-60%) e de nitrogênio (5-6%). Serve como fonte de energia para vários grupos de micróbios, resultando em uma decomposição contínua de dióxido de carbono e amônia; não tem condição estática, porém dinâmica e é continuamente decomposto pelos micróbios.

Por sua vez, o húmus possui certas qualidades que o distingue, dependendo dos resíduos animais ou vegetais dos quais é formado. Sua abundância praticamente equivale a alta fertilidade do solo, que pode armazenar importantes elementos necessários para a vida da planta, especialmente carbono, hidrogênio, nitrogênio e oxigênio, fósforo, cálcio, magnésio, ferro, manganês, etc.

As propriedades podem ser caracterizadas pela coloração, desde o marrom-escuro até o preto; é insolúvel na água com a qual forma um líquido coloidal.

Entre os fatores que contribuem para a fertilidade do solo, podemos considerar vários; a lenta e gradual decomposição da matéria orgânica pelos micróbios resulta na liberação lenta e contínua de dióxido de carbono e substancial quantidade de nitrogênio e amônia. Esta se transforma em nitrito e aquele em nitrato. Paralelamente, ocorrem transformações químicas de elementos inorgânicos essenciais, através da ação dos micróbios do solo.

Outro fator de suma importância e que contribui particularmente para a fertilidade do solo é sua formação física, com estrutura que permita arejamento por meio de partículas aglutinadas, de modo a formar espaços entre elas, resultando em maior concentração de água, etc. O fator biológico é também imprescindível, haja vista sua contribuição para aumentar a fertilidade do solo, tornando-o mais adequado ao desenvolvimento das raízes e húmus: o das baixadas, dos morros, das florestas e dos pastos.

Em solo virgem a perda de nitrogênio é de 45 quilos por hectare em 22 anos, e apenas um terço dessa perda é compensada pela lavoura; cerca de 25% do total do humus é perdido nesse período. Em solos secos, além da água o problema de maior importância é a manutenção da matéria orgânica, cuja perda é de 6-7% nos primeiros três a sete anos; 12,4% entre 8 e 15 anos; 26,7% de 16 a 30 anos. Erosão, vento e falta de água são os responsáveis pela perda.

Por outro lado a deterioração, decorrência de contínuas plantações, é prevenida unicamente com a adição de adubos e rotação de culturas. Fertilizantes artificiais não param completamente a deterioração. A adição de leguminosas ou de estercos de curral reduz consideravelmente a perda de matéria orgânica.

Composição química

Os resíduos de plantas variam sua composição química. As hastes, folhas e raízes dos cereais contém 0,5% de nitrogênio, 0,1% de fósforo, 0,15% de potássio, enquanto que nas leguminosas essa concentração é, respectivamente, 2-3%, 0,5% e 2-2,5%. Na decomposição dos resíduos de plantas e animais pelos micróbios do solo, os seus componentes orgânicos não são atacados por completo. Alguns são decompostos rapidamente, ao passo que outros são mais resistentes. Os carboidratos e amidos são logo destruídos, seguidos de hemiceluloses, proteínas e celuloses. Após a decomposição há consumo de oxigênio, aumento de calor e liberação de considerável quantidade de dióxido de carbono, havendo formação de nitrogênio em abundância se o material for rico em amônia.

Condições favoráveis de temperatura, pH, componentes nutritivos e arejamento facilitam a constante decomposição do humus, havendo contínuo fluxo de dióxido de carbono no ar e acúmulo de nitrogênio no solo. Esse nitrogênio é primeiramente liberado sob a forma de amônia que se transforma em nitritos e esses em nitratos por ação das bactérias. A taxa de liberação de elementos químicos varia de acordo com a quantidade de humus produzido pelos resíduos e depende da natureza das plantas, método de cultivo e qualidade dos fertilizantes.

Os resíduos das plantas e animais numa lavoura de cultura pobre e em outra que recebeu humus apresentam diferenças consideráveis na composição química dos nutrientes e rapidez de decomposição.

Importância

O homem depende do húmus do solo para suprir as plantas dos nutrientes necessários que são liberados pela ação de numerosos micróbios, havendo centenas de milhões deles por grama de terra. Estes nutrientes constroem os tecidos das plantas, que são consumidas por animais, inclusive pelo homem, ou podem retornar ao solo, onde são decompostos pelos micróbios. O animal e seus excrementos vão para o solo, como fonte de humus para serem decompostos e com a liberação dos elementos nutrientes que vão atuar no desenvolvimento adequado das plantas. O humus pode ser considerado o celeiro dos nutrientes das plantas, visto que beneficia o seu crescimento, resultando disso o aumento da concentração de dióxido de carbono. Além disso a matéria orgânica fornece à planta as substâncias químicas de que necessita: nitrogênio, fósforo, potássio, ferro, etc.

As condições físicas do solo dependem da adição de humus para melhorar a estrutura, textura, plantação, arejamento, irrigação, temperatura, pH, retenção de nutrientes e neutralização dos efeitos tóxicos de certos componentes no solo. O humus tende a tornar o solo granular formando partículas agregadas. O seu efeito é particularmente evidente em solos arenosos, lamacentos e argilosos.

O solo, recebendo uma quantidade apropriada de matéria orgânica, mantém os espaços entre as granulações suficientemente largos, permitindo drenagem do excesso de água, impedindo que o solo se torne seco. Isso facilita as plantas a resistência à aridez do solo, não só devido ao aumento da mistura, mas especialmente porque permite uma profunda penetração das raízes, favorecidas pela melhoria da estrutura do solo. A circulação do ar no solo é essencial para o crescimento correto das raízes, que tem a seu favor o aumento da porosidade por onde a água penetra e persiste o maior tempo possível.

O solo adubado organicamente está menos sujeito às variações de tempo que aquele que recebe fertilizante artificial. A presença de humus em quantidade suficiente impede que os nutrientes das plantas sejam carregados pela água. Plantas deficientes apresentam melhor desenvolvimento quando supridas com matéria orgânica, aumentando o seu vigor e estimulando o efeito dos micróbios que se tornam mais ativos.

De “O Estado de S. Paulo”.

Vicente Octávio Guida — De "O Estado de S. Paulo"