A Embrapa de Dourados, no Mato Grosso do Sul, e a ICI do Brasil assinaram convênio que visa conjugar esforços para o desenvolvimento de pesquisas destinadas à criação de melhores opções tecnológicas para o plantio direto na região do cerrado brasileiro. A meta é estudar o sistema nas suas várias alternativas de rotação de culturas, espécies alternativas e na metodologia de conservação de solos para as condições edáficas e climáticas do cerrado, tendo por recomendação a procura da produtividade, economia, bem como da difusão dos resultados alcançados.
Ensaios
Sob a direção do pesquisador Luiz Carlos Hernâni, engenheiro agrônomo especialista em solos, em ação na Embrapa-Dourados desde 1987, o trabalho de pesquisa em PD está dividido em dois ensaios específicos. No primeiro está sendo avaliado o efeito de culturas de inverno sobre o rendimento de soja e milho cultivados em plantio direto: “Temos diferentes culturas (aveia preta, nabo forrageiro, centeio, chícharo, colza) com diversos tipos de manejo. Como aplicação de rolo-faca e roçadeira mecânica, por exemplo”, explica Hernâni. “Atente-se para o fato de que tais culturas de inverno são alternativas e foram selecionadas a partir de um trabalho desenvolvido nos últimos três anos, visando definir aspectos como adubação verde e cobertura do solo. Exigências indispensáveis em virtude do pouco conhecimento dos agricultores em relação a tais culturas e ao manejo”, complementa Hernâni.
O segundo ensaio da Embrapa prevê, na prática, uma avaliação entre o sistema de rotação de culturas em plantio direto e o sistema de preparo convencional do solo — que usa grade pesada seguida de grade niveladora (aplicada uma ou mais vezes). “Nós queremos analisar o efeito de diferentes sistemas na rotação de cultura e no rendimento da soja, trigo e milho, ao mesmo tempo que estaremos medindo as características isoladas do plantio direto em face do sistema convencional”, explica o engenheiro agrônomo da Embrapa.
Hernâni também dá sua opinião sobre a importância do Convênio diante das condições hoje existentes na agricultura do Mato Grosso do Sul: “Por um lado temos a parte tecnológica. No Brasil, o plantio direto já tem alguns anos de vida (a ICI lançou comercialmente esta técnica no Brasil em 1974), mas conseguiu desenvolver-se com maior ênfase no Paraná. No Mato Grosso do Sul o trabalho sempre foi relativamente empírico, tentando copiar o que se fazia no Paraná, quando precisamos de um pacote tecnológico de características próprias, locais, com informações e regras que possam ser aplicadas às nossas condições, com conhecimento de causa”.
Outro ponto por ele salientado situa-se no âmbito dos problemas que precisam ser enfrentados com a questão da cobertura morta: “Sabemos que esta é quase inexistente, principalmente na sucessão trigo-soja. O Convênio nos ensinará a lidar melhor com este recurso, que representa, por exemplo, um menor custo no controle com herbicidas”, acrescenta Hernâni.
Áreas Pólos
Distribuídas estrategicamente, as chamadas Áreas Pólos, onde haverá assessoria da Embrapa, dentro das possibilidades do seu pessoal técnico, localizam-se em São Gabriel do Oeste, Chapadão do Sul, Maracaju e Ponta Porã, na Fazenda Itamaraty. Configuram modelos de plantio direto visando rotação de culturas, como Chapadão do Sul e São Gabriel do Oeste, onde se vem trabalhando com soja-milho e culturas de inverno: aveia preta, milheto africano, feijão guandu, ervilhaca, chícharo (leguminosa), girassol e sorgo.
Ali, no cerrado, os agricultores costumam dizer que, a partir de abril, chuva é coisa rara, consequentemente, uma das orientações do programa é, por exemplo, colher a soja em fevereiro e instalar a cultura de inverno no mês de março, de modo a aproveitar as últimas benesses de São Pedro, com as águas de março. Em Ponta Porã, na Fazenda Itamaraty, o projeto tem como objetivo aferir a resposta de produtividade do milho e da soja em diferentes rotações com culturas de inverno. Lá existem 12 tipos de culturas plantados em faixas de 50m x 100m, uma disposição que facilita a medição de cada área. “São áreas em que o corpo técnico da ICI tem trabalhado procurando suprir carências verificadas no Estado em termos de plantio direto e até mesmo, de informações tradicionais”, diz Paulo César Tibúrcio, Assessor Técnico da ICI no Mato Grosso do Sul.
Incentivos / Vantagens
As áreas pólos têm irradiado influências bastante positivas em direção a setores que sofrem com certas deficiências. Exemplo disso é a dificuldade que os agricultores sentem no tocante à mecanização, pois nem mesmo existem máquinas à venda. A saída tem sido incentivar fornecedores a produzir equipamentos dentro dos limites dos 350 mil quilômetros quadrados do Estado. Os resultados estão aparecendo aos poucos. Em Campo Grande e Naviraí já existem empresas fabricando equipamentos como pingentes de arrasto. Na própria Fazenda Itamaraty, que recebeu da ICI equipamentos semelhantes, houve o desenvolvimento de outros projetos copiados dos originais.
Para os ensaios da Embrapa, a necessidade de máquinas para plantio direto contou com a benevolência e o esforço da Empresa Jumil, fabricante que doou uma plantadeira a ser engajada no projeto.
Extraído da publicação “ICI Agroquímicos — Notícias” — Dezembro/90.
Luiz Carlos Hernâni (Embrapa-Dourados) — extraído de "ICI Agroquímicos – Notícias", Dezembro/90