Poucas experiências têm sido relatadas no Brasil e no exterior sobre as possibilidades na prática do plantio direto pelo pequeno produtor. Por se localizar muitas vezes em áreas com baixa aptidão agrícola e basear sua produção no uso intensivo da mão-de-obra familiar e na tração animal, o pequeno produtor tem no plantio direto uma alternativa bastante interessante devido a seus efeitos benéficos na conservação do solo e água e na redução do trabalho principalmente nas operações mais desgastantes como no preparo do solo.
Quando se fala em plantio direto com tração animal vem logo a questão: como realizar o corte da palha e a abertura do sulco no solo com uma máquina leve já que deve ser tracionada com animais? Vários implementos foram desenvolvidos no Sul do Brasil como cita Schmitz (1988) pelo IAC (Instituto Agronômico de Campinas), pela ACARESC (EMATER-SC) e por uma indústria de Curitiba que adaptou a máquina agrícola projetada pelo IITA (Instituto Internacional de Agricultura Tropical), entretanto quase nada foi relatado sobre a viabilidade do uso destes equipamentos e da prática do plantio direto ao nível de pequenas propriedades. O IAPAR vem desenvolvendo desde 1985 um projeto de pesquisa sobre o plantio direto para pequenos produtores no Paraná conforme descrição a seguir.
A máquina de plantio direto a tração animal
Batizada de “GRALHA AZUL”, a máquina possui um disco liso de corte à frente de 400 mm de diâmetro que serve como acionador da transmissão, um escarificador logo atrás do disco que deposita o adubo, um disco duplo de 220 mm para deposição da semente e uma roda compactadora. O ponto de engate foi colocado atrás do eixo da roda acionadora a uma altura suficiente para na condição dinâmica ocorrer a transferência do peso da semeadora para o disco de corte. Aliado a isso o escarificador possibilita também uma componente vertical para baixo que ajuda a penetração do disco permitindo o corte da palha e de uma camada de 5 cm da superfície do solo (Casão & Yamaoka, 1989).
Os testes a nível da estação experimental apresentaram uma exigência de 83 kgf de esforço na tração (escarificador a 12 cm de profundidade), compatível, portanto, com a capacidade de tração de um bovino ou de meia jornada de trabalho de um equino ou muar. Os demais parâmetros avaliados tais como distribuição longitudinal de plantas, profundidade da colocação do adubo e sementes, velocidade de emergência, paralelismo entre linhas e embuchamentos mostraram um desempenho superior ao aceitável pelas normas da ABNT. A máquina vem sendo otimizada quanto ao seu comprimento para facilitar a dirigibilidade além da adaptação de um mecanismo de levante do escarificador para facilitar as manobras.
Ensaios a nível da Estação Experimental
Os ensaios a nível da estação experimental tem como objetivo realizar comparativos rigorosos entre os tratamentos sob condições controladas pelo pesquisador. Nesse sentido foi conduzido na estação de Ponta Grossa em cambissolo álico com 22% de declividade um experimento exploratório que avaliou diversos sistemas de preparo do solo com tração animal incluindo o uso de adubação verde de inverno e verão. Os tratamentos incluíam o preparo tradicional no Centro-Sul do Paraná com arado de aiveca, cultivo mínimo com escarificador, plantio direto manual com matraca e plantio direto com tração animal sobre as coberturas de mucuna, tremoço consorciado com aveia, pousio invernal com e sem queima. As culturas de verão foram o feijão e o milho.
O experimento mostrou a viabilidade do plantio direto para o feijão, com produtividades iguais ou pouco superiores aos demais sistemas e o inverso para o milho. Entretanto o experimento mostrou após cinco safras a necessidade de se introduzir modificações quanto à fertilidade do solo e às espécies para adubação verde visando obter melhores condições para o desenvolvimento das culturas e caracterizar as diferenças entre os tratamentos.
Assim a partir do inverno de 1990 vem sendo conduzido outro trabalho para avaliação do preparo tradicional e do plantio direto manual e com tração animal sobre as coberturas de aveia consorciada com ervilhaca, azevém consorciado com serradela, mucuna, pousio invernal com e sem queima. Outra questão neste trabalho é verificar a viabilidade do pastejo de animais nas coberturas de aveia + ervilhaca e azevém + serradela durante o inverno quando há escassez de alimentos, e posteriormente realizar plantio direto sobre a massa remanescente.
Os resultados antes da colheita da primeira safra mostram que: após dois cortes as coberturas avaliadas apresentaram produção de massa suficiente para execução do plantio direto; as coberturas vegetais foram dessecadas com pulverizador manual e manejadas com rolo-faca a tração animal apresentando condições propícias para plantio direto; a máquina apresentou bom desempenho no corte da palha e na distribuição de adubo e sementes, proporcionando um desenvolvimento bastante homogêneo das plantas; na aração foram necessárias duas capinas no ciclo do feijão, enquanto que o plantio direto apenas uma devido ao efeito alelopático das coberturas e à ação do dessecante; de forma geral os tratamentos com plantio direto apresentaram um melhor porte de plantas e cobriram o solo mais rapidamente que no sistema tradicional.
Outro experimento em andamento procura estimar a redução dos efeitos da erosão pelos diferentes sistemas de preparo do solo citados. O manejo intensivo e inadequado em solos rasos e declivosos tem favorecido o processo erosivo na região Centro-Sul ocasionando a queda da capacidade produtiva dos solos conforme cita FASIABEN et al. (1990). A tabela 1 mostra os resultados médios das perdas durante quatro anos de observação:
Tabela 1: Perdas de solo nos diferentes sistemas de preparo do solo com tração animal em Cambissolo Álico, Ponta Grossa-PR (kg/ha-Ano | % Relativa) — Arado-Descoberto: 113.781 | 1307%; Arado Aiveca: 8.702 | 100%; Escarificação: 4.346 | 49,9%; Plantio Direto: 837 | 9,6%. Precipitação média anual em 4 anos de observação: 987,5 mm. (Fonte: IAPAR, Ponta Grossa-PR)
Verifica-se que o plantio direto reduziu em mais de 90% as perdas de solo obtidas com o arado de aiveca.
Ensaios a nível de propriedade e adequação do plantio direto aos sistemas de produção predominantes
Os ensaios a nível de propriedade integram a metodologia de pesquisa em Sistemas de Produção do IAPAR e tem como objetivo realizar o grau de adoção da tecnologia para uma determinada situação através da avaliação da consistência e do nível das respostas obtidas nas estações experimentais frente às variações nas condições de clima, solo, mercado, práticas dos agricultores, etc.
Como o plantio direto envolve uma mudança intensa no sistema procuramos executá-lo no primeiro ano em três propriedades sob manejo dos pesquisadores para expor a tecnologia ao contato e opinião dos agricultores. A partir dos resultados obtidos e da avaliação dos agricultores a pesquisa será organizada de forma a incorporar o conhecimento empírico destes além de proporcionar sua maior participação na condução dos experimentos.
Os sistemas de produção predominantes de pequenos agricultores do Centro-Sul do Paraná apresentam boas condições para adoção do plantio direto com tração animal em estudo pelo IAPAR. O uso da tração animal com equinos é generalizado na região e os implementos necessários tais como o rolo-faca e a semeadora de plantio direto têm custo acessível aos produtores. As operações limitantes para expansão das áreas de cultivo são, segundo Araujo et al. (1990), o preparo do solo e o controle de ervas, sendo que a primeira não é necessária no plantio direto e o controle de ervas é minimizado segundo os resultados experimentais. O uso de insumos para correção de solos é acessível através dos programas oficiais de desenvolvimento rural do Estado e o uso de herbicidas já é uma prática adotada pelos agricultores.
Os resultados preliminares mostram que é possível adaptar o plantio direto para pequenos agricultores cabendo entretanto continuar o desenvolvimento da pesquisa por componente em equipamentos para controle de ervas, manejo químico e mecânico das coberturas, fertilidade do solo, etc., além da pesquisa em sistemas para validação das tecnologias.
Augusto G. Araújo, Ruy Casão Júnior, Francisco Skóra Neto, Gustavo H. Merten, Flávia F. Fernandes, Edson M. de Siqueira — IAPAR (Pólo Regional de Ponta Grossa)