Osmar Muzilli
COMO INICIAR PLANTIO DIRETO
Osmar Muzilli
INTRODUÇÃO
A conjuntura de política agrícola prevalescente no País, tem feito com que as maiores influências na tomada de decisão dos produtores em aceitar ou rejeitar os avanços tecnológicos proporcionados pela pesquisa e assistência técnica sejam exercidas por fatores de natureza sócio-econômica, muitas vezes em detrimento da preservação e melhoria dos fatores agroecológicos.
O êxito de qualquer negócio agrícola exige considerar a propriedade agrícola como um todo perante a realidade socio-econômica vigente e não pautar-se na visão imediatista dirigida a um produto de forma isolada ou a um processo tecnológico de forma estanque.
Nessas circunstancias, o plantio direto não pode ser enfocado como um simples método alternativo de preparo do solo. Necessita ser tratado como um sistema de produção agropecuária, integrado por um complexo ordenado de atividades que são interrelacionadas e dependentes umas das outras, envolvendo a diversificação via rotação de culturas e o uso de plantas de cobertura (adubos verdes).
Como sistema, o plantio direto é desenvolvido por um conjunto ordenado de ações, cujo resultado esperado é a sustentabilidade do negócio agrícola, onde se deve expressar o potencial genético das culturas em sua plenitude, através da maximização dos fatores solo e clima. A adoção do plantio direto em substituição à prática de agricultura fundamentada na “terra nua”, constitui um investimento seguro para a preservação dos recursos naturais e socio-econômicos e consequente sustentabilidade do negócio agrícola.
Além dos requisitos tecnológicos é fundamental considerar os aspectos administrativos e estruturais da propriedade, que poderão conduzir ao êxito ou fracasso na adoção e manutenção do sistema de plantio direto.
Mais do que oferecer um pacote de “receitas tecnológicas”, a preocupação dos pesquisadores e dos agentes de assistência técnica deve estar voltada sobretudo para a análise e compreensão das razões que levam os produtores a aceitar ou rejeitar as opções tecnológicas que lhes são oferecidas.
Com base nessas premissas, o sucesso do plantio direto dependerá de um conjunto de aspectos gerenciais, infra-estruturais e técnicos como requisitos básicos para a sua implantação e manutenção.
ASPECTOS GERENCIAIS E DE INFRA-ESTRUTURA
Gerência capacitada e experiente. A globalização econômica exige alterar os rumos do negócio agrícola - antes voltado “da porteira para dentro” - e demanda cada vez mais sua integração com os demais setores (mercado de insumos, complexo agroindustrial) situados “da porteira para fora”. O bom gerenciamento é fundamental para garantir rentabilidade e competitividade do negócio agrícola, principalmente no momento em que os mecanismos oficiais de subsídios ao setor estão exauridos. Mais importante do que a ação do Estado, passa a ser o gerenciamento profissional da propriedade, para garantir sua eficiência e sustentabilidade. A presença constante de administrador capacitado e experiente, vivendo o “dia-a-dia” da propriedade através do acompanhamento e visitas diárias ao campo é fator fundamental para o êxito do plantio direto, onde o melhor gerente deve ser sempre o próprio dono do negócio.
Equipe de operadores qualificados (tratoristas, mecânicos, operários de campo), devidamente treinados no uso de maquinários e no manejo das lavouras. A capacitação do pessoal em cursos práticos ou em visitas e treinamentos nas regiões onde o plantio direto já constitui processo rotineiro, seguida da adoção gradual na propriedade, permitirá ao produtor e sua equipe adquirir maior familiaridade com o sistema, antes de vir a praticá-lo em áreas maiores.
Estrutura apropriada de máquinas e implementos, consistindo de semeadoras-adubadoras para efetuar o plantio sem revolvimento do solo, pulverizadores bem equipados e devidamente regulados, tratores com potência adequada para a demanda das operações e implementos existentes, além de trituradores e colhedoras equipadas com picador e distribuidor de palha. À exceção da semeadora e eventualmente do rolo-faca ou do triturador, os demais implementos são os mesmos utilizados em sistemas de plantio convencional. Quanto às semeadoras, atualmente, o mercado nacional dispõe de kits para plantio direto, equipados com discos de corte para cortar a palha, facões estreitos destinados a romper o solo para depositar as sementes e um sistema compactador para fechar os sulcos e garantir o adequado contato das sementes com o solo. Além de atender as demandas impostas provisoriamente pelo sistema, o uso dêsses kits fornecerá ao produtor e aos operadores condições de se familiarizar com o manejo dos resíduos de culturas nas condições do seu terreno. Futuramente, o produtor poderá investir com mais segurança em semeadoras específicas para o plantio direto, se assim julgar necessário.
Assistência técnica atualizada perante os avanços tecnológicos proporcionados pela pesquisa e atuante junto aos produtores, constitui outro requisito fundamental para a garantia de sucesso do plantio direto. Por se tratar de um sistema dinâmico e em plena evolução, a adequação e geração de novas técnicas e equipamentos pela pesquisa e o setor industrial, ou mesmo a introdução de novos conceitos, têm ocorrrido numa frequência incomparável a outros processos de produção. Dessa forma, a implantação e manutenção sustentada do plantio direto requerem, do produtor e/ou de sua assistência técnica, conhecimentos atualizados sobre a tecnologia e, sobretudo, o adequado planejamento. É recomendável a filiação a associações ou clubes de plantio direto, para facilitar o acesso de informações e a troca de experiências.
ASPECTOS TÉCNICOS
Considerando que não existem “receitas” de como fazer plantio direto, as orientações que seguem têm a finalidade de alertar os produtores e técnicos acerca de alguns princípios e cuidados a se tomar no manejo do solo e das lavouras durante a fase de implantação. Dentre os inúmeros aspectos técnicos para o sucesso na implantação e condução das lavouras em plantio direto, destacam-se:
1. Sistematização do terreno.
No caso de terrenos recém destocados, é comum a existência de depressões provocadas pela retirada dos tocos e raízes de árvores. Também é frequente em áreas já cultivadas sobre as quais se pretende iniciar o plantio direto, a existência de sulcos no terreno, causados pelos efeitos da erosão hídrica decorrentes do manejo convencional do solo através de intensa mobilização da camada arável. As depressões e sulcos de erosão facilitam a concentração de enxurradas e provocam transtornos ao livre tráfego de máquinas na lavoura, além de constituírem manchas com deficiências de fertilidade e focos de infestação de plantas daninhas. A eliminação desses obstáculos poderá ser viabilizada através do emprêgo de plainas ou motoniveladoras. Da mesma forma, escarificações seguidas de gradagens ajudarão a minimizar o problema na maioria dos casos.
Manchas de fertilidade de solo deverão ser tratadas de forma diferenciada em relação à lavoura como um todo, recebendo quantidades proporcionais de corretivos, adubos e de horas-máquina em relação ao restante da área. Mesmo assim, nos primeiros anos essas áreas não proporcionarão as mesmas produtividades e constituirão pontos de contribuição para a elevação dos custos de produção e de aumento dos riscos de danos às lavouras até que, pelo uso diversificado do solo através de rotações de culturas e manutenção da cobertura vegetal, êsses focos irregulares desaparecerão e a área se apresentará uniforme em toda a superfície.
Uma questão todavia polêmica na sistematização do terreno, refere-se à manutenção ou não dos terraços em nível, destinados a reduzir a velocidade das enxurradas e conduzir o excesso de água que porventura esteja a escorrer sobre o terreno. Levando em conta que o volume de enxurradas será maior ou menor em função da capacidade de infiltração de água no solo, da declividade, da intensidade de ocorrência das chuvas e da cobertura vegetal mantida sobre o terreno, não se deve generalizar o conceito de eliminar os terraços em áreas sob plantio direto. Há muito, dados pioneiros da pesquisa já atestaram que, mesmo em sistema de plantio direto, a presença de terraços poderá ajudar a reduzir pela metade as perdas de solo por erosão (Tabela 1).
Tabela 1. Influência do terraceamento nas perdas de solo por erosão em solos argilosos do Paraná. (Período 1977 a 1979).
Sistemas de cultivo Sem terraços (t/ha) Com terraços (t/ha) Plantio convencional 114,0 57,0 Plantio direto 11,0 5,5
Fonte: Mondardo e Biscaia, 1981.
A presença de terraços em nível ajudará também na retenção de água sobre o terreno, evitando o seu escoamento em volumes excessivos e a possível contaminação dos cursos d’água por resíduos de pesticidas aplicados nas lavouras. Há que se considerar ainda a eventualidade de, por qualquer razão (incidência de doenças, plantas daninhas, compactação, desequilíbrios na fertilidade), ser necessário o revolvimento do solo em áreas sob plantio direto há vários anos. Nessa situação, a presença dos terraços ajudará a prevenir os possíveis riscos de perdas de solo pelas enxurradas durante o período em que o solo estiver sendo manejado em sistema de preparo convencional.
O que pode ser mudado, é o tipo de terraço a ser mantido. Em situações de plantio direto devidamente manejado com rotações de culturas e com boa cobertura vegetal, capazes de manter o terreno protegido a maior parte do tempo durante o período chuvoso, os terraços de base estreita poderão ser substituídos por terraços de base larga. Nessas condições, além de se poder cultivar totalmente a área, será possível o tráfego de máquinas em linha reta no sentido dos terraços, sem que haja impedimentos operacionais e sem riscos graves de erosão, mesmo em terrenos mais arenosos e declivosos.
2. Descompactação do solo
Em áreas de Cerrados sob uso recente, as propriedades físicas do solo são geralmente boas, sendo raro ocorrer impedimentos dessa natureza para o adequado desenvolvimento das raízes das plantas.
Os problemas de compactação tendem a ser mais graves no caso de áreas sob cultivo intensivo em sistema convencional por vários anos seguidos, nas quais a ação contínua dos implementos agrícolas, principalmente os de discos, provoca o fracionamento e a desestruturação do solo, além de acelerar a oxidação da matéria orgânica, tornando os agregados menores e menos estáveis. Esse processo de desestabilização e desarranjo de agregados na camada “arável” causará de forma progressiva a descontinuidade da porosidade e o aumento da densidade do solo, restringindo a permeabilidade ao ar, a infiltração de água e o desenvolvimento das raízes das plantas. Enquanto que na camada superficial desagregada é comum a formação de crostas e o “selamento” dos poros, na sub-superfície tende a se formar uma camada compactada (pé-de-arado ou pé-de-grade), cuja espessura e profundidade será variável em função das próprias características do solo, dos implementos empregados, do tempo de uso dos mesmos e da sequência de culturas explorada na área.
O método mais adequado para se detectar a presença e a espessura de camadas compactadas nos solos, é através do exame do perfil cultural em pequenas trincheiras (30 cm de largura x 60 cm de comprimento x 60 cm de profundidade), abertas em vários pontos da lavoura, preferencialmente no período de pleno desenvolvimento vegetativo das culturas. Nessas trincheiras, as camadas compactadas poderão ser identificadas pela resistência que o solo oferece ao toque leve com uma pequena faca ou instrumento ponteagudo, efetuado desde a superfície até o limite inferior da trincheira. Além disso, é fundamental observar o desenvolvimento das raízes, cuja densidade será reduzida e se poderá notar deformações como tortuosidade, algumas vezes assumindo secção achatada ao invés de cilíndrica, ao encontrarem resistência à penetração no solo. Esses sintomas refletem o esforço da planta para vencer as restrições impostas pelas condições do solo. Se eventualmente as raízes estiverem deformadas sem que seja constatada a presença de camada compactada, o sintoma será indicativo de possíveis restrições de fertilidade (ocorrência de acidez com presença de alumínio trocável) no perfil do solo.
Se fôr confirmada a presença de compactação, haverá a necessidade de se realizar a descompactação mecânica, pelo uso de implementos capazes de operar a profundidades maiores que o limite inferior da camada compactada. Os implementos de hastes (escarificadores) são os mais indicados, por provocarem menor desagregação do solo, cujo sucesso na descompactação do solo dependerá basicamente dos seguintes fatores:
Umidade do solo: a descompactação será mais eficaz quando realizada com o solo na faixa de umidade equivalente a da friabilidade. Essa faixa pode ser facilmente identificada a campo, coletando-se a 10 cm de profundidade um torrão (2 a 5 cm de diâmetro) e exercendo-se sobre êle uma leve pressão entre os dedos polegar e indicador. Se o torrão desagregar sem oferecer grande resistência e sem moldar-se ao formato dos dedos, o solo estará na faixa de friabilidade.
Profundidade de trabalho: O implemento descompactador deverá ser regulado para operar a uns 5-10 cm abaixo do limite inferior da camada compactada.
Espaçamento entre as hastes: O espaçamento entre uma haste e outra determina o grau de descompactação do solo e a demanda de força pelo implemento. De modo geral, recomenda-se manter um espaçamento igual a 1¼ vezes a profundidade de operação, quando se usa ponteiras de aproximadamente 6 cm de largura. Para ponteiras mais largas, ou equipadas com asas laterais, essa relação deverá ser maior, até 1½ vezes a profundidade de operação.
Na região dos Cerrados a operação de escarificação será mais efetiva quando realizada após a colheita das culturas de verão, ao final do período chuvoso (abril em diante), enquanto haja algum resíduo de umidade no solo. Caso não seja possível, deverá ser realizada logo no início das chuvas, antes que o solo esteja excessivamente saturado com água.
No caso de terrenos utilizados com pastagem, assim como no caso de solos muito argilosos submetidos a vários anos de cultivo sob plantio direto sem boa cobertura com resíduos vegetais, poderá ocorrer compactação na camada superficial ao longo do tempo, provocada pelo pisoteio dos animais ou pelo tráfego de maquinários em condições de terreno muito úmido. A superação dêsse problema poderá ser conseguida pela adaptação de uma haste escarificadora (facão) colocada entre o disco de corte da palha e os discos de semeadura das máquinas de plantio direto, trabalhando a uma profundidade ao redor de 12 cm. Observações realizadas por Vieira (1988, comunicação pessoal) numa lavoura de plantio direto em solo argiloso do Norte do Paraná onde o problema de compactação superficial vinha ocorrendo, evidenciaram melhor desenvolvimento das raízes do milho após o uso dos facões, com reflexos na melhoria de produtividade da lavoura (Tabela 2).
Tabela 2. Produtividade do milho cultivado num solo argiloso do Norte do Praná, sem e com adaptação de facões escarificadores na semeadora de plantio direto. Fazenda São Manoel (município de Cambé, PR), safras 1986/87 e 1987/88.
Tratamentos Rendimento de milho Sem facão (7,5 cm de pressão)* 6000 kg/ha Com facão (5,0 cm de pressão) 6564 kg/ha Com facão (7,5 cm de pressão) 7092 kg/ha
(*) Refere-se à pressão exerada na mola impulsora dos discos de corte da palha. Fonte: Vieira, 1988 (Comunicação pessoal).
Não se deve pretender que a correção de camadas compactadas ocorra pela simples adoção do plantio direto, após ter sido realizada uma descompactação mecânica. Esse tem sido um êrro cometido por inúmeros produtores, que acabam por fracassar no seu intento.
Na condução do plantio direto, será fundamental lançar mão de métodos de descompactação biológica, através do uso de plantas rústicas, com sistema radicular pivotante e boa capacidade de penetração no solo. Para consolidar qualquer trabalho mecânico de melhoria física do solo, tais plantas deverão ser selecionadas para cada região, considerando:
Potencial de produção de massa sêca, que irá determinar o equilíbrio entre o que é necessário para manter o teor de matéria orgânica em função das condições de solo e de clima prevalecentes na região.
Capacidade de desenvolvimento radicular, que irá promover a agregação do solo. De forma genérica, as gramíneas (milheto, sorgo) possuem sistema radicular mais abundante e ocupam de forma mais efetiva os espaços vazios do solo, posibilitando a agregação das partículas. Após decomposição, essas raízes deixarão poros vazios que irão facilitar a aeração e a infiltração de água. Além das gramíneas, espécies como as crotalárias e o feijão-guandú poderão constituir, para determinadas regiões dos Cerrados, boas alternativas a serem combinadas no processo de descompactação e sistematização do solo.
Rápido desenvolvimento inicial, para que o solo seja protegido o mais cedo possível. As espécies de crescimento rápido também possuem maior capacidade de produção de matéria sêca por unidade de tempo. O espaço ocupado por uma espécie desejável, que seja de crescimento inicial rápido, irá dificultar a ocupação por outra indesejável, como as ervas daninhas.
Boa sanidade, sem serem hospedeiras de pragas e doenças transmissíveis às culturas subsequentes.
Facilidade para produção de sementes, um fator decisivo para a utilização de determinadas espécies em certas condições de clima e solo.
Aptidão para serem incluídas num plano de rotação de culturas, preferencialmente procurando-se espécies que tenham algum retorno econômico (grãos, forragem) e que possam também servir como plantas destinadas à cobertura (viva ou morta) do solo. Além da possibilidade de serem incluídas num plano de rotação sem a necessidade de aquisição de máquinas específicas.
3. Correção da acidez
Para iniciar o plantio direto nos solos de Cerrados, um importante problema de fertilidade química a ser resolvido é o da acidez. Além do excesso de acidez, êsses solos são pobres em cálcio e magnésio e, na maioria das vezes, apresentam excesso de alumínio (Lopes, 1984). O excesso de alumínio, associado à deficiência de cálcio, pode ocorrer também em profundidade (Tabela 3), prejudicando o crescimento das raízes e, em consequência, a produção das culturas, quando acontecem veranicos (Souza e Lobato, 1996).
Tabela 3. Distribuição porcentual de classes de saturação de alumínio e teor de cálcio na camada subsuperficial do solo (21-50 cm) na região dos Cerrados.
Alumínio trocável Cálcio trocável Saturação (%) Distribuição (%) Teor (cmg/100 cm³) Distribuição (%) <10 30 >4,0 1 10-40 28 4,0-0,4 13 >40 42 <0,4 86
Fonte: Souza et al, 1995. EMBRAPA-CPAC.
Na correção da acidez em solos de Cerrados deve-se levar em conta não apenas a camada “arável” do solo (0-20 cm de profundidade), mas também a camada sub-superficial (entre 20 e 50 cm de profundidade).
3.1. Correção da acidez superficial
A prática de calagem permite neutralizar a toxidez causada pelo alumínio e fornecer cálcio e magnésio como nutrientes, possibilitando melhor desenvolvimento das raízes das plantas e, consequentemente, facilitando a absorção e utilização de água e nutrientes pelas culturas.
A quantidade de calcário a ser utilizada em uma determinada área, dependerá do tipo de solo e do sistema de produção a ser desenvolvido. Dados experimentais do CPAC/EMBRAPA (Souza e Lobato, 1996) indicam como adequado que a saturação por bases (V%) seja mantida em torno de 50% para se obter as maiores produtividades. Valores da saturação por bases acima dêsse limite poderão induzir deficiências de zinco, cobre e manganês na região dos Cerrados.
Por ser comum a deficiência de magnésio em solos de Cerrados, recomenda-se o uso de calcários que apresentem teor mínimo de 5,0% de MgO. A relação entre teores de Ca e Mg no solo poderá situar-se nos intervalos de 1:1 até 10:1, desde que seja observado um teor mínimo de 0,5 me de Mg/100 cm³.
Também é importante lembrar a necessidade de se corrigir as doses estimadas em função do PRNT do calcário. Da mesma forma, deve-se considerar o preço do calcário corrigido para 100% de PRNT posto na propriedade, ou seja, incluindo o valor do transporte.
Do ponto de vista econômico a calagem é um investimento, cujo cálculo de economicidade deve considerar períodos de amortização ao redor de 4 a 5 anos. Sua participação porcentual no custo de “construção” da fertilidade do solo nos Cerrados foi estimada ao redor de 5 a 8% (Souza e Escolan, 1986).
Para que o calcário possa produzir os efeitos desejáveis, é necessário haver umidade suficiente no solo para sua reação. Como na região de Cerrados existe uma estação sêca que se prolonga de maio a setembro, as épocas mais adequadas para a calagem serão o final do período chuvoso (após colheita das culturas de verão) ou então no início da próxima estação chuvosa (pouco antes da semeadura).
É importante que o calcário seja incorporado o mais profundo possível, para favorecer o desenvolvimento das raízes e melhorar a produtividade das culturas (Tabela 4).
Tabela 4. Efeito da profundidade de incorporação do calcário na distribuição de raízes e produtividade do milho num Latossolo Vermelho Escuro argiloso de Cerrados.
Profundidade no perfil do solo (cm) Incorporação 0-15 cm Incorporação 0-30 cm Distribuição das raízes (%) 0-15 cm 912 930 15-30 cm 342 650 30-45 cm 108 137 Rendimentos de milho (t/ha) 5,9 6,7
Fonte: Adaptado de Souza, 1996. CPAC-EMBRAPA (Comunicação pessoal).
Quanto ao método de incorporação, diferentes situações podem ser consideradas:
Logo após o desmatamento, em áreas sem problemas de compactação. Nêsse caso, o calcário deverá ser distribuído uniformemente sobre o solo, seguido da incorporação através de gradagem pesada, para facilitar a retirada de raízes e restos de madeira remanecentes na área. Se a dose de calcário fôr superior a 5,0 t/ha, existem vantagens no parcelamento da aplicação. Nesse caso, metade da dose seria aplicada antes da gradagem pesada e a outra metade após essa operação, seguida de uma gradagem leve.
Áreas sob cultivo ou ocupadas com pastagens há vários anos, com problemas de acidez associados à compactação. Se forem doses menores de 5,0 t/ha, o calcário deverá ser distribuído uniformemente sobre a superfície do terreno, para ser incorporado com arado de aiveca ou de discos. Sendo usadas doses elevadas, metade da dose deverá ser aplicada e incorporada através da aração e a outra metade após a aração, seguida da incorporação com gradagem leve. Quando a descompactação fôr realizada através de escarificação, o calcário poderá ser distribuído sobre o terreno no final do período chuvoso, procedendo-se logo em seguida a escarificação e uma gradagem leve. Nêsse caso, os acréscimos de produtividade poderão ser menores no 1º ano.
3.2. Correção da acidez sub-superficial
Nos solos com problemas de acidez sub-superficial, nem sempre a incorporação profunda do calcário por processo mecânico será suficiente para resolver o problema. Camadas abaixo de 40 cm poderão continuar com excesso de alumínio tóxico associado ou não à deficiência de cálcio. Consequentemente, as raízes das plantas permanecerão concentradas na camada superior do solo que foi corrigida pela calagem, estando sujeitas à perdas de produção por efeito de veranicos.
Nos solos de Cerrados, o uso de gêsso tem permitido superar os problemas de excesso de alumínio e falta de cálcio nas camadas mais profundas, uma vez que os ânions sulfato (SO₄) podem arrastar o cálcio e o magnésio até as camadas mais profundas. Dêsse modo, são criadas condições para o sistema radicular das plantas se aprofundar no solo e aumentar a absorção de água e nutrientes (Tabela 5).
Tabela 5. Efeitos do uso do gêsso na distribuição das raízes e rendimentos de milho em Latossolo argiloso de Cerrados.
Profundidade no perfil do solo (cm) Sem gêsso Com gêsso Distribuição de raízes (%) 0-15 61 30 15-30 29 22 30-45 8 18 45-60 1 18 60-75 1 12 Rendimentos de milho após veranico (t/ha) 3,2 5,5
Fonte: Adaptado de Souza et al, 1995. CPAC-EMBRAPA.
O gêsso poderá ser usado com dois objetivos (Souza e Lobato, 1996):
Para minimizar os problemas de acidez em subsuperfície; para tal, deve-se proceder análise do solo nas camadas de 20-40 e 40-60 cm de profundidade do solo. Se a saturação de alumínio fôr maior que 20% ou o teor de cálcio menor que 0,5 me/100 cm³, ou as duas situações ocorrerem ao mesmo tempo, haverá boas possibilidades de respostas à aplicação do gêsso agrícola.
Como fonte de enxôfre e cálcio como nutrientes; nêsse caso recomenda-se aplicar anualmente 100 a 200 kg de gêsso por hectare.
Deve ficar claro que o gêsso não irá neutralizar a acidez do solo. Além disso, se não fôr usado com o necessário cuidado, poderá induzir perdas de outros nutrientes, como o potássio, o magnésio, o manganês e o zinco, que poderão ser arrastados para camadas muito profundas e fora do alcance das raízes, em detrimento do rendimento das culturas. Essa situação foi detectada por Muzilli e Medeiros (1992, não publicado) em condições de fazenda na região Centro-oeste do Paraná (Tabela 6).
Tabela 6. Teores de Al, Ca e Mg trocáveis e rendimentos de soja num Latossolo Roxo distrófico sob plantio direto há 5 anos, após 1 ano da aplicação de calcário e calcário+gêsso em superfície. Mamborê (PR), safras 1988/89 e 1989/90.
Tratamentos Prof. (cm) Al (emg/100 ml TFSA) Ca (emg/100 ml TFSA) Mg (emg/100 ml TFSA) SOJA (kg/ha) Sem correção da acidez 0-10 0 4,57 3,00 2621 (-11%) 10-30 0,07 3,62 2,38 30-50 0,63 1,68 1,37 Calcário (2,5 t/ha)* 0-10 0 5,35 3,82 2906 10-30 0 4,75 3,04 30-50 0,35 2,50 1,88 Calcário (2,5 t/ha) + Gêsso (500 kg/ha)* 0-10 0,13 4,27 1,97 2730 (-6%) 10-30 0,22 3,67 1,80 30-50 0,82 2,05 1,15
(*) Aplicados em superfície sobre restos de cultura do trigo, sem incorporação. Fonte: Muzilli e Medeiros, 1992. Programa Sistemas de Produção/IAPAR (Relatório técnico não publicado).
Do ponto de vista econômico, o uso do gêsso é mais onerado pelos custos de transporte do material do que pelo próprio valor do produto. Estudos realizados pelo CPAC-EMBRAPA levaram a inferir que na região de Cerrados o transporte do gêsso poderá ser econômico até a distancia de 1800 km, para doses de até 3,0 t/ha (Souza et al, 1995). Considerando o efeito do gêsso apenas como fonte de enxôfre, a alternativa de se usar formulações de adubos que contenham enxôfre como elemento secundário poderá ser mais econômica. Essa é outra razão para que o produtor faça um teste prévio com o gêsso em sua propriedade, para depois tomar a decisão.
4. Suprimento de matéria orgânica
Em estudos realizados por Lopes (1984), a maioria dos solos de Cerrados (60% de 518 amostras analisadas) apresentou teores médios de matéria orgânica (entre 1,5 e 3,0%) e apenas 17% dos casos apresentou níveis baixos (menos de 1,5%). Apesar disso, os valores da capacidade de troca de cations (CTC) efetiva dessas amostras foram muito baixos (97% com CTC menor de 4 emg/100 cm³). O pequeno efeito da matéria orgânica na CTC efetiva dos solos de Cerrados pode ser explicado por várias causas, destacando-se dentre elas as implicações decorrentes do pH ácido na diminuição da atividade microbiana e nas transformações de compostos orgânicos no solo. As implicações de ordem prática e econômica dos efeitos conjuntos do pH ácido e matéria orgânica devem ser consideradas no manejo da fertilidade dos solos, tanto por ocasião como após a implantação do plantio direto.
Seria utópico pensar em melhorar o teor de matéria orgânica do solo pelo uso de adubos orgânicos pois, para aumentar 1% dêsse teor haveria a necessidade de se aplicar 60 t/ha de estêrco de curral. Daí resulta ser imprescindível adotar práticas de manejo que, pelo menos, mantenham os níveis de matéria orgânica e a atividade microbiana adequados.
Juntamente com a calagem, práticas como adubação verde, preservação dos restos culturais e uso de rotação de culturas irão certamente contribuir para a manutenção do equilíbrio desejado. Esses efeitos são confirmados pelos dados obtidos por Seguy et alii (1995), ao combinarem processos de preparo do solo com rotações de culturas em solos de Cerrados (Tabela 7).
Tabela 7. Teores de matéria orgânica na camada arável do solo em função de processos de preparo e rotações de cultura, após 6 anos de cultivo (1986 a 1992) em solo de Cerrados da região centro-norte do Brasil.
Processos de preparo do solo e rotações de culturas Prof. (cm) M.O. (%) Gradagem pesada em monocultura de soja 0-10 1,0 10-20 1,0 20-30 1,0 Aração profunda em monocultura de soja 0-10 1,1 10-20 0,9 20-30 0,7 Aração profunda em rotação soja-milho 0-10 1,5 10-20 1,3 20-30 1,3 Plantio direto em rotação soja-milho 0-10 3,8 10-20 3,4 20-30 2,0
Fonte: Seguy et alii, 1995.
O manejo dos resíduos, se incorporados ou deixados em superfície, juntamente com a quantidade e natureza do material orgânico remanescente no solo, determinará o nível de retorno e/ou aumento do conteúdo de matéria orgânica e da atividade biológica do solo. Pelo fato do material orgânico permanecer na superfície do terreno, a mineralização da matéria orgânica em plantio direto ocorre de forma mais lenta e gradativa do que no preparo convencional, onde o processo é acelerado pela incorporação dos resíduos vegetais que favorece um contato mais íntimo do material orgânico com os microorganismos e a umidade presente na camada arável. Por decorrência, a liberação de nitrogênio será mais gradativa e os riscos de perdas por lixiviação serão menores, conforme constatou Parra (1984), cujos dados são mostrados na Tabela 8.
Tabela 8. Teores e taxas de mineralização da matéria orgânica e disponibilidade de nitrogênio em plantio direto comparado ao plantio convencional num Latossolo Roxo distrófico do Norte do Paraná, após 8 anos de cultivo (Período 1976-1984).
Profundidade da amostra (cm) Plantio direto Plantio convencional Teores de M.O. (%) 0-10 3,14 2,46 10-20 2,63 2,41 Taxa de mineralização da M.O. (%) 0-10 2,61 2,77 10-20 2,50 3,27 Taxa de liberação de N (%) 0-10 5,21 6,49 10-20 6,17 6,67
Fonte: Parra, 1984.
O plantio direto praticado através de adequadas rotações de culturas poderá contribuir de forma efetiva para incrementar a disponibilidade de matéria orgânica no solo e a liberação gradativa de nitrogênio para as culturas. Constitui portanto uma alternativa para reduzir os custos de produção e melhorar a sustentabilidade dos sistemas de produção agrícola em regiões tropicais.
5. Melhoria da disponibilidade e aproveitamento de nutrientes 5.1. Adubação fosfatada
O fósforo é um dos nutrientes mais limitantes à produção agrícola nos solos tropicais brasileiros, sendo imprescindível a prática da adubação fosfatada antes e durante a implementação do plantio direto. Para maior eficiência da adubação fosfatada em culturas anuais, é indispensável corrigir a acidez do solo, elevando-se o pH em água para valores entre 5,5 e 6,0 (Tabela 9).
Tabela 9. Efeitos da calagem na melhoria da eficiência de aproveitamento do fósforo pela soja em Latossolo Roxo distrófico do oeste do Paraná. Safras 1975/76 a 1977/78.
P₂O₅ aplicado a lanço (kg/ha) Rendimentos de soja (kg/ha) sem calagem Rendimentos de soja (kg/ha) com calagem 0 1150 1575 80 2025 2425 160 2675 2825 320 2925 3000
Fonte: Muzilli, 1982.
A recuperação do fósforo em níveis suficientes para as lavouras anuais poderá ser feita por meio de diferentes modalidades de adubação fosfatada:
Correção imediata pela aplicação de dose única de adubo fosfatado a lanço em toda a superfície, seguida de adubações anuais de manutenção nos sulcos de semeadura, para repor as quantidades retiradas pelas culturas.
Correção gradativa, através de aplicações anuais de adubo fosfatado em doses superiores às indicadas para a adubação de manutenção nos sulcos, por ocasião da semeadura das culturas, quando não é possível fazer a correção do solo de uma só vez por restrições econômicas.
A adubação corretiva deve ser considerada um investimento, cuja amortização ocorre geralmente num período de 5 anos, através de culturas anuais que tenham bom potencial de resposta ao fósforo, como a soja, o milho e o trigo. Essa amortização estará condicionada à ausência de outros problemas limitantes à produtividade das culturas. A modalidade de adubação fosfatada a ser utilizada dependerá do planejamento econômico da atividade agrícola no médio ou longo prazo. Em ambas as situações, haverá necessidade de manutenção periódica dos níveis de fósforo desejados, a ser realizada através de adubações anuais com doses capazes de repor ao solo a quantidade de nutriente extraída pelas culturas naquele período.
Um acompanhamento da distribuição e acumulação de fósforo solúvel na camada “arável” de um solo argiloso em plantio convencional e direto, após a adubação corretiva e depois de 5 anos de cultivo com a rotação soja/trigo-milho/trigo, onde os adubos eram aplicados nos sulcos de semeadura, levou aos resultados mostrados na Tabela 10.
Tabela 10. Distribuição dos valores de P solúvel (método Mehlich) na camada arável de um Latossolo Roxo distrófico do Norte do Paraná, em sistema de plantio convencional e direto, após 5 anos de cultivo com a rotação soja/trigo-milho/trigo.
Profundidade da amostra (cm) Teor inicial Teor após 5 anos - Plantio convencional Teor após 5 anos - Plantio direto P (ppm) no solo 0-5 3,6 6,5 21,7 5-10 2,8 6,7 9,6 10-20 2,6 6,5 4,3
Fonte: Muzilli (1983).
Comparado ao teor inicial, houve sensível melhoria na disponibilidade de fósforo até os 20 cm de profundidade, em ambos os sistemas de plantio. No entanto, devido à baixa mobilidade do fósforo no solo, a acumulação superficial foi sensivelmente mais alta em plantio direto.
Após 15 anos, foi realizado um fracionamento das formas de fósforo em amostras de solo coletadas em ambas as situações de cultivo naquela mesma área, cujos resultados são mostrados na Tabela 11.
Tabela 11. Ocorrência de diferentes formas de P na camada arável de um Latossolo Roxo distrófico, após 15 anos sob cultivo em plantio convencional e direto. Londrina (PR), 1990/91.
Processos de cultivo Prof. (cm) P-total fase sólida (ppm) P-Fe P-Al P-Ca P-Org. P não lábil Teor relativo Plantio convencional 0-10 990 10% 6% 9% 20% 55% 10-20 988 9% 5% 8% 21% 57% Plantio direto 0-10 1315 13% 11% 11% 26% 37% 10-20 916 8% 6% 7% 29% 52%
Fonte: Muzilli, 1991. IAPAR/Programa Recursos Naturais (dados não publicados).
Associado à maior disponibilidade de P-lábil inorgânico na camada superior e de P-lábil orgânico em ambas as camadas do solo, foi constatado melhor aproveitamento do fósforo pelas plantas em plantio direto, devido a maior atividade biológica e a ação de organismos do solo facilitar a transformação do nutriente em formas assimiláveis. A maior umidade no solo protegido pelos resíduos de culturas também favorece a difusão do nutriente até as raízes das plantas. Dessa forma, o plantio direto ajuda a otimizar o uso de fósforo e diminuir os gastos com adubação fosfatada em solos tropicais. Daí porque, uma vez superados os níveis críticos de P no solo, este poderá ser mantido com menores quantidades de fertilizante aplicado.
Na escolha da fonte de adubo fosfatado a utilizar, as características mais importantes são o preço por unidade de P₂O₅ (considerando o adubo posto na fazenda) e a sua eficiência agronômica. A eficiência agronômica refere-se à capacidade do adubo em proporcionar o maior acréscimo de rendimento por unidade de nutriente aplicada num dado período de tempo, em relação ao Superfosfato triplo. Uma comparação da eficiência agronômica de adubos fosfatados em solo ácido do tipo Cerrados na região centro-oeste do Paraná levou aos resultados mostrados na Tabela 12, onde se destaca o efeito proporcionado pelo Hiperfosfato de Gafsa.
Tabela 12. Rendimentos de milho e eficiência relativa proporcionada por diferentes adubos fosfatados em comparação ao Superfosfato triplo num Latossolo Roxo álico fase Cerrado, na região centro-oeste do Paraná. Campo Mourão (PR), safras 1978/79 a 1980/81.
Fontes de adubo fosfatado Milho (kg/ha) 1978/79 Milho (kg/ha) 1980/81 Eficiência relativa* 1978/79 Eficiência relativa* 1980/81 Sem fósforo 1374 2636 — — Superfosfato triplo 3666 6357 100 100 Hiperfosfato de Gafsa 3894 6015 100 90 Termofosfato IPT 3217 4831 57 52 Fosfato Araxá 3199 4670 55 48 Fosfato Patos de Minas 3160 4803 53 51
(*) Em comparação ao Superfosfato triplo. Fonte: Adaptado de Oliveira et al, 1983.
5.2. Adubação potássica
Nos solos de Cerrados, de maneira geral as reservas de potássio não são suficientes para suprir as quantidades extraídas pelas culturas por períodos longos de tempo. Portanto, após realizar adubação potássica corretiva por ocasião da implantação do plantio direto, o teor de potássio deverá ser mantido próximo ao nível de suficiência (50 ppm).
Em solos com teor de argila maior que 20% a estratégia de adubação corretiva gradual, através de aplicações anuais de doses superiores às quantidades retiradas pelas culturas, é desejável para assegurar a disponibilidade de potássio nos níveis desejados. Nesse caso é recomendado que a adubação potássica seja feita preferencialmente a lanço, pois a alta concentração provocada por grandes quantidades de adubo distribuídos nos sulcos facilitará as perdas por lixiviação.
Em solos arenosos a adubação corretiva gradual também é recomendada; porém, as doses de adubo potássico deverão ser inferiores àquelas usadas em solos argilosos, já que nos solos arenosos poderão ocorrer acentuadas perdas por lixiviação devido à baixa CTC (geralmente menor de 4 me/100 cm³ de solo). Neste caso recomenda-se o parcelamento da dose nos sulcos de plantio e o restante em cobertura, mais ou menos aos 30 dias após a emergência das plantas.
Semelhante ao fósforo, também tem sido verificada maior disponibilidade de potássio nas camadas superficiais do solo em plantio direto. Devido às altas quantidades de potássio normalmente contidas nos restos de culturas remanescentes na superfície do terreno e por se tratar de um nutriente de fácil mobilidade no sistema solo-planta, a decomposição dos resíduos culturais proporciona uma reciclagem gradativa do nutriente nas áreas sob plantio direto.
5.3. Micronutrientes
O zinco é o micronutriente mais deficiente nos solos de Cerrados, mas a prática de cultivos sucessivos tem induzido a deficiência de outros elementos como o boro, o cobre, o manganês e o molibdênio.
A análise foliar tem sido mais eficiente do que a análise de solo para diagnosticar e recomendar a necessidade de aplicação de micronutrientes. A utilização de fertilizantes NPK contendo micronutrientes tem a vantagem de facilitar e proporcionar maior uniformidade de aplicação. Se fôr necessário, a adubação com micronutrientes poderá ainda ser complementada através de adubação foliar.
6. Reciclagem de nutrientes pela rotação de culturas e plantas de cobertura
Em solos tropicais, a sustentabilidade do plantio direto dependerá da presença constante de restos culturais produzidos principalmente por gramíneas, que de início poderão ser estabelecidas como culturas de verão (caso do milho ou sorgo) ou então na “safrinha” (milho, sorgo, milheto, aveia preta). No caso de culturas destinadas à produção de grãos, a preocupação é com o manejo dos resíduos culturais a partir da colheita. O picador/distribuidor de palha na colhedora facilita as operações agrícolas subsequentes. A sua regulagem para trituração dos resíduos e posterior distribuição sobre a superfície do solo, dependerá do tipo de cultura que está sendo colhida, da espécie que se pretende cultivar em sequência e do tipo de máquina disponível para a semeadura direta.
Pastagens de Brachiaria, ao serem dessecadas, também permitem a obtenção de excelentes palhadas e têm sido usadas por agricultores progressistas para implementar o plantio direto nos Cerrados, através de sistemas de produção fundamentados na integração lavoura-pecuária. No estabelecimento de lavouras sobre pastagem, é importante observar o estado físico do solo e tomar cuidados especiais com a semeadora a ser utilizada. Um método utilizado para o manejo das pastagens tem sido o rebaixamento através de pastejo intensivo durante a estação sêca. No início das chuvas, após as primeiras rebrotas alcançarem entre 10-15 cm de altura, é feita a dessecação com herbicida de ação total (glifosato). Cêrca de 2-3 semanas depois, antes que haja nova rebrota, é realizada a semeadura direta sobre o pasto dessecado. Principalmente no caso de solos argilosos, a semeadora deve ser equipada com um facão estreito na linha de plantio, regulado para profundidades entre 10 e 15 cm, a fim de eliminar possível compactação promovida pelo pisoteio dos animais e colocar os fertilizantes abaixo das sementes.
A utilização de plantas de cobertura mais eficientes na reciclagem dos nutrientes é medida coadjuvante para melhorar a utilização dos adubos aplicados, através da adequada sequência de culturas. Em parcelas de validação estabelecidas pelo CPAMN-EMBRAPA (Projeto Savanas - ICA/PROCITROPICOS) numa área de Cerrados da região de Balsas (MA), o cultivo de milheto africano (sem adubação), sorgo e milho (adubados com 100 kg/ha de Superfosfato simples) no período de “safrinha” proporcionou as mudanças de fertilidade mostradas na Tabela 13.
Tabela 13. Efeitos de culturas de “safrinha” em plantio direto, na reciclagem de nutrientes no perfil cultural de um solo de Cerrado. (Fazenda Estância Gaúcha, município de Balsas-MA). Safra 1995/96.
Culturas em plantio direto no período de “safrinha” Prof. (cm) pH em água Al (emg/100 ml) Ca+Mg (emg/100 ml) P (ppm) K (ppm) Antes da semeadura 0-10 5,0 0,30 1,5 7 43 10-30 4,9 0,70 1,3 3 38 Milheto (sem adubação) 0-10 5,5 0,10 2,97 23 60 10-30 5,1 0,20 2,57 10 38 Sorgo (100 kg/ha Superfosfato simples) 0-10 5,4 0,13 1,99 21 21 10-30 5,1 0,23 1,26 5 18 Milho (100 kg/ha Superfosfato simples) 0-10 5,1 0,13 2,00 16 37 10-30 5,1 0,34 1,30 6 26
Fonte: Projeto Savanas, 1996. EMBRAPA/CPAMN-IICA/PROCITROPICOS (Dados não publicados).
Os dados obtidos comprovaram a capacidade do milheto em recuperar o Ca+Mg, o K trocável e o P solúvel, que foram reciclados de camadas mais profundas ao longo do perfil cultural do solo.
O exemplo mostrado evidencia que a melhoria da fertilidade de solos tropicais para implantação do plantio direto não deve ser buscada exclusivamente através da utilização de adubos químicos. A sua conjugação com práticas culturais como a rotação de culturas e o uso de plantas de cobertura (adubos verdes) permitirá reciclar biologicamente os nutrientes e melhorar a eficiência de aproveitamento pelas plantas, tornando mais rentável e sustentável a agricultura nessas regiões.
7. Controle preventivo de plantas daninhas
No sistema de plantio direto, as espécies daninhas perenes e de difícil contrôle constituem sério problema uma vez instaladas no terreno. Dentre as espécies de folha larga mais problemáticas destacam-se a guanxuma, a buva, a maria-mole e a língua-de-vaca. As gramíneas de hábito perene como capim das roças, grama comprida, grama seda, sorgo de alepo e capim amargoso são também comuns. Além destas, a tiririca constitui também sério problema.
Devido a grande variabilidade de situações, torna-se imperativo a verificação das condições específicas de cada lavoura. De qualquer maneira, deve-se evitar a implantação do plantio direto em áreas com forte presença de ervas perenes como capim amargoso, brachiária, colonião, erva-quente cujo contrôle, além de muito difícil, será mais caro. O contrôle prévio dessas e outras plantas daninhas, antes e durante a condução do plantio direto, é medida essencial para o êxito do sistema, quando se faz necessário observar alguns requisitos importantes.
Pelo fato de não movimentar o solo, o plantio direto provoca drásticas mudanças no comportamento das plantas daninhas. As espécies anuais e de folha larga tendem a diminuir mas algumas delas como o leiteiro e as brachiarias às vezes se tornam mais agressivas em plantio direto, principalmente em situações de pouca cobertura morta.
Antes de estabelecer o plantio direto, a eliminação das plantas daninhas deverá ser realizada através de métodos integrados (mecânicos e químicos), para maior eficácia de contrôle. Após o sistema ser implantado, deve-se manter sob controle constante as plantas daninhas que posteriormente venham a germinar e desenvolver durante o ciclo das culturas e, sobretudo, evitar a re-incidência de espécies daninhas perenes. Além do contrôle químico, capinas mecânicas e catação de plantas invasoras deverão ser realizadas sempre que necessário e possível.
Na fase de pós-semeadura, é necessária a eliminação de sementeiras ou de plantas daninhas que vierem a surgir na área, usando-se herbicidas pré-emergentes ou pós-emergentes seletivos.
Para o êxito do contrôle químico, as condições de clima e solo têm se mostrado muito importantes. O uso de herbicidas dessecantes ou pré-emergentes sistêmicos em solos muito sêcos e nos períodos de baixa umidade relativa do ar, via de regra deixa de proporcionar o objetivo almejado, pois nessa situação o processo de absorção será prejudicado. Quanto maior a umidade relativa do ar e o teor de umidade do solo, maior será a absorção e a eficácia desses produtos.
Outro fator de extrema importância para o contrôle químico é o estádio de desenvolvimento das plantas daninhas. No caso dos herbicidas dessecantes, o glifosato tem sido mais eficiente em qualquer estádio, enquanto outros dessecantes e os pré-emergentes controlam melhor as invasoras em seus estádios iniciais de desenvolvimento.
Para se obter a máxima eficiência dos herbicidas, será fundamental que os equipamentos de aplicação estejam em perfeitas condições de uso, sem vazamentos, bem calibrados e com distribuição uniforme dos bicos de pulverização.
CRONOGRAMA PARA INICIAR PLANTIO DIRETO NOS CERRADOS
Em 1994, pesquisadores reunidos em Goiania sugeriram um cronograma para iniciar plantio direto nos Cerrados (Revista PLANTIO DIRETO, 1995), fundamentado nas seguintes etapas:
(Cronograma de 2 anos com etapas sequenciais ao longo dos meses J-F-M-A-M-J-J-A-S-O-N-D. Fonte: Adaptado da Revista PLANTIO DIRETO, 1995.)
[0]: Tomada de decisão (racional, evitando ações emotivas). Participação em associações, consulta a técnicos e intercâmbio com produtores experientes em plantio direto.
[1]: Diagnóstico das áreas, planejamento de medidas corretivas e formulação de um programa de rotação de culturas.
[2]: Condicionamento do solo (sistematização, descompactação, correção da acidez e fertilidade, eliminação de ervas daninhas, etc.).
[3]: Exploração de culturas de verão (soja ou milho) ainda sob plantio convencional, conforme o programa de rotação de culturas planejado para a área.
[4]: Colheita da cultura de verão usando picador/distribuidor de palha. Dessecação em pré-semeadura da “safrinha” (Aguardar alguns dias para que a palhada “assente” e a sementeira germine). Se a área estiver limpa, dessecar apenas os carreadores e manchas.
[5]: Cultura de “safrinha” em plantio direto para geração de renda adicional e/ou formação de cobertura do solo, conforme o plano de rotação de culturas estabelecido. Colheita usando picador/distribuidor de palha.
[6]: Cultura de milheto para reforçar a cobertura morta e promover a reciclagem de nutrientes.
[7]: Dessecação do milheto e estabelecimento de cultura de verão em plantio direto (preferencialmente soja).
Também foi sugerido um esquema para formulação do plano de rotação de culturas, apresentado na Tabela 14.
Tabela 14. Esquema sugerido para planejamento de rotação de culturas.
Proporção da área Culturas de verão Época de plantio Culturas de “safrinha” Época de plantio 16% Soja precoce Até 20/OUT Milho, Sorgo, Milheto Até 20/FEV 50% Soja normal ou tardia NOVEMBRO Sorgo, Milheto, Aveia preta, Guandú, Crotalária, Nabo forrageiro MAR/ABR (plantio normal ou sobre-semeadura) 14% Milho precoce OUTUBRO Girassol, Sorgo, Milheto Até 10/MAR 20% Milho normal OUTUBRO Sorgo, Milheto, Nabo forrageiro MAR/ABR
Fonte: Adaptado da Revista PLANTIO DIRETO, 1995.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O emprêgo indiscriminado da mecanização, a falta de conscientização acêrca da necessidade de preservação da matéria orgânica, o uso desequilibrado e inadequado de agroquímicos, colocam em risco até mesmo áreas de solos tropicais mais produtivos e outrora de boa fertilidade.
O plantio direto combinado com rotação de culturas incluindo o uso de plantas de cobertura e a integração agricultura-pecuária, é o processo que mais se aproxima dos sistemas ecológicos naturais. Reduzindo o ritmo de abertura de áreas novas e preservando recursos para o futuro ao recuperar áreas agrícolas e pastagens degradadas, sua expansão é desejável tanto nas regiões tropicais como nas áreas sub-tropicais brasileiras.
Esse modo de gestão mais ecológica dos solos pela inclusão de biomassa renovável, ao integrar efeitos organo-biológicos e econômicos permite explorar, a custos mais baixos, todo o potencial hídrico e fotossintético das regiões tropicais e sub-tropicais, promovendo a melhor conservação dos recursos naturais em benefício de uma agricultura sustentável.
LITERATURA CITADA
Lopes, A. S. Solos sob “Cerrado”: Características, propriedades e manejo. Assoc. Bras. para Pesquisa da Potassa e do Fosfato. Piracicaba (SP), 1984 (2ª edição, 162 p.).
Mondardo, A. e Biscaia, R. C. M. Contrôle da erosão. In: Plantio direto no Estado do Paraná. IAPAR, Londrina (PR), 1981. p. 33-42 (Circ. IAPAR, 23).
Muzilli, O. Adubação fosfatada no Estado do Paraná. In: Oliveira, A. J. (ed.) Adubação fosfatada no Brasil. Brasília (DF), 1982 (EMBRAPA-DID, Doc. 21, pg. 69).
________. Influência do plantio direto comparado ao convencional sobre a fertilidade da camada arável do solo. Rev. Bras. Ci. Solo 7:95-102, 1983. Campinas (SP).
Oliveira, E. L.; Muzilli, O.; Igue, K.; Tornero, M. T. Avaliação da eficiência agronômica de fosfatos naturais. Rev. Bras. Ci. Solo 8:63-7, 1984. (Campinas, SP)
Parra, M. S. Dinâmica da matéria orgânica e de nutrientes num Latossolo Roxo distrófico submetido aos sistemas de plantio direto e convencional e diferentes sucessões de culturas. Univ. Fed. Viçosa (MG), 1984 (Tese de Mestrado).
Revista PLANTIO DIRETO. Pesquisadores fazem sugestões básicas. Aldeia Norte Editora Ltda., Passo Fundo (RS), Março de 1995 (Especial Cerrado, p. 4-7).
Seguy, L.; Bouzinac, S.; Trentini, A.; Cortês, N. A. Gestão da fertilidade dentro dos sistemas de cultura mecanizados nos Trópicos Úmidos: O caso das frentes pioneiras dos Cerrados e Florestas Úmidas do centro-norte do Estado de Mato Grosso. I- Gestão da fertilidade pelo sistema de culturas. 1995 (Relatório Técnico).
Souza, D. M. G. e Scolari, D. D. G. Correção da acidez em solos da região dos Cerrados. EMBRAPA-CPAC, Planaltina (DF), 1986. (EMBRAPA-CPAC, Com. Tec. 49, 6 p.).
________; Lobato, E. e Rein, T. A. Uso do gêsso agrícola nos solos de Cerrados. EMBRAPA-CPAC, Planaltina (DF), 1995. (Circ. Tec. EMBRAPA-CPAC nº 32, 20 p.)
________; ______. Correção do solo e adubação da cultura da soja. EMBRAPA-CPAC, Planaltina (DF), 1996 (Circ. Tec. EMBRAPA-CPAC nº 33, 30 p.)
(1) Roteiro de mini-curso apresentado no 5º Encontro Nacional de Plantio Direto na Palha. Goiânia (GO), 18-20/Junho/1996.
(2) Engenheiro Agrônomo, M. Sc. Consultor em manejo do solo e sistemas de produção. IAPAR, Caixa Postal 481. CEP 86001-970/LONDRINA, PR. Fax (043) 330-2521. E-mail: muzilli@sercomtel.com.br
Engenheiro Agrônomo, M. Sc. Consultor em manejo do solo e sistemas de produção. IAPAR, Caixa Postal 481. CEP 86001-970/LONDRINA, PR. Fax (043) 330-2521.