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Soja


A “morte silenciosa” da cultura nas lavouras do Sul do Brasil

Como conseqüência da severa estiagem ocorrida na 2004/2005 a preocupação de produtores e técnicos se voltou para a qualidade da semente utilizada na implantação das lavouras gaúchas na safra 2005/2006. Cuidados especiais foram tomados no momento da semeadura e, como resultado, as lavouras de forma geral tiveram excelente germinação, indicando boas produtividades. Porém, um novo problema foi constatado na fase de desenvolvimento vegetativo, caracterizado pela morte de plantas causada por patógenos que, aparentemente, não tiveram relação com a semente ou com o tombamento de plantas. Em algumas regiões esse problema foi verificado de forma mais intensa em cultivares recém lançadas no mercado.

A demanda por informações sobre a situação constatada em diversas lavouras de soja do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Sul do Paraná, motivou a realização de uma reunião promovida pela Revista Plantio Direto com o objetivo de debater com técnicos e pesquisadores a "morte silenciosa da soja". Participaram da reunião no dia 17 de janeiro, Erlei Melo Reis, Norimar D’Ávila Denardin, Roseana Stolte, Marivone Segalin e Rudinei Bogorni (UPF), Ricardo Trezzi Casa (Udesc), Orozimbo Silveira Carvalho (SNT/Embrapa), José Maurício Fernandes e Paulo Bertagnoli (Embrapa Trigo), Darci Antonio Lorenzon (Cotrijuí), Marta Casa Blum (Quanta), Sérgio Schneider (Coopermil), Dirceu Gassen e Flávio Gassen (Cooplantio), Ricardo Warken (Cotrijal), Moisés Ecco (Razera Agrícola), Eduardo Loureiro da Silva (Apassul), João Francisco Sartori e Giovani Benin (Fundação Pró-Sementes), Celi Webber Mattei e Edi Verner Jan, entre outros participantes.

Caracterização do problema

Na safra de 2005/2006 foi constatada a morte de plantas de soja a partir da fase de desenvolvimento V2 e V3, diferente da morte de plântulas na germinação ou de tombamento. As plantas com três folhas apresentaram sintomas de amarelecimento e morte. Os sintomas se caracterizam pelo menor desenvolvimento de raízes secundárias e morte a partir da raiz principal e da base da planta.

Esses sintomas e características de morte de plantas foram considerados diferentes dos causados pela podridão-negra da base da planta (Phytophthora sp.), que pode ser encontrada em qualquer estádio de desenvolvimento da soja. O sintoma na haste inicia com lesões do tipo tecido encharcado, que se tornam negras, com as folhas amareladas e murchas, levando a morte da planta.

No geral, a morte das plantas de soja ocorreu a partir da fase V2 e V3, iniciando com plantas isoladas, outras vezes em manchas e até em 100% das áreas. O problema foi relatado no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Sul do Paraná, e ocorreu de forma generalizada na cultivar BRS 244 RR e, em outras, com menor severidade, como CD 212 RR, CD 213 RR, BRS 242 RR, BRS 245 RR e Charrua.

Abrindo a reunião o pesquisador Ricardo Trezzi Casa apresentou aos participantes as principais doenças transmitidas pelas sementes e as que causam tombamento e plântulas, destacando que nenhuma delas poderia ser a responsável pela morte de plantas como as que estavam sendo constatadas nas lavouras até aquele momento. Casa observou a morte de plantas de soja em lavouras onde não ocorreu estresse hídrico ou excesso de umidade, em áreas de monocultura e também com rotação de culturas. Por isso definiu o problema como novo e carente de estudos mais apurados.

Levantamentos realizados em lavouras com 48% das plantas no estádio V4, murchas e mortas, tiveram 69 % com fungos do gênero Fusarium. Porém, ainda não se pode afirmar com segurança que esse foi o agente causador da morte das plantas ou se apenas estava se desenvolvendo nas partes mortas do vegetal. Por meio da coleta de informações e relatos dos participantes, destacou-se que o problema ocorreu de forma mais intensa em áreas com excesso de umidade ou estresse hídrico, monocultura de soja e em solos com maior adensamento.

O engenheiro-agrônomo Flávio Gassen apresentou dados sobre compactação de solos e danos severos em lavouras extensivas de algumas cultivares, com sintomas em plantas causados pelo fungo Fusarium tucumaniae. Segundo os dados apresentados por Gassen, os danos maiores ocorreram em áreas com maior compactação, porém, cultivares de soja transgênica argentinas apresentavam desenvolvimento normal, nas mesmas condições de solo (Gráfico 1). Destacou-se ainda que algumas cultivares apresentavam 100% das plantas com sintomas de doenças radiculares de colmo, avaliadas na fase de colheita. Em algumas lavouras também ocorreram sintomas característicos de podridão-negra da base de plantas (Phytophthora sp.).

A compactação de solos foi um assunto abordado como preocupação em plantio direto. Porém, foi descartada como principal causa da morte das plantas, pois diferentes cultivares de soja nas mesmas condições de solo tiveram desenvolvimento normal (Figura 2). Com isso se relacionou a doença também às características genéticas de algumas cultivares.

Já a monocultura de soja foi um dos fatores mais relacionados com a severidade da morte de plantas nessa safra, pois em lavouras que tiveram milho em rotação, o problema ocorreu com menor severidade. A informação fornecida pelos profissionais ligados à assistência técnica, participantes da reunião, que em lavouras onde havia sido cultivado o milho em dois anos anteriores o problema com a morte de plantas de soja foi muitas vezes menor do que em áreas de monocultura, reforça a ligação da situação observada nas lavouras com a ausência de rotação de culturas.


Nos cerrados e no norte do Paraná não houve constatação da morte de plantas de soja como foi descrito nas lavouras do Sul do Brasil.

Sugestões registradas

Entre os fatores para a ocorrência da morte de plantas de soja foram destacados:

1. Características de suscetibilidade genética de cultivares de soja, como a BRS 244 e outras.

2. Relação com a compactação de solos, semeadura com solo muito úmido e desequilíbrio de nutrientes.

3. Maior severidade em áreas de monocultura de soja

4. O agente causal da morte de plantas é de origem biológica, porém ainda indeterminado.

5. A morte das plantas ocorre depois do estádio V2 e V3, depois da fase considerada de morte por tombamento ou por doenças transmitidas pelas sementes.

 Foram destacadas algumas ações para diminuir a ocorrência do problema para a safra de 2006/07, como:

1. Determinar o agente causador da morte das plantas. As entidades de pesquisa presentes na reunião se colocaram a disposição para receber plantas de soja e determinar o agente causador.

2. Quantificar área atacada por cultivar de soja.

3. Sugerir a inclusão nas recomendações da pesquisa, as características de maior ou menor suscetibilidade de cultivares de soja à morte de plantas.

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