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Cases de Sucesso


Sucessão familiar como base do novo modelo de gestão

A Estância da Formosa é fruto da coragem e espírito empreendedor de descendentes de imigrantes italianos que desenvolviam atividades de engenho de arroz, comércio e olaria em Restinga Seca, RS. Alberto Giuliani e seus irmãos, Arnaldo, Baptista e João, assumiram novos desafios em São Gabriel/RS, no início da década de 1960. Já naquela época a visão empreendedora dos Giuliani era comprovada, pois o Engenho da família em Restinga Seca está registrado como o primeiro a exportar arroz no Brasil.

Depois de tomarem conhecimento de que uma extensiva área de terras localizada às margens do Rio Santa Maria e do Rio Jaguari estava sendo ofertada, os irmãos Giuliani resolveram conhecer a região.

Mesmo diante de condições adversas os Giuliani compraram as áreas de várzea que ninguém queria. Os recursos para aquisição da Formosa vieram da venda do engenho em Restinga Seca e do arrendamento para terceiros de parte das terras da própria fazenda para o cultivo de arroz.

Sergio Giuliani Filho, Diretor Geral da Formosa Agropecuária e neto de Alberto Giuliani, conta que na época em que seu avô e os irmãos adquiram as terras em São Gabriel enfrentaram muitas dificuldades, segundo ele, até para o básico era necessário criatividade. "Para fazer o fogo e preparar alimentos, por exemplo, se cortava e secava o caraguatá, muito abundante na época. Havia dificuldade de conseguir lenha naquelas áreas", relata.

Ainda hoje, profissionais que trabalham com projetos de irrigação e drenagem elogiam a qualidade do trabalho e a estrutura montada na área da Formosa há quase 50 anos.

Após alguns anos, Alberto e seus irmãos desfizeram a parceria. Na partilha Alberto ficou com 50% da Formosa e os outros 50% ficou para seu irmão João. Arnaldo e Baptista foram para Restinga Seca e Cachoeira do Sul.

Alberto Giuliani e Raquel Magoga Giuliani tiveram cinco filhos, dois deles, morreram ainda jovens vítimas de acidentes. Os outros três, Sergio Augusto, Paulo Fernando e João Roberto continuaram conduzindo as atividades na Formosa junto com o pai. Alberto Giuliani mantinha uma gestão austera e tradicional da propriedade com grande habilidade em negócios ligados a agropecuária e a criação de cavalos da raça puro sangue inglês.

Após sua morte, aos 65 anos, os filhos deram continuidade ao trabalho do pai, dividindo a execução das atividades da propriedade. A a produção de bovinos era a principal atividade da fazenda, mas a falta de pastagens nativas foi à limitação para desenvolver a pecuária. Em uma das tentativas de melhorar a pastagem foi feita com a semeadura de capim anoni, na época uma opção resistente ao pisoteio do gado, mas que não atendeu as expectativas para a formação de pasto e mais tarde tornou-se planta daninha.

Em 1992, Sergio propôs aos irmãos a dissolução da sociedade e assumiu junto com sua esposa Núbia Regina Sangoi Giuliani e os Três filhos Daniela Sangoi Giuliani, Alberto Giuliani Neto e Sergio Augusto Giuliani Filho, na época com 16 anos e o único dos filhos a morar e trabalhar na Fazenda com os pais. Nessa fase Sergio chegou a conduzir três mil hectares arrendados de terceiros para a pecuária com o objetivo de melhorar - pois na partilha com os irmãos ficara com pior área infestada de arroz vermelho - e direcionar as áreas que recebera basicamente para agricultura.

 
Sérginho e Betinho Giuliani, administram com a irmã Daniela a Formosa Agropecuária em São Gabriel, RS.

No início a lavoura era conduzida em sistema convencional, sob intenso preparo de solo, com sucessivas arações e gradagens para controle de plantas daninhas, especialmente o arroz-vermelho. As primeiras arações eram feitas em maio, depois da co-lheita do arroz que acontecia em abril. Em agosto era feita mais uma ou duas preparações de solo com arado ou grade, de acordo com a necessidade. A semeadura do arroz iniciava em outubro e terminava na semana do natal. Em alguns anos a semeadura se estendia até janeiro.

Neste momento começou uma reestruturação do negócio. Havia grande otimismo diante da alternativa de plantio de arroz pré-germinado visando o controle do arroz-vermelho e permitindo a colheita mais cedo, favorecendo a obtenção de melhores pre-ços para a produção.

As tentativas de semeadura do pré-germinado, implantadas por vizinhos próximos, não obtiveram sucesso. Já no primeiro plantio o não estabelecimento das lavouras foi causado pelo dano da presença abundante de caramujos e marrecos nas áreas.

Apesar dos investimentos e do apoio de pessoas com experiência no assunto, as condições muito diferentes da fauna nativa da região inviabilizaram a adoção dessa prática de semeadura de arroz.

 
Daniela Giuliani Diretora Financeira da Formosa Agropecuária.

"Como acompanhamos o insucesso no sistema pré-germinado e precisávamos de uma nova tecnologia para controlar o arroz vermelho e, ao mesmo tempo, plantar mais cedo, introduzimos o sistema de plantio semi-direto, preparando-se as áreas no outono e dessecando na primavera, fazendo o plantio antecipado. Para viabilizar este processo, foram adquiridas máquinas para plantio direto, até então pouco utilizadas na região no plantio do arroz", lembra Serginho.

 
Sergio e Núbia Giuliani atuam como Conselheiros de Administração da propriedade.

Nova modelo de gestão

Em 2003, Aberto (Betinho), formado em Medicina Veterinária e filho mais novo de Sergio, foi morar na Estância para conduzir as atividades ao lado dos pais. Um pouco mais tarde a filha Daniela, também integrou o grupo para administrar os negócios da família.

Porém, como é comum nas empresas familiares começaram a ocorrer problemas relacionados à distribuição de responsabilidades e cumprimento das tarefas. O pai Sergio Giuliani tinha um sistema de gestão tradicional focado no "fazer", Era uma gestão de várias pessoas com pouco planejamento.

Depois de muita conversa, os filhos convenceram o pai de que havia necessidade de organizar um sistema de gestão diferenciado, seguindo as novas necessidades e tendências do agronegócio. Considerando as experiências enfrentadas nas gerações anteriores, as dificuldades dos sistemas de gestão familiar e a necessidade de estruturar os negócios da Formosa de forma ampla, foi decidido que no processo de sucessão familiar cada um teria um cargo na administração da propriedade onde Sergio Giuliani Filho seria o Diretor Geral, Alberto Giuliani Neto o Diretor de Produção e Daniela Giuliani, Diretora Financeira. Os pais Sergio e Núbia atuam como Conselheiros de Administração da propriedade.

Esse processo teve início com o incentivo da Filial Cooplantio de São Gabriel, que proporcionou a participação da Dona Núbia e o filho Alberto em um treinamento do Programa de Qualidade Total Rural do SEBRAE. "Ao ingressar em um programa assim é importantíssimo que alguém assuma a implantação, pois apenas fazer o curso e saber como precisa ser feito não é suficiente. É necessário que alguém assuma o processo de implementação", defende Betinho.

Segundo Marcelo Caggiani, da Cooplantio de São Gabriel, um incentivador da participação dos Giuliani no QT Rural, o Programa desperta o agricultor para a necessidade de uma gestão mais organizada e eficiente. Mas, infelizmente poucos, entre 10 e 20%, no máximo, seguem com o Programa e a Formosa é um caso de sucesso na região.

 
Os irmãos Giuliani com integrantes da equipe Cooplantio em São Gabriel.

Na Formosa o primeiro passo foi a contratação de uma pessoa para coordenar a implementação do Programa. A propriedade contou com a consultoria de um profissional durante um ano e oito meses, realizando reuniões semanais para a avaliação e ajustes dos processos de reestruturação. "Com a presença da consultoria as reuniões se tornaram muito mais produtivas. Percebemos que primeiro é necessário "organizar a casa", que é à base do negócio e a origem de todos os recursos. Também começaram os funcionários a participar do programa relatando aquilo que consideravam problema ou entraves para o bom andamento das atividades. Desde situações bastante simples como a dificuldade em encontrar uma ferramenta, por exemplo, eram citadas como causa de atrasos e desestímulo na execução do trabalho. Para os funcionários, a perda de tempo pela desorganização desmotivava", destaca Serginho.

Considerando a distância para deslocamento, pois a fazenda fica a 55 quilômetros de São Gabriel, o processo de organização incluiu a montagem de um escritório na fazenda para dar suporte ao que já funcionava na cidade agilizando a alimentação de dados dos programas administrativos. Também foram montados setores de almoxarifado, estoque de peças e oficina. Foi elaborado um organograma determinando funções para administradores e funcionários e introduzido o programa 5S nos processos. Outro aspecto considerado fundamental para eficiência de todas as atividades é o conforto dos funcionários. Para Serginho, os colaboradores precisam gostar do seu local de trabalho e uma das medidas adotadas foi a reforma das moradias e melhorias necessárias de infra-estrutura e lazer, refeitório, alojamento para funcionários solteiros, além da escola e creche para as crianças na própria sede.

"A informação, a comunicação e a distribuição de funções e responsabilidades adotadas permitem que as atividades continuem, normalmente, mesmo na ausência dos diretores. Com isso fica cada vez mais evidente a necessidade de pessoas que aceitem e entendam os novos processos de gerenciamento da propriedade e isso requer muito treinamento e reuniões periódicas."

A admissão de mulheres para a função de controle de almoxarifado, estoque de peças e auxiliar administrativo foi um importante fator de organização e disciplina das atividades. "Com a presença feminina a organização, as cobranças e os resultados se tornaram mais evidentes", afirma Serginho.

Sergio relata que poucos funcionários não se adaptaram a nova forma de gestão e sistema de organização e controle da Formosa. "Como eles preferiam o modelo tradicional, acabaram deixando a propriedade, buscando outras oportunidades".

Outro fator que se tornou indispensável ao processo de Gestão foi o apoio de serviços de seleção por equipe especializada em RH. Na Formosa, a contratação de pessoas e a distribuição de funções é feita considerando os perfis psicológicos, hábitos e comportamentos individuais.

Outro aspecto importante no processo de reestruturação administrativa foi a troca informações e experiências com outras propriedades que possuíam gestão eficiente do negócio e que já adotavam métodos sistemáticos, melhores processos de gestão e procedimentos de operação mais eficazes.

A continuidade de intercâmbio, as trocas de idéias entre as propriedades e a ajuda mútua constituem-se bases na mudança, organização e gestão dos processos na Formosa, pois levantam demandas, dificuldades e oportunidades, transformando-as em propostas que resultem em ações que visem novas melhorias. Entre as tecnologias que definiram as mudanças na Formosa se destacam:

• A introdução do arroz CL, em 2003. Essa tecnologia foi um importante passo para o controle de arroz vermelho, principal planta daninha.

• Manejo da grama-boiadeira, combinando preparo de solo e uso seqüencial de herbicidas.

• Soja na várzea em 2005/2006, para rotação com arroz, visando o controle de plantas daninhas e a geração de renda na propriedade.

• Produção de sementes de forageiras, combinadas com o pastejo e engorda de gado.

• Produção de feno de palha de arroz.

• Agricultura de precisão em arroz a partir de 2009 com excelentes resultados.

• Aplicação de fertilizantes a taxa variável, de acordo com as necessidades de cada lote.

• Semente de arroz híbrido em cinco safras

• Introduzir e aumentar a área com milho no sistema de produção.

Os frutos das mudanças já estão sendo colhidos, pois com a reestruturação da gestão a propriedade teve um aumento de 40% na renda bruta e uma redução de 15% dos custos operacionais. Para os irmãos Giuliani, a diversificação de culturas em ambiente de várzea e eficiência nas atividades teve papel importante na estabilidade de renda da propriedade. Outro item que se destaca é o planejamento em todas as etapas. A produção e o financeiro, por exemplo, tem planejamento anual e estão projetados com orçamentos preliminares até 2025.

Diversificação na várzea

Foi em 2001 que iniciou a semeadura de soja na Formosa. No primeiro ano foram semeados 900 hectares de soja RR em áreas de coxilha. No segundo ano foram semeados 2200 hectares incluindo áreas arrendadas. De 2002 a 2005 houve forte déficit hídrico e prejuízos na produção de soja. "Podemos dizer que uma safra teve renda positiva, outra com margem de contribuição equilibrada e dois anos com prejuízos, inviabilizando o negócio", conta Betinho.

Com base em estudos de dados meteorológicos e freqüência de estiagens no Uruguai e Sul do Rio Grande do Sul, foi constatado que a cada cinco anos na Formosa, um era de boas chuvas, outro normal e três com estiagem. Por isso, com a probabilidade de 20% de ano com chuvas, foi decidido investir na soja em várzea, com o apoio do Engenheiro-Agrônomo Gaspar Santana, da Cooplantio. A decisão foi tomada com base na necessidade de controle de arroz vermelho, pela falta de água para o arroz, e pela oportunidade de gerar renda. "No primeiro ano foram cultivados 166 ha com densidade de semeadura de 28 sementes por metro, devido às dificuldades encontradas no plantio em várzea, onde se obteve um estande de 266.000 plantas/ha. Os resultados foram positivos, pois a colheita foi de 2088 kg/ha.

 
A soja na várzea é uma realidade na Formosa 

 
Feno de palha de arroz foi uma alternativa para alimentar o gado no vazio forrageiro e que hoje proporciona renda extra

Na safra 2011/2012 foram cultivados 1245 hectares com a leguminosa. Com a experiência adquirida no plantio de soja na várzea foram plantados 28 hectares de milho. "A cultura do milho está sendo introduzida como uma alternativa de rotação, para o es-calonamento de atividades no sistema de produção e no manejo de plantas daninhas de difícil controle como o arroz-vermelho e o capim arroz, que apresentam populações resistentes a herbicidas", explica Betinho.

Em 2011, devido aos cinco meses de vazio forrageiro no sistema de pecuária da região e pela conseqüente necessidade de suplementar a alimentação dos animais, foi adquirida uma enfardadeira para fazer feno de palha de arroz. "Pecuarista sem pasto é como arrozeiro sem água" brinca Alberto Giuliani. A máquina tinha um custo alto para uso apenas para atender a necessidade de feno do rebanho da Formosa, por isso os irmãos resolveram vender feno em fardos. A comercialização do feno de arroz teve boa aceitação, viabilizando a aquisição de uma segunda enfardadeira. Na propriedade são cultivadas pastagens de azevém para recria e terminação no inverno e de capim sudão no verão.

 

Produtividade de arroz na Formosa Agropecuária. Valores em verde indicam o início do Projeto 10.

 
Produtividade da soja na Formosa Agropecuária. Valores em preto marcam o início da soja na várzea

De acordo com a Família Giuliani, para alcançar os objetivos de forma ampla é importante que as atitudes individuais e do grupo sejam avaliadas e renovadas a cada dia. O estabelecimento de metas e a prospecção de novos projetos, também são fatores importantes para a renovação do negócio. Para eles, em processos de reestruturação como o da Formosa, toda ajuda é bem-vinda e as parcerias externas são muito importantes. "Não podemos parar no tempo, temos que evoluir junto com ele" reforçam.

"Está claro que as mudanças que ocorrem na Formosa são contínuas, com acertos e erros, pois não existe uma fórmula universal, isso porque cada caso, cada propriedade, enfrenta uma realidade diferente ao ser adaptada as novas tecnologias e modelos de gestão. Quando nos perguntam o que teríamos feito diferente, respondemos com convicção que sempre tomamos a decisão que nos pareceu mais adequada para o momento e enfrentamos as consequências disso. Dúvidas sempre existirão. Erramos algumas vezes, sem dúvida, e ao longo de nossa história passamos por momentos muito difíceis, mas nunca desistimos. A palavra chave é persistência", concluem.

 

Publicado na Revista Plantio Direto, edição 127, janeiro/fevereiro de 2012. 

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