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Soja


Sintomas e danos de metsulfuron-methyl em soja

Mario Antonio Bianchi
Pesquisador da CCGL TEC/Fundacep, Cruz Alta-RS
mariobianchi@fundacep.com.br
Trabalho originalmente publicado no Informativo Fundacep, Outubro/2009.

 

 Sintomas de metsulfuron-methyl em soja, 12 dias depois da aplicação em pós-emergência das plantas.

O herbicida metsulfuron-methyl pertence ao grupo químico das sulfoniluréias e inibe a ação da enzima acetolactato sintate (ALS), a qual se encontra na rota da síntese dos aminoácidos essenciais valina, leucina e isoleucina. Sem esses aminoácidos a síntese de proteínas não ocorre e a planta morre.

No Brasil, os produtos formulados com o ingrediente ativo metsulfuron-methyl que possuem registro no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) são os seguintes: Ally, Nufuron, Talent, Tarzan e Wolf, sendo que todas essas marcas comerciais contém 60% de ingrediente ativo. O registro desses produtos é para uso em pré-semeadura (dessecação) no plantio direto de trigo, na dose de 4 g/ha, e em pós-emergência da cultura e das plantas daninhas, nas culturas de arroz, trigo, triticale, aveia, cevada, nas doses de 3,3 a 6,6 g/ha; em pastagens, nas doses de 6,6 a 13,3 g/ha; e em cana-de-açúcar, na dose de 30 g/ha. Ressalta-se que o metsulfuron-methyl não tem registro para uso na cultura da soja, portanto existe probabilidade de ocorrer dano a cultura em função do seu uso antes da semeadura (dessecação no plantio direto) ou após a semeadura da soja.

Os herbicidas inibidores da enzima ALS são sistêmicos, com translocação pelo xilema e floema, podem ser aplicados em pré ou pós-emergência com vias de absorção radicular e foliar. Esses produtos acumulam-se nos meristemas onde causam os primeiros sintomas de fitotoxicidade.

Sintomas de fitotoxicidade de herbicidas inibidores de ALS

Os sintomas de fitotoxicidade de herbicidas inibidores da enzima ALS foram resumidos conforme descrição de vários autores (Leite et al., 1998; Rodrigues e Almeida, 1998; Trezzi e Vidal, 2001; Roman et al., 2007). O sintoma típico de herbicidas que inibem a síntese de aminoácidos é o amarelecimento das partes mais jovens da planta. Inicialmente as folhas jovens tornam-se cloróticas, após murcham, necrosam e morrem; sendo estes efeitos espalhados para o restante da planta numa etapa seguinte, podendo aparecer pigmentos vermelhos ou roxos (antocianina), principalmente nas nervuras da face abaxial das folhas. Também é relatada inibição da divisão celular e elongação das células de raízes e de folhas jovens logo após a aplicação do herbicida. Folhas enrugadas e plantas com estatura reduzida são sintomas freqüentes. Além disso, em soja ocorre a necrose (cor amarronzada) do nó que liga o pecíolo foliar ao caule, seguido do surgimento de cor marrom na medula. Os sintomas mais fortes incluem a morte das gemas apicais, com brotações das gemas laterais e a inibição do crescimento radicular.

Plantas sensíveis aos herbicidas inibidores da enzima ALS tem seu crescimento retardado ou inibido rapidamente (poucas horas), porém os sintomas físicos podem levar alguns dias para aparecer e a morte das plantas levar algumas semanas (± três).

Comportamento no solo

O metsulfuron-methyl possui baixa adsorção na argila e alta adsorção na matéria orgânica do solo (Vencil, 2002). É um produto cuja perda por volatilização, degradação por luz (fotodegradação) e degradação por microorganismos, é insignificante em nível de campo. A degradação química reduz conforme aumenta o pH do solo, ou seja, é alta e rápida a pH baixo e baixa a pH alto. A meia-vida do herbicida depende principalmente do pH do solo, mas a taxa de degradação pode ser acelerada com altas temperaturas e alto teor de umidade do solo. A mobilidade no perfil do solo (lixiviação) é baixa em pH menor do que 6. Considerando o processo de degradação no solo, o metsulfuron-methyl possui moderado residual com uma meia-vida típica de quatro semanas, mas podendo variar de uma a seis semanas.

Danos de metsulfuron-methyl à soja

Como exemplo de danos causados a soja, cita-se diferenças entre os cultivares quanto a tolerância aos herbicidas inibidores de ALS aplicados em plantas de soja com três folhas trifolioladas, sendo o CD 201 mais tolerante que o Ocepar 14 (Tabela 1). Quanto aos herbicidas, o CD 201 em relação ao Ocepar 14, foi 10,25 vezes mais tolerante ao metsulfuron-methyl e 3,25 vezes mais tolerante ao nicosulfuron. Esses resultados demonstram que os herbicidas causam supressão do crescimento de soja, já que a dose apresentada causa redução de 50% da matéria seca da planta, e que há diferenças entre os cultivares quanto à reação aos produtos.

Tabela 1. Dose (g/ha) para reduzir a produção de matéria seca em 50% (índice de inibição) e fator de resistência (índice de inibição CD201/ índice de inibição de Ocepar 14) de herbicidas inibidores da enzima ALS em dois cultivares de soja.

Trabalho conduzido na Fundacep com 15 cultivares de soja não transgênica, indicou diferenças entre cultivares quanto a redução de produtividade, decorrente da aplicação de metsulfuron-methyl (4,8g/ha) sobre plantas de soja com três folhas trifolioladas (Figura 1). As perdas em onze cultivares foram superiores a 6% e em seis cultivares superaram o patamar de 20%.

Figura 1. Redução de produtividade de grãos em 15 cultivares de soja em decorrência da aplicação de metsulfuron-methyl (4,8 g/ha) sobre plantas com três folhas trifolioladas. Fundacep, Cruz Alta-RS. Safra 1995/96. (Fonte: M.A .Bianchi, dados não publicados).

Com o aumento rápido da área em que a buva (Conyza bonariensis) é problema, tanto devido a dificuldade de controle em função do tamanho da planta como devido a resistência de biótipos ao glifosato, o metsulfuron-methyl se constitui em alternativa eficaz no controle desta espécie. Contudo, dependendo do intervalo entre a aplicação e a semeadura de culturas, poderão ocorrer danos a culturas sensíveis como a soja.

Ilustrações dos sintomas de herbicidas a base de metsulfuron-methyl

1) Metsulfuron-methyl aplicado ao solo logo antes da semeadura da soja, cultivar Fundacep 53RR. Safra 2009/10. Fotos: Mario A. Bianchi

A) Planta normal (esquerda) e planta com o crescimento suprimido (esquerda) devido a aplicação metsulfuron-methyl a 2,4 g/ha
B) Variações nos sintomas de fitotoxicidade de metsulfuron-methyl sobre a emergência da soja (comparar com a planta normal na ilustração A).

Os danos a cultura são variáveis em função do tipo de solo (arenoso/argiloso), teor de matéria orgânica, pH do solo, quantidade de chuvas e do cultivar utilizado. A interação desses fatores irá influenciar, ampliando ou reduzindo, o intervalo entre a aplicação do metsulfuron-methyl e a semeadura da soja. Mesmo que esse produto fosse registrado no MAPA para uso em soja, o grande número de fatores que interferem na sua seletividade à cultura dificultaria uma recomendação segura.

2) Metsulfuron-methyl aplicado sobre plantas de soja. Safra 2007/08. (Fotos: Mario A. Bianchi)

Amarelecimento entre as nervuras (A), enrrugamento dos folíolos (B), arroxeamento de nervuras e pedúnculos dos folíolos (C,D).

Portanto, em função da alta probabilidade de ocorrer danos a soja e por não possuir registro para uso nessa cultura, recomenda-se cautela no uso do metsulfuron-methyl em lavouras cultivadas com trigo e pastagens durante a estação fria, procurando-se seguir as indicações técnicas quanto à dose e momento de aplicação.

Literatura citada

LEITE, C.R.F.; ALMEIDA, J.C.V.de; PRETE, C.E.C. Aspectos fisiológicos, bioquímicos e agronômicos dos herbicidas inibidores da enzima ALS (AHAS). Londrina: Célio Roberto Ferreira Leite, José Carlos Vieira de Almeida e Cássio Egídio C. Prete, 1998. 68p.

MEROTTO JR., A.; VIDAL, R.A.; FLECK, N.G. Tolerância da cultivar de soja Coodetec 201 aos herbicidas inibidores de ALS. Planta Daninha, Londrina, v.18, n.1, p.93-102. 2000.

ROMAN, E.S. et.al. Como funcionam os herbicidas: da biologia à aplicação. Passo Fundo: Gráfica Editora Berthier, 2007. 160p.

VENCILL, W.K. Herbicide Handbook. Lawrence: Weed Science Society of America, 2007. 493p.

 

Revista Plantio Direto, edição 114, novembro/dezembro de 2009. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS

Este artigo está na versão completa.
 
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