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Colheita de grãos: perdas ainda preocupam

A colheita constitui uma importante etapa na produção de grãos em todas as regiões agrícolas brasileiras e as perdas sejam qualitativas ou quantitativas preocupam devido ao volume e também pela facilidade com que ocorrem. Na maioria das vezes, cuidados simples, manutenções periódicas e treinamento dos recursos humanos, podem reduzir consideravelmente o volume de grãos que ficam nas lavouras a cada safra. Em constantes viagens o Professor e Instrutor do Senar, Plínio Pacheco Pinheiro tem encontrado diferentes realidades que são enfrentadas pelos produtores durante a colheita. Para ele é preciso mudar a forma de pensar, assumindo que retirar o grão maduro da lavoura também requer planejamento.

Avaliando a colheita das princi-pais culturas no sul do Brasil e região Centro Oeste durante a safra 2005/2006, Plínio Pinheiro constatou estabilidade nas perdas quando considerado o volume, mesmo assim, para ele, os índices continuam preocupantes. "Pelas condições que o produtor tem para a fazer o plantio e a colheita, a implantação da cultura, a genética, o Sistema Plantio Direto, a biotecnologia e, principalmente, a evolução tecnológica das máquinas, não podemos aceitar perdas elevadas", comenta.

Em algumas regiões estabilizaram-se as perdas e, em outras, houve aumento nas culturas de milho e soja, que são mais expressivas no desperdício que ocorre no momento de recolher o grão na lavoura. Para o Professor Pinheiro, as perdas na cultura da soja acontecem por vários fatores que vão desde a condição da lavoura até as condições da máquina. Já no milho, usando equipamentos adequados para a cultura as perdas só ocorrem por uso inadequado da máquina. "Na soja os problemas continuam praticamente os mesmos, pois a conservação dos componentes do sistema industrial da colheitadeira: corte, trilha, separação, limpeza e transporte do grão, influenciam diretamente no volume de perdas".

A qualidade no processo de colheita é conseqüência de uma série de fatores: manutenção, tipo da máquina, condição da lavoura, capacidade do operador e até a topografia do solo. "No caso do milho, muitas máquinas tornaram-se limitadas pelas altas produtividades. Ainda temos lavouras sendo colhidas com máquinas de 20 ou 30 anos, que trabalham com velocidade incompatível com a produção. Como exemplo podem ser citadas máquinas fabricadas há mais de 20 anos, quando a produtividade de milho era de 60-70 sacos/ha, hoje essa mesma máquina precisa colher acima de 150 sacos/ha. Por isso a velocidade que ela trabalha e suas regulagens devem ser diferenciadas. É necessário, portanto, cuidado especial do operador em relação as regulagens".

Segundo Pinheiro, o produtor de qualquer região do país tem necessidade de buscar informação, formar grupos, discutir e trocar idéias. Para ele, assim como se discute tratos culturais, adubação, tecnologia de plantio é importante discutir a tecnologia de colheita, pois nesse processo, em alguns casos, a perda é maior que aquelas ocasionadas por danos de pragas e doenças. "O grão pronto também deve ser protegido, porque é dinheiro vivo", exemplifica.

Para diminuir as perdas o primeiro passo é a conscientização de que a colheita é uma das atividades mais importantes da agricultura. Nela estão envolvidos o capital máquina e o capital cultura. "Através da consciência que todas as pessoas atuantes no processo de colheita precisam conhecer a importância da manutenção, das regulagens e do funcionamento operacional da máquina, será possível chegar a um nível aceitável de perdas".


"Conheço muitos produtores do Rio Grande do Sul e também de outras regiões brasileiras que já tem essa mentalidade. A cada ano, antes de começar a colheita, reúnem a equipe para treinamentos e preparação das máquinas para o trabalho". Para Pinheiro, reduzir as perdas somente pelas regulagens é uma forma de pensar equivocada, que precisa ser abandonada. "Sempre é bom lembrar que vários outros fatores devem ser pensados desde a implantação da cultura, os tratos culturais, preparo da máquina, treinamento do pessoal e finalmente a colheita".

Para Plínio Pinheiro, a velocidade excessiva durante a semeadura, falhas na manutenção da semeadora e umidade inadequada para o plantio, resultam na germinação e/ou emergência irregular, isso compromete a colheita devido a maturação desuniforme, pois a máquina não pode fazer seleção. "Se tivermos na lavoura umidade e maturação diferentes a máquina vai deixar de debulhar e vai quebrar grãos ao mesmo tempo", explica Pinheiro.

Uma situação comum de perda, que é conseqüência do plantio, são as falhas existentes na lavoura. "Quando a máquina faz o corte, outra planta deveria sustentar (escorar) aquela que será recolhida pela máquina, quando não existe esse suporte, partes da planta cortada não são recolhidas, sendo jogadas ao solo. Por isso podemos considerar o plantio uma das primeiras regulagens da colheitadeira". Pinheiro encontra com certa freqüência lavouras com perdas acentuadas causadas pelo rastro do pulverizador, pois a planta amassada durante a pulverização não será recolhida no momento da colheita. "Se a aplicação fosse planejada no sentido transversal ao da colheita o corte e o recolhimento dessa planta seria favorecido".

Na cultura da soja o maior problema está no sistema de captação e corte (plataforma de corte), através do molinete e do sistema de navalha. Folgas, embuchamento, má condição dos arames do pente, e o mau estado de conservação das navalhas, são comuns. "Muitas vezes o produtor troca a navalha da colheitadeira por entender que ela esteja desgastada e essa não é a causa das perdas. Os dedos da, o facão e régua da navalha, além das próprias navalhas, permitem o "mascamento" que faz a planta bater para os lados causando debulha, o grão não entra na máquina ficando sobre o solo".


Para melhorar o desempenho da colheitadeira, Pinheiro defende a realização das regulagens e a conservação dos componentes pela ordem com que aparecem na máquina. Segundo ele, o molinete é o principal componente originador de perdas, o segundo é o sistema de corte e em terceiro, o saca-palha e as peneiras. "Vemos com freqüência o produtor e/ou o operador preocupados em regular peneira e ar, pois é ali que eles visualizam as perdas, mas na maioria das vezes a causa não está nesse setor e sim nos componentes que processam a cultura na fase anterior".

O professor explica que até chegar ao sistema de trilha existe um só produto (a planta) a partir da trilha, do côncavo e do cilindro, a planta se transforma em dois produtos (grão e palha), seguindo caminhos específicos. O caminho do grão é o côncavo, bandejão e peneira. O caminho da palha é o saca-palha e sair fora da máquina. O descuido com a regulagem desses componentes gera sobrecarga em alguns setores, fazendo com que outros ajustes não tenham o resultado esperado. Se trilhar demais, a palha vai descer para as peneiras. Para que possa limpar as peneiras o operador terá que trabalhar com maior volume de ar, nessa situação o ar não desce pelas peneiras, vai misturar o grão novamente com a palha e jogá-lo fora da máquina. Esse, segundo Pinheiro, é um exemplo típico onde a perda foi pelas peneiras e/ou pela saca-palhas, mas o problema não estava nesse setor. "Por isso considero importante conhecer a forma como a colheitadeira trabalha, assim se percebe que a trilha merece maior cuidado, porque esse componente limita a máquina ou dá condições para que ela realize o trabalho de forma eficiente".


Com larga experiência no assunto, Pinheiro defende que a manutenção da colheitadeira seja pensada como um todo, pois muitos componentes não são visíveis pela parte externa da máquina, como a barra de cilindro, por exemplo. "Encontramos com freqüência máquinas com a barra do cilindro desgastada, e para realizar a trilha nessas condições é necessário aumentar a rotação do cilindro, isso resulta no aumento do consumo de combustível e exigência do motor, provocando quebra de grãos e de palha. Se a máquina quebra o grão compromete a qualidade do produto. Quebrando a palha, compromete a classificação dos grãos e da palha no côncavo, no bandejão e nas peneiras".




"Na trilha é necessário preocupação com a separação dos grãos da palha e com a distribuição da palha no sistema industrial da máquina, mas temos que pensar também na qualidade do produto final, pois grão quebrado também é perda. E quando se trata de grão-semente é bom lembrar que a trilha pode comprometer o vigor e poder germinativo. Nesse caso é preciso trabalhar com o côncavo o mais afastado possível do cilindro e este na menor rotação possível. Num primeiro momento é considerado grão quebrado aquele que aparece em pedaços. No caso da semente o dano mecânico pode ser interno e nem sempre é percebido a olho nú, esse grão pode apresentar poder germinativo e vigor logo após a colheita e comprometer essas características posteriormente, na hora do plantio", ressalta Pinheiro.

Percorrendo alguns Estados, Plínio Pinheiro verificou que os problemas são praticamente os mesmos no que se refere à conservação das máquinas, índices de perdas e treinamento do pessoal. Mas em algumas regiões a situação fica um pouco mais complicada, pois na hora da manutenção faltam peças que, em função das grandes distâncias demoram para chegar. Ele sugere que nesses casos se crie a cultura de treinamentos periódicos na propriedade, onde todo o pessoal conheça o processo e que a manutenção seja planejada com antecedência. Pinheiro acredita que agindo assim o produtor terá a peça no momento certo, não vai atrasar a colheita, podendo, inclusive economizar, adquirindo os produtos com preços melhores. "Em algumas regiões a distância faz com que uma peça para reposição leve de 4 a 7 dias para chegar na propriedade. Se esse for o momento da colheita o risco e as perdas tornam-se ainda maiores. Houve casos em que a chuva chegou e a manutenção da máquina não estava concluída. Por isso entendemos que, para colher, também é necessário planejamento, pois quando a cultura permitir o início da colheita a máquina deve estar em condições de trabalhar", finaliza.


NA COLHEITA DA SOJA
  • maior atenção com o molinete e navalha de corte;
  • regulagem da altura do molinete: a maior possível;
  • velocidade do molinete: a menor possível;
  • arames do molinete: o menor ângulo possível, evitando plantas enroladas e debulha;
  • sistema de corte: cuidado com o estado de conservação;
  • caracol: na altura adequada, não trabalhar com o caracol muito baixo porque provoca a debulha do grão antes de chegar no sistema de trilha;
  • velocidade do caracol: a menor possível para não provocar debulha;
  • cilindro e côncavo: velocidade baixa do cilindro e côncavo afastado;
  • ar: procurar trabalhar menor volume, principalmente variedades transgênicas que possuem menos palha e grão mais leve;
  • peneira: mais fechada possível, não permitindo o acúmulo de palha sobre peneira, podendo trabalhar com menos ar;
  • bandejão: estratifica e separa o grão da palha, o grão ao chegar nas peneiras pode ser misturado novamente com a palha quando o volume de ar for muito forte;
  • na colheita da soja é importante usar os levantadores (jacaré ou cristas) que tem a função de abrir, separar a palha que fica sobre o saca-palha retardando a saída. As colheitadeiras trazem de fábrica apenas 50% do número necessário, que são intercalados em cada queda do saca-palha, é importante usar em todas as quedas.

NA COLHEITA DO MILHO

  • No milho a regulagem é mais simples, pois com as plataformas disponíveis, espaçamento de plantio, densidade de semeadura, altura da planta, lavouras com poucas plantas invasoras, as perdas por plataforma podem ser desconsideradas;
  • O problema do milho está no côncavo, é nesse componente que o grão precisa ser separado sem produzir palha miúda e, principalmente, pedaços de sabugo, que são elementos muito pesados sobre as peneiras não permitindo separação e tornando necessário o uso de ar muito forte;
  • Uma característica da colheita do milho é o maior índice de perdas no saca-palha. O saca-palha não tem regulagem. É necessário, portanto, mantê-lo limpo através da manutenção diária;
  • É possível melhorar o sistema invertendo as cristas (virando a parte de trás para frente) na primeira queda, para reter mais a palha, porque em algumas situações o grão fica preso numa espécie de caneco;
  • A cortina separadora também é fundamental no retardamento da saída da palha para que aja maior número de levantes separando o grão dos resíduos, evitando perdas;
  • A regulagem da altura do pente do côncavo em relação a barra do batedor traseiro também tem papel importante na redução de perdas de milho pelo saca-palhas.

NA COLHEITA DO FEIJÃO

  • como na soja, a colheita do feijão precisa de cuidado especial na plataforma;
  • devido a baixa inserção de vagens, é necessário trabalhar com a plataforma rente ao solo, se não houver cuidado, a máquina vai recolher junto com o feijão a palha da cultura anterior, comprometendo o processo;
  • é fundamental manter o sistema de molinete e navalha em bom estado de conservação;
  • se possível usar côncavo especial para feijão, além de trabalhar com as peneiras sempre limpas;
  • Lembrar que a colheita do feijão exige que a colheitadeira trabalhe com baixa rotação do cilindro, tornando, na maioria dos casos, necessário o uso de equipamentos especiais (redutor de velocidade).

Revista Plantio Direto, edição 93, maio/junho de 2006.

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