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Milho


Redução do espaçamento entre fileiras: benefícios e limitações

Alvadi Antonio Balbinot Junior1 e Nilson Gilberto Fleck2
1 Eng. Agr., M.Sc., Pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri). BR 280, km 219,5, C.P. 216, Cep 89460-000, Canoinhas, SC, e-mail: balbinot@epagri.rct-sc.br.
2 Eng. Agr., Ph.D., Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). C.P. 15100, Cep 90001-970, Porto Alegre, RS, e-mail: fleck@ufrgs.br.

1. Introdução

A redução do espaçamento entre fileiras de plantas na cultura do milho de 1,0 a 0,8m (espaçamentos convencionalmente usados) para 0,6 a 0,4m, é uma prática de manejo que está sendo adotada por alguns agricultores e, ao mesmo tempo, é objeto de pesquisa por parte da comunidade científica. Pesquisas sobre esse tema têm sido desenvolvidas em vários países; contudo, os resultados ainda não são consensuais, já que as condições de ambiente e os genótipos variam entre os locais. Adicionalmente, muitos agricultores que cultivam milho manifestam dúvidas quanto à efetividade dessa prática de manejo para aumentar a produtividade de grãos, ou mesmo em proporcionar outros benefícios, como, por exemplo, facilitar o manejo de plantas daninhas. Esse trabalho tem como objetivos discutir algumas implicações da redução do espaçamento entre fileiras do milho sobre o desempenho da cultura e apresentar algumas limitações à adoção dessa tecnologia.

2. A redução do espaçamento entre fileiras aumenta a produtividade de grãos?

Durante o desenvolvimento das plantas, ocorre competição pelos recursos do solo (água e nutrientes) e pelo recurso radiação solar. A competição pode ocorrer entre plantas da mesma espécie, caracterizando a competição intraespecífica, ou entre diferentes espécies, gerando a competição interespecífica. Mudança no espaçamento entre fileiras do milho altera, principalmente, a competição intraespecífica e, por conseqüência, outros efeitos são observados na cultura (Figura 1).

Com a manutenção da mesma quantidade de plantas de milho por área, ou seja, a mesma população de indivíduos, mas reduzindo o espaçamento entre fileiras, as plantas de milho ficam mais distanciadas umas das outras na linha de semeadura, levando a uma melhor distribuição espacial das mesmas. Esse melhor arranjo de plantas melhora as distribuições espaciais das folhas e das raízes da cultura, reduzindo a competição intraespecífica. Teoricamente, nessa situação, a capacidade de interceptação de radiação solar e aproveitamento de água e nutrientes pelo milho podem aumentar; com isso, há elevação da capacidade fotossintética da cultura e aumento na produtividade de grãos.

O incremento na produtividade de grãos de milho, decorrente da redução do espaçamento entre fileiras, é atribuído à redução da competição intraespecífica e, por conseqüência, aos aumentos do índice de área folhar da cultura, taxa de crescimento relativo e taxa de assimilação líquida (Bullock et al., 1988).

O efeito teórico da redução do espaçamento entre fileiras sobre o aumento da produtividade de grãos confirma-se por alguns experimentos de campo. Já na década de 70, Mundstock (1977) constatou aumentos entre 5 e 10% na produtividade de grãos de milho obtidos com uso de espaçamentos menores (0,5 e 0,7m) do que os convencionalmente utilizados (0,8 a 1,0m). Em trabalho conduzido em Lages-SC, Sangoi et al. (2001) verificaram aumento linear de produtividade de grãos com a redução do espaçamento de 1,0m até 0,5m, em estudo que utilizou dois genótipos de milho. Por outro lado, em Eldorado do Sul- RS, Argenta et al. (2001a) detectaram que o aumento na produtividade de grãos com a redução do espaçamento entre fileiras foi evidente somente em híbridos de ciclo superprecoce e com baixa estatura. Resultados semelhantes foram obtidos em Canoinhas-SC, onde se constatou aumento linear na produtividade de grãos em híbrido superprecoce e com baixa estatura com redução do espaçamento de 1,0 à 0,4m; mas, para variedade tardia e com elevada estatura de planta esse comportamento não foi observado (Balbinot & Fleck, no prelo).

Essas variações de resposta entre experimentos ocorrem porque o efeito do espaçamento entre fileiras sobre a produtividade de grão depende do genótipo, da população de plantas e das condições ambientais e de manejo durante o cultivo.

Genótipos que apresentam ciclo superprecoce e baixa estatura respondem mais intensamente à redução do espaçamento, enquanto genótipos de ciclo normal e elevada estatura apresentam menor resposta, provavelmente porque mesmo em espaçamentos maiores, esse tipo de planta ocupa rapidamente as entrelinhas (Argenta et al., 2001a; Argenta et al., 2001b; Flesch & Vieira, 2004). Teoricamente, o aumento da produtividade de grãos, decorrente da redução do espaçamento entre fileiras, seria mais evidente em elevadas populações de plantas, já que em espaçamentos e populações elevadas (alta concentração de plantas na linha), a competição intraespecífica seria maior. Contudo, Argenta et al. (2001a) verificaram aumento na produtividade de grãos com redução do espaçamento somente com 50.000 plantas/ha, enquanto com 65.000 plantas/ha esse efeito não ocorreu. Assim, os dados ainda são insuficientes para uma conclusão definitiva acerca da relação do espaçamento entre fileiras e a produtividade de grãos de milho.

Em relação às condições ambientais, espera-se que em situações de reduzidas luminosidade e precipitação pluvial e escassez de nutrientes, as plantas cultivadas em espaçamentos reduzidos apresentem maior aproveitamento dos recursos limitados. Em Lages-SC, o aumento na produtividade de grãos com a redução do espaçamento foi mais evidente quando o milho foi semeado no dia primeiro de outubro, em relação à semeadura no dia 15 de novembro (Figura 2) (Sangoi et al., 2001). Isso ocorreu, provavelmente, porque em semeadura do cedo há menor quantidade de radiação solar disponível à cultura no início do ciclo de desenvolvimento.

Em adição, plantas de milho submetidas à deficiência de nitrogênio e semeadas em espaçamento de 35cm entre fileiras apresentaram produtividade de grãos 47% superior à observada em espaçamento de 70cm (Barbieri et al., 2000). No entanto, sob condição de suplementação de nitrogênio, a diferença em produtividade foi de 10% em favor do menor espaçamento. Esses dados indicam que, em situações em que os recursos do ambiente (água, radiação solar e nutrientes) são escassos, a redução do espaçamento exerce efeitos mais pronunciados sobre a produtividade da cultura do que em situações em que o suprimento de recursos seja adequado.

3. Outras vantagens da redução do espaçamento entre fileiras

Em algumas situações, mesmo que a redução do espaçamento entre fileiras de milho não resulte em aumento na produtividade de grãos, sua adoção pode justificar-se pelo aumento na competitividade da cultura com plantas daninhas devido a maior quantidade de radiação solar que o milho intercepta (Teasdale, 1995). Na Figura 1, observa-se que a melhor distribuição de folhas e raízes, decorrente da adoção de espaçamentos reduzidos, confere ao milho maior capacidade de interceptação de radiação solar e aproveitamento de água e nutrientes, ocupando o espaço mais rapidamente, o que diminui a disponibilidade de recursos ao crescimento e desenvolvimento das plantas concorrentes (Balbinot & Fleck, 2005). Em genótipo com baixa estatura, a redução do espaçamento de 1,0m para 0,4m diminuiu a massa seca das plantas daninhas em 46% e reduziu as perdas de produtividade decorrentes da competição exercida pelas plantas daninhas (Balbinot & Fleck, no prelo). Nesse sentido, o uso de espaçamentos estreitos constitui-se numa prática cultural de manejo de plantas daninhas em milho, que pode diminuir a dependência de herbicidas para se atingir elevadas produtividades.

Com a redução do espaçamento e conseqüente aumento no número de fileiras da cultura, os adubos são distribuídos de maneira mais homogênea na área, ou seja, a concentração de adubo na linha torna-se menor, o que reduz o problema de salinização por ocasião da germinação das sementes e de emergência das plântulas.

Outra vantagem da adoção de espaçamentos reduzidos (0,4 a 0,5m), refere-se ao uso de semeadoras para milho, soja e feijão sem que haja necessidade de mudanças de espaçamento entre linhas da semeadora, o que facilita o processo de semeadura dessas culturas, sem gasto de tempo para realizar as adaptações. Essa vantagem torna-se importante para agricultores que possuem apenas uma semeadora e necessitam semear milho, soja e feijão em um período curto de tempo. Em relação às semeadoras, cabe salientar que a redução do espaçamento permite que as mesmas trabalhem com menor velocidade de rotação do sistema de distribuição de sementes, melhorando sua distribuição nas linhas.

Devido a maior velocidade de sombreamento do solo, observada em semeaduras com espaçamento reduzido, especula-se que haja menores perdas de água por evaporação. Contudo, os dados disponíveis ainda não permitem confirmar tal hipótese. Outro ponto importante é que alguns agricultores relatam que, ao reduzirem o espaçamento entre fileiras de milho, ocorre redução na altura das plantas e, conseqüentemente, diminuição de acamamento e quebra de colmos. Todavia, os dados de pesquisas realizadas na região Sul do Brasil indicam que as mudanças de espaçamentos entre fileiras não interferem na a altura de planta (Argenta et al., 2001a; Sangoi et al., 2001; Balbinot & Fleck, no prelo), e sobre a altura de inserção da primeira espiga (Argenta et al., 2001a). Nesse sentido, a redução do espaçamento pode diminuir o acamamento e a quebra de colmos, mas devido a outros motivos, como, por exemplo, maior sustentação da planta por raízes e/ou maior diâmetro de colmos.

4. Limitações práticas para redução do espaçamento entre fileiras

Sem dúvida, a principal limitação ao uso de espaçamentos reduzidos em milho se refere à necessidade de se dispor de plataforma específica para realizar a colheita. Atualmente, já existem plataformas fabricadas para colher milho em espaçamentos de 0,4 a 0,5m, porém o custo das mesmas é elevado. Isso desestimula muitos agricultores a semear milho em fileiras próximas, pois há necessidade de se cultivar em áreas extensas para compensar o custo de depreciação da plataforma.

Cada agricultor deve avaliar a relação custo/benefício para a tomada de decisão, ponderando as vantagens da redução do espaçamento e o investimento na aquisição da plataforma. Para agricultores que não cultivam áreas extensas, uma alternativa seria a compra da plataforma em conjunto com outros usuários. Por outro lado, para agricultores que cultivam áreas pequenas e que colhem o milho manualmente, em geral para alimentar animais na propriedade, a colheita não se constitui em problema.

No caso de adoção do espaçamento reduzido entre fileiras, os tratos culturais (aplicações de adubação nitrogenada em cobertura, herbicidas e inseticidas) devem ser adaptados ao novo esquema de distribuição de plantas, com o objetivo de minimizar danos à cultura.

Quando o objetivo do agricultor é produzir milho para silagem de planta inteira e a colheita for realizada com ensiladeira de linhas individuais, deve-se considerar o aumento do número de horas de trabalho para realizar a colheita, já que, ao se reduzir o espaçamento, o número de linhas na área aumenta. Além disso, deve-se considerar que a maior distância percorrida pelo trator para realizar a colheita implica em maior compactação do solo.

5. Perspectivas futuras sobre a técnica

A utilização de espaçamentos que variam de 0,4 a 0,5m tende a aumentar na cultura do milho, principalmente por parte de agricultores que cultivam híbridos ‘modernos’ (baixa estatura e folhas eretas) em áreas extensas e que utilizam alta tecnologia em temos de adubação e controle de plantas daninhas e pragas. Nessa situação, a aquisição de plataformas para colheita apresenta viabilidade econômica, já que o custo de depreciação da mesma é suplantado pelo aumento na produtividade de grãos, redução do custo para controle de plantas daninhas e agilidade na semeadura. No caso de agricultores que cultivam milho em pequenas áreas, onde ele é colhido manualmente, o uso de espaçamentos reduzidos é facilitado. Em Santa Catarina, alguns agricultores que cultivam milho em áreas entre 0,5 e 3,0ha já adotam essa tecnologia. Como se tratam de ‘agricultores familiares’, em que as áreas semeadas são restritas, há necessidade de maximizar a produtividade do milho, que, em geral, é utilizado na produção animal, agregando valor à produção de grãos.

Em relação à pesquisa, é provável que estudos adicionais sejam realizados, objetivando avaliar os efeitos da redução do espaçamento sobre a produtividade de grãos de milho numa maior variedade de ambientes, bem como elucidar os efeitos dessa prática sobre o aproveitamento de radiação solar, nutrientes e água pela cultura, manejo de plantas daninhas, incidência de pragas e doenças, perda de água por evaporação, acamamento de plantas e quebra de colmos.

6. Considerações finais

A redução do espaçamento entre fileiras de milho para 0,4 a 0,5m, constitui-se numa alternativa promissora de manejo, que pode melhorar a produtividade da cultura e facilitar o manejo de plantas daninhas. No entanto, antes de decidir sobre essa prática, os agricultores devem analisar todo o sistema de produção de sua propriedade, a fim de verificar se não há gargalos a serem solucionados prioritariamente. Por exemplo, problemas relacionados à má condução do sistema de plantio direto, não adoção de rotação de culturas, controle deficiente de plantas daninhas, pragas e doenças, uso de genótipos de baixo potencial produtivo, ou máquinas que operam com baixo rendimento devem ser solucionados no menor tempo possível. Nesse contexto, a simples redução do espaçamento entre fileiras de milho torna-se uma questão secundária, cujos benefícios potenciais serão minimizados.

7. Referências bibliográficas

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Dados para Referências Bibliográficas:
Revista Plantio Direto, edição nº 87, maio/junho de 2005. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo - RS.

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