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Rotação de culturas


Espécies alternativas para formação de palha no cerrado

Marcelo Sampaio Pimentel


Mais do que contribuir com o plantio direto, as novas alternativas de culturas para rotação e formação de palhada devem agregar valor ao negócio. A preocupação com essa funcionalidade é o caminho que pesquisadores encontraram para convencer o produtor a adotar opções como quinoa e amaranto. Argumentar simplesmente que a lavoura pode ser boa porque forma palhada, melhora e protege o solo e ainda aumenta o rendimento da cultura principal, não é suficiente para que essas alternativas sejam adotadas

Em 2001, a Embrapa Cerrados lançou comercialmente um grão natural da região dos Andes pouco conhecido no mercado brasileiro: a quinoa, uma quenopodiácea, assim como o espinafre. Resultado de pesquisas iniciadas cerca de dez anos antes, a cultivar BRS Piabiru chegava, então, como opção de diversificação de culturas para uma região na qual o monocultivo está muito presente. No ano seguinte, chegou, com o mesmo intuito, o também andino amaranto (BRS Alegria), uma amarantácea domesticada da família do caruru.

Quinoa, amaranto, kenaf — malvácea africana, da mesma família do algodão, que produz fibra na casca e no talo — e até o girassol selvagem — variedade perene da família do girassol comum —, fazem parte de um grupo de plantas pesquisadas que unem a condição de culturas alternativas para a safrinha, principalmente para a região dos cerrados, com a possibilidade de servirem como formadoras de palhada para cobertura do solo em plantio direto.

Essas opções vêm sendo pesquisadas e lançadas sistematicamente no mercado brasileiro oferecendo uma série de vantagens agronômicas altamente desejáveis para o sistema produtivo, como os benefícios da rotação, diversificação de espécies e a formação de palhada de qualidade para o plantio direto, além de contarem com um certo potencial comercial.

Todavia, hoje, mais de três anos depois de seu lançamento, a quinoa, por exemplo, ainda continua desconhecida do mercado. Raríssimos foram os produtores que se entusiasmaram em cultivá-las. Segundo Carlos Roberto Spehar, pesquisador da Embrapa Cerrados e responsável pelos estudos, pode-se dizer que a área com quinoa no Brasil tende a zero e limita-se a apenas alguns hectares. O amaranto vive situação semelhante. O contexto reflete o desinteresse por parte do produtor, que resiste em adotar culturas que poderiam auxiliá-lo em seu sistema produtivo.

"Tentamos convencer o agricultor de que introduzindo uma planta com essas características, mesmo sem mercado para escoar a produção, ele vai garantir a renda do cultivo principal, pois ela melhora as condições físicas do solo e aporta matéria orgânica. Esses já seriam motivos suficientes para assegurar vantagens à frente, quando a soja retornasse nessa mesma área. É por isso que estimulo o plantio dessas espécies, mesmo que num primeiro momento não se tenha mercado. Os agricultores até ouvem o que falamos, mas na hora de tomar a decisão, são bastante conservadores. Entendo perfeitamente, se estivesse na situação deles também iria pensar primeiramente no mercado, mas precisamos fazê-los pensar no médio e longo prazo. Se ele não tem mercado, mas ao produzir essa cobertura cultivada no resíduo da soja, ele terá vantagens quando voltar com a leguminosa. Se o produtor perceber isso, a alternativa ficará mais atrativa", afirma Spehar.

Funcionalidade

A quinoa e o amaranto têm emprego na alimentação humana e animal de alta qualidade. Já o kenaf serve para a produção de fibra industrial, produto pelo qual, de acordo com o pesquisador, já há uma demanda crescente em função de muitas das fibras usadas hoje serem sintéticas, derivadas do petróleo. Spehar explica que o kenaf produz uma fibra ideal para uso na indústria automobilística além de servir também para a alimentação do gado como forrageira.

Isto é funcionalidade. E é justamente neste ponto que residem as maiores esperanças do pesquisador em fazer essas culturas ganharem um razoável porte comercial. "A funcionalidade é uma das coisas que mais buscamos nessas opções de culturas para torná-las mais atraentes para o produtor. Se falarmos: cultive essa espécie porque será boa cobertura do solo e aumentará o rendimento da soja, não adianta. Ao acenar com a possibilidade de renda extra, através da agregação de valor, o interesse aumenta", explica.

O agrônomo e consultor, Ronaldo Trecenti lembra que a rotação de culturas e a diversificação de espécies são princípios elementares do plantio direto. "No ABC do plantio direto, o B representa a biodiversidade, portanto, é necessário que existam alternativas para não ficarmos no cultivo de apenas uma única espécie de cobertura de solo. Veja o que aconteceu com o milheto, que hoje apresenta uma série de problemas de degeneração, hipersensibilidade a doenças, pragas para ele próprio além da potencialização do problema para a cultura principal, como lagarta que ataca o milho e o sorgo. Não podemos esquecer que para a estruturação do solo é importante que haja diversidade de sistemas radiculares através do uso de espécies diferentes. Onde se têm gramíneas com sistema agregador deve-se utilizar leguminosas ou outras espécies que tenham sistema descompactador ou arador biológico, como é o caso de girassol, amaranto, guandu, kenaf, nabo forrageiro, entre outros".

Carbono

Por não pertencer à família das leguminosas nem das gramíneas, o cultivo da quinoa ajuda a quebrar o ciclo de pragas e doenças das lavouras principais. Possui também uma boa tolerância à seca, precisando de água apenas nas primeiras semanas após o plantio, depois desse período torna-se menos suscetível ao estresse hídrico, o que garante o seu desenvolvimento. A palhada da quinoa além de cobrir de forma satisfatória o solo, possui uma velocidade de decomposição intermediária entre à do milho e à da soja, conseguindo proteger o solo com eficiência até a safra seguinte.

Com relação às pragas, Spehar diz que algumas podem até migrar para a quinoa, pois algumas das pragas da soja estão atacando outras culturas. Já no que diz respeito às doenças, a maioria é específica para cada cultura. Cultivar uma quinoa após a soja, quebra o ciclo da doença da leguminosa. Outra vantagem é a proteção do solo através da cobertura durante toda a entressafra (período seco).

"A prática permite ainda a imobilização de CO2, muito interessante num momento que todos pensam na questão do seqüestro de carbono; ou seja, em práticas que retenham o CO2 que está presente na atmosfera", diz o pesquisador.

Renda

Outra vantagem é a possibilidade de renda extra. Ainda que a demanda da quinoa, por exemplo, não seja grande, o valor é muito maior do que o do milho. Uma empresa em São Paulo, que importa quinoa da Bolívia, informa que o preço do quilo chega ao consumidor em torno de R$ 8,00 ou R$ 10,00. A qualidade do produto brasileiro é idêntica ao boliviano, mas com a vantagem de custos menores de produção e frete. Na Bolívia, como o plantio é realizado em pequenas propriedades, não há escala na produção.

Num comparativo com o milho, as três opções safrinha, quinoa, amaranto e kenaf, mostram-se são mais rentáveis. "Porém, é preciso ressaltar que o mercado atual ainda é muito pequeno. Com sua estruturação e o aumento da oferta, essas relações mudam e o lucro diminui. Entretanto, até a chegada de um ponto de equilíbrio, haverá vantagens aos pioneiros no cultivo" (ver tabela).

Economicamente, essas plantas apresentam também baixo custo de produção na safrinha. Primeiro, pelo fato de o consumo de sementes ser reduzido e pelo fato do próprio agricultor produzir a sua semente.

"No milho, os gastos com sementes chegam a representar cerca de 15% dos custos de produção. Enquanto que com o amaranto e a quinoa esse custo não existiria. Considera-se porém, que dentro de dez ou 15 anos, quando as culturas ganharem maior importância comercial, ocorram mudanças. Com relação à questão do risco natural da safrinha, as plantas andinas são boas alternativas justamente por eliminarem altos investimentos, o que minimiza o risco de prejuízo, mesmo em caso de perdas".

É importante lembrar que esses grãos devem ser cultivados preferencialmente em áreas onde já exista o plantio direto, com um bom manejo de plantas daninhas, para que elas não atrapalhem a cultura, pois nos custos de implantação da lavoura não estão inclusos herbicidas e sementes, o que o produtor vai usar é um dessecante antes do plantio. É necessária a adubação se a cultura ocupar a posição de uma lavoura comercial, nesse caso o hectare teria um custo máximo de R$ 700,00 a 800,00, com um rendimento médio de 3 toneladas. Já como safrinha, aproveitando-se o resíduo da cultura anterior, os custos caem significativamente, chegando a R$ 500,00, mas o rendimento também cairia, ficando em torno de 1 a 1,5 tonelada/ha, mesmo assim, garante Spehar, ainda seria compensador.

A Embrapa tem estimulado que, num primeiro momento, os produtores façam plantios de observação, em áreas pequenas que não comprometam a renda da propriedade. Caso não consiga vender o produto, podem usar os grãos na alimentação de animais domésticos, para consumo local. Caso aumente a demanda pelo produto, pelo fato de já possuir a semente, o produtor só precisará aumentar a área e terá vantagens com isso. Para Ronaldo Trecenti é sempre importante fazer a validação de adaptação regional/local das espécies.

Empresa

Na opinião de Spehar, o que falta para o cultivo dessas plantas deslanchar é um elo de ligação entre o produtor, dono de condições de produzir com a tecnologia já existente na propriedade, e quem tem a demanda pelo produto, que muitas vezes não sabe que existe produção dentro do país, sendo obrigado a importar a matéria prima.

"Não há ligação entre quem produz e quem demanda. Um não sabe do outro. Para ajudar a resolver essa questão estamos montando uma empresa focada nessa ligação. Se não o fizermos, a coisa não decola, apesar de todo o potencial das plantas. Com isso, começará a surgir o mercado e então o agricultor poderá expandir a produção. É uma questão de tempo para que o impasse se resolva. A procura por esse tipo produto tem crescido paulatinamente, só que as casas de produtos naturais não estão encontrando quem os produza. Acredito que dentro de alguns anos já existam algumas centenas ou milhares de hectares plantados", projeta Spehar.

Ele explica que o crescimento da consciência pela necessidade de diversificar e fazer a rotação, está presente no agricultor, mas é necessário também vantagens no plano econômico, tornando a planta uma alternativa que dê retorno. "Trabalhamos no sentido de oferecer novas opções que possam entrar no sistema e ajudar o produtor. Ele está sofrendo cada vez mais os efeitos da não diversificação. A ferrugem, por exemplo, aumentou em cerca de R$ 200,00 o custo de produção por hectare. É o lucro que está indo pelo ralo, exatamente num momento de margens estreitas".

Para Ronaldo Trecenti, a ampliação na adoção dessas culturas passa, também, pela conscientização dos técnicos, produtores e autoridades à respeito da importância do estudo de novas espécies que possam atender às necessidades de rotação de culturas, de diversificação de espécies e de formação de palhada. Ele diz que todos precisam estar mais envolvidos com a causa. É importante também que os estudos se aprofundem com certa urgência, nos consórcios de gramíneas com leguminosas, que tem contribuído muito nesse sentido.

"A diversificação de culturas e a formação de palhada devem ser encaradas como um investimento que vai proporcionar sustentabilidade. Precisamos nos empenhar em levantar essa bandeira. Até mesmo os agrônomos precisam ter uma visão holística do sistema de produção, e não visões muito específicas e pontuais. Precisamos de capacitação e atualização permanente, através de cursos, encontros e congressos. Mas não é só a parte do pensamento que precisa ser melhorada, mas também a do estímulo financeiro, através de linhas de crédito diferenciadas e outros tipos de incentivos que podem oferecidos ao produtor", observa Trecenti.

Cuidados

É importante destacar que essas novas culturas devem ser conduzidas em áreas nas quais também sejam plantados milho e soja, pois são exigentes e requerem solos corrigidos, com fertilidade elevada. O produtor não pode se descuidar com relação à época de plantio, a fim de evitar que a fase de amadurecimento não coincida com um período de chuvas. Como a planta é destinada à safrinha, o amadurecimento vai se dar durante a seca, o que diminui significativamente os riscos de perdas e melhora as condições de preservação da boa qualidade do grão. O ciclo do amaranto pode chegar a 100 dias e o da quinoa a 140 dias.

Outros cuidados necessários dizem respeito ao uso das semeadoras. É necessário usar a chamada terceira caixa, fornecida por alguns fabricantes de plantadeiras para o plantio de sementes miúdas, em geral, forrageiras. A recomendação se faz necessário em função da pouca densidade das sementes. A distribuição deve ser realizada com algo em torno de um grama de semente a cada dez metros. Trata-se, portanto, de uma regulagem difícil. As culturas exigem operadores de maquinário bem treinados, inclusive na hora da colheita.

"Da mesma forma que pode ser vantajoso trabalhar com sementes pequenas, esse manuseio pode ser também uma desvantagem. Problemas de falta de uniformidade são os mais comuns. O plantio não pode ser muito profundo para não atrapalhar a emergência e nas primeiras vezes o produtor pode errar, mas com os devidos ajustes, o problema se resolve" explica.

Dados para referências bibliográficas:

Revista Plantio Direto, edição nº 85, janeiro/fevereiro de 2005. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo.

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