Capa
A Revista
Como Ler
Arquivo
Exclusivo Online
Assine
Contato
ASSINANTE
Esqueceu A Senha?
Peça Sua Senha!
SERVIÇOS
Classificados
Livros
Links
Eventos
 
LIVROS
 
ASSINANTE
Usuário:
Senha:
BUSCA
Plantio Direto HomePG
Adicionar aos Favoritos
Regiões


Plantio direto no semi-árido

Márcio Scaléa
Eng.-Agr., Monsanto do Brasil - Uberaba-MG - E-mail: marcio.scalea@monsanto.com

Em quase 30 anos de história no Brasil, o Plantio Direto teve uma trajetória bem conhecida por todos aqueles que acompanham a nossa agricultura, sendo responsável por um grande salto qualitativo na forma de se cultivar a terra. Economia, praticidade e maior envolvimento e sutileza no resolver os problemas do dia a dia andaram lado a lado, com maior respeito ao meio ambiente e a preocupação com a sustentabilidade dos processos produtivos, trazendo benefícios não só aos agricultores, mas também e principalmente à sociedade em geral.
Nesta trajetória, o Plantio Direto se disseminou por quase todo o país, seja nas áreas subtropicais ao Sul, seja em pleno Trópico, vindo a ser adotado em praticamente todas as culturas de importância econômica, em mais de 14 milhões de hectares nesta safra de 2001/2002. Mas, ainda há muito caminho a andar, pois existem vários bolsões onde a adoção do Plantio Direto é baixa, devido à barreiras técnicas ainda não totalmente equacionadas ou à impossibilidade de levar a tecnologia a certos segmentos produtivos, notadamente os pequenos e micro produtores.
Em alguns destes bolsões a mudança está a caminho e a passos largos. O Estado de São Paulo, por exemplo, em 3 anos passou de menos de 35.000 ha para mais de 800.000 ha de Plantio Direto, graças às políticas de incentivo da Secretaria de Agricultura e ao empenho dos órgãos estaduais de Pesquisa e Extensão. Em outros bolsões, como no Sul de Minas Gerais, a mudança está acontecendo de forma ainda lenta, dependente que é de incentivos oficiais (financiamentos subsidiados para máquinas, por exemplo) e do estímulo da extensão rural, ainda pouco familiarizada com o Sistema Plantio Direto.O Sul do Espírito Santo e o Norte Fluminense já estão na rota dos esforços de validação e de difusão do Plantio Direto, através de projeto específico liderado pela Embrapa Solos, do Rio de Janeiro.
Há locais, todavia, onde apesar de existirem pesquisas há vários anos, o Plantio Direto enfrenta sérios questionamentos, como é o caso do Sertão Nordestino. Nesta região, caracterizada por chuvas muito escassas (de onde vem o nome de semi-árido pelo qual é conhecida), aparentemente se anula a primeira e grande característica do sistema, que é controle da erosão, pois se imagina que a erosão não seja problema onde quase não chove.
Mas, por incrível que possa parecer, mesmo nessas regiões semi-desérticas, onde a precipitação anual é menor do que 700 mm, os problemas de erosão e assoreamento não só estão presentes, como são muito sérios. Para melhor entender esta situação paradoxal é necessário descrever duas características regionais: regime de chuvas e sistema de exploração da terra.

Regime de Chuvas

Não se pretende aqui escrever um tratado sobre o regime das chuvas no Semi-Árido Nordestino, mas apenas transmitir as observações resultantes de algumas viagens de trabalho pelo Sertão de Pernambuco, realizadas em 2001. O que nos chamou a atenção foi que, apesar de escassas, as chuvas são muito concentradas, ou seja, chove pouco, mas em ocasiões raras, talvez 4 a 7 boas chuvas por ano normal, o que se traduz em precipitações intensas. Estas precipitações, caindo sobre solos preparados intensivamente (e o que é pior, morro abaixo), descobertos, compactados e com declividade muitas vezes acentuada, acabam provocando severas erosões e o conseqüente assoreamento dos leitos dos rios.

Sistema de Exploração da Terra

O sistema que predominou até pouco tempo atrás era o conhecido pelo nome local de “broca”, que nada mais é do que a exploração itinerante de partes da propriedade, também comum em outras regiões do país e até entre as populações indígenas, de onde talvez tenha se originado. Ele consistia em roçar a vegetação da área escolhida, ainda durante o período seco, fazer um aceiro e logo após as primeiras chuvas queimar e em seguida plantar. Era totalmente manual, pois os tocos não permitiam mecanização. O plantio se repetia por mais um ou dois anos, partindo-se depois para outra área, deixando esta em repouso por um período variável, de 5 a 20 anos. Era um sistema muito interessante, pois permitia que a fertilidade e a estrutura do solo se recuperassem durante o repouso, sendo o fogo a sua única falha. Dentro das limitações inerentes, o sistema de brocas era razoavelmente produtivo e sustentavel, mas a maior demanda por alimentos (por uma população sempre crescente), a possibilidade de mecanização (permitindo a uma família explorar áreas maiores) e a necessidade de gerar um excedente de produção (que comercializado se traduzia numa renda extra, necessária aos novos hábitos de consumo), fizeram com que os periodos de “repouso” das terras fossem se reduzindo, passando o agricultor a submetê-las a uma exploração contínua e a uma mecanização intensiva. A perda de estrutura e a redução de matéria orgânica, aliadas às chuvas intensas, abriram caminho para a erosão e a degradação. Por outro lado, terras antes nunca exploradas, por causa de sua topografia acidentada, passaram a ser incorporadas aos sistemas de brocas, aumentando os riscos de erosão.
Entende-se, então, como uma região semi desértica pode ter sérios problemas de erosão, o que abre uma perspectiva muito interessante para a análise do sistema de Plantio Direto como uma alternativa de exploração sustentável destes solos tão ameaçados pela degradação. Mas, para inserir o Plantio Direto como uma alternativa viavel aos sistemas sertanejos de produção, faz-se necessário entender primeiro o procedimento típico dos produtores do semi árido, dentro das condições locais.

Procedimentos Típicos do Produtor do semi-árido (Sequeiro)

Um típico agricultor sertanejo cumpre os seguintes passos para a implantação de sua roça de sequeiro;

Passo 1: Aguarda as primeiras chuvas (as “trovoadas”), geralmente em dezembro.
Passo 2: Com a umidade, faz o preparo do solo para o plantio: utilizando arado tombador de tração animal, arado de discos com trator ou grade de discos, ou mesmo enxadão.
Passo 3: Persistindo a umidade (o que é muito raro), faz o plantio, geralmente manual, com matraca ou enxadão. Normalmente a umidade não persiste, pois há nova estiagem de alguns dias ou semanas, aguarda novas chuvas, situação mais comum.
Passo 4: Com a umidade das novas chuvas em janeiro/fevereiro, se o terreno estiver limpo, poderá plantar. Mas isto é raro, pois a umidade restante das primeiras chuvas acaba sendo suficiente para provocar a germinação de muita sementeira de mato no solo revolvido pelo preparo. O mais comum é refazer o preparo do solo e de novo, se a umidade persistir, fazer o plantio. Se a umidade não persistir, aguardará novas chuvas.
Passo 5: Com a umidade das próximas chuvas, próximo ao dia de São José, em 19 de março, se o terreno estiver limpo, fará o plantio, já no limite dos prazos toleraveis. Se houver mato germinado, fará novo preparo leve e plantará, se a umidade persistir. Se não houver mais chuvas, terá perdido o ano.

Tivemos a oportunidade de visitar um pequeno agricultor na região de Flores, em Pernambuco, que preparou sua terra por três vêzes (dezembro de 2000, fevereiro de 2001 e março de 2001), e como não choveu mais após o dia 19 de março, nem sequer plantou sua roça. Foi um caso extremo, mas casos de 2 preparos e 2 plantios foram muito comuns pelo menos em 2001, em diversas regiões de Pernambuco (Cedro, Serrita, Afogados da Ingazeira, Tuparetama, etc.). Ou seja, o produtor sertanejo, cuja principal meta é de um lado maximizar o aproveitamento da escassa umidade disponível para a condução de sua roça, e de outro procurar fazer o seu plantio o mais cedo possivel, para melhor desfrutar das chuvas que ainda estão por vir, acaba fazendo tudo ao contrário: ao preparar o solo, joga fora boa parte da pouca umidade disponivel (entre 15 e 25 mm de umidade por operação), atrasando o plantio; ao atrasar o plantio, perde o melhor momento e se arrisca a plantar quando já há muito pouca chuva por cair. É a receita para o insucesso e para degradação, pois cada chuva provoca a sua erosão, que leva embora solo e trabalho.

Proposta de Sistema Alternativo de Plantio Semi-Direto

Pelo exposto acima, há a tendência de concluir que simplesmente parando de preparar o solo estaremos trazendo a solução para o semi-árido, mas não é bem assim. Experimentos de longa duração (mais de 15 anos) conduzidos pelo pesquisador Antonio Timóteo Sobrinho, do IPA (Empresa Pernambucana de Pesquisa Agropecuária) mostram que o pior tratamento é o sem preparo de solo, pois nesta situação ocorre forte compactação superficial que compromete todo o sistema. E isso seria de se esperar, pois a base do Plantio Direto é a palhada sobre o solo, e naquela situação de clima e de exploração não só não se consegue boa palhada, como o pouco que se consegue é essencial para complementar a alimentação das cabeças de gado que todo sertanejo possue, não restando nada para configurar um bom Plantio Direto na Palha, como o próprio nome sugere.
A possivel solução irá envolver a mudança não só de técnicas de cultivo, mas também de práticas tradicionais de criação de gado, com a adoção de um sistema intermediário, conforme o cronograma descrito no quadro 1.

Atividade
Época
Motivo
Preparo do solo
Primeiras chuvas
Quebrar camada adensada na superfície (escarificador em vez de arado/grade)
Repouso do terreno
Até haver novamente umidade disponível
Aguardar umidade para plantio e ter germinação de sementeira de mato
Aplicação de herbicida dessecante
Com solo novamente úmido
Eliminar mato germinado
Plantio de milho, feijão
Logo após a dessecação
Aproveitar umidade
Plantio de sorgo misto, silageiro ou forrageiro
Idem
Em parte da área, substituíndo milho, para produzir grão e palha


Procura-se, com o modelo acima, evitar os preparos de solo desnecessários assim como adotar um implemento que não revolva tanto o solo, mas que seja eficaz no rompimento das camadas adensadas, melhorando a infiltração das chuvas sem provocar a decomposição de eventuais restos de cultura. Ao aproveitar as segundas chuvas para dessecar e plantar, procura-se economizar umidade eganhar tempo, ambos essenciais quando se pensa em produtividade e riscos. A substituição de parte da área de milho por sorgo visa minimizar o efeito das possiveis estiagens, já que o sorgo é muito mais resistente à seca, mas também procura gerar um excedente de palhada (muito fácil de obter com sorgos silageiros quando usados para a colheita do grão). Esta palhada servirá para alimento do gado ou uso em cama de aves, com grande procura na região, permitindo que a palhada do milho seja preservada sobre o solo, vindo a melhorá-lo com o tempo.
Não se pretende aqui, indicar a fórmula mágica para resolver as mazelas da agricultura do semi-árido, mas apenas contribuir com uma visão diferente dos problemas locais, que no fundo são os mesmos problemas enfrentados por agricultores em qualquer parte do país ou do mundo: gerenciamento do tempo e da umidade (por falta ou excesso) para maximizar os resultados de uma lavoura. E promover a conscientização de que o Plantio Direto pode ser uma ferramenta importante nesta luta.

Este artigo está na versão completa.
 
© Revista Plantio Direto / Aldeia Norte Editora

Este site é integralmente editado e atualizado pelo Departamento Editorial da Plantio Direto.